quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Haddad não vê racismo em 'Caçadas de Pedrinho'

Autor(es): Agencia o Globo
O Globo - 04/11/2010







Ministro da Educação pedirá ao CNE que reexamine parecer contrário à distribuição do livro para escolas públicas



BRASÍLIA. O ministro da Educação, Fernando Haddad, anunciou ontem que não homologará parecer do Conselho Nacional de Educação (CNE) contrário à distribuição, para escolas públicas, do livro “Caçadas de Pedrinho”, do escritor Monteiro Lobato (1882-1948). Diferentemente do conselho, Haddad disse não ver racismo na obra. Ele pedirá à Câmara de Educação Básica do CNE que reexamine o assunto e modifique o parecer.

A decisão do conselho só pode entrar em vigor se tiver a homologação do MEC. O ministro disse que inúmeros educadores se manifestaram contra a posição do CNE.

— É incomum a quantidade de manifestações que recebemos de pessoas que são especialistas na área e que não veem nenhum prejuízo em que essa obra de Monteiro Lobato continue sendo adotada nas escolas — disse Haddad.

O presidente da Câmara de Educação Básica do CNE, Francisco Aparecido Cordão, negou intenção de veto ao livro e disse que houve um problema de redação.

Segundo ele, antes mesmo de Haddad anunciar a devolução do parecer ao conselho, a Câmara já havia convocado reunião para um reexame.

— Vamos fazer uma discussão interna nossa (na terça-feira) para rever a redação. Se o ministro vai devolver, ótimo. A disposição da Câmara é deixar claro o que a gente quis dizer e não conseguiu.

Ninguém quis censurar Monteiro Lobato. Quem somos nós para censurar Monteiro Lobato? — disse Cordão.

Segundo ele, o parecer da conselheira relatora Nilma Lino Gomes, aprovado por unanimidade em setembro, só exige a inserção de nota explicativa na edição de “Caçadas de Pedrinho” para alertar sobre a presença de estereótipos raciais na obra, auxiliando o trabalho dos professores em sala de aula.

“Caçadas de Pedrinho” foi publicado em 1933. De acordo com a denúncia que levou o CNE a analisar o texto, o livro contém trechos racistas envolvendo a personagem negra Tia Anastácia, cuja cor é mencionada diversas vezes pelo autor.

Num trecho, a personagem Emília refere-se ao iminente ataque de onças e animais ferozes ao sítio: “Não vai escapar ninguém — nem Tia Nastácia, que tem carne preta”. Em outro trecho, a personagem negra sobe num mastro para fugir das onças.

A cena é descrita assim por Monteiro Lobato: “(...) Tia Nastácia, esquecida dos seus numerosos reumatismos, trepou que nem uma macaca de carvão”.

A obra divide opiniões: — Eu, pessoalmente, não (vejo racismo). Mas, como isso fere suscetibilidades, minha opinião pessoal não é a mais importante.

Por isso existe um conselho, a comunidade de educadores — disse Haddad.

Já o ministro de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, Eloi Ferreira de Araújo, diz que há trechos racistas. Araújo é contra veto à obra, mas defende a obrigatoriedade da inserção de nota explicativa. Do contrário, segundo ele, o uso do texto em sala de aula estimulará a prática de bullying (violência física ou psicológica contra colegas).

— O bullying não é combatido? Então, vamos combater qualquer forma de bullying. A tia subir como macaca, que coisa horrorosa as crianças dizendo isso. Quando se tem uma publicação que tem tema preconceituoso, racista, a gente pega esse limão e transforma numa limonada — diz Araújo.

Haddad é favorável à nota explicativa, mas, para que seja obrigatória, ele considera que o CNE precisa detalhar os critérios que passarão a ser adotados.

O parecer está aberto a consulta pública no CNE. Só no fim do mês Haddad deverá pedir o reexame do texto.

Ontem, ele fez mistério sobre a sua disposição de permanecer à frente do MEC no governo Dilma Rousseff. Disse que seu compromisso é permanecer até 31 de dezembro. Haddad já está há sete anos no MEC e planejou retornar a São Paulo em 2011.

— Eu me comprometi até 31 de dezembro. Vou honrar esse compromisso que eu tive com o presidente Lula. Minha vida está organizada para a volta (a São Paulo) — disse Haddad.

Historiador renuncia por falta de acesso ao Arquivo Nacional

Autor(es): Bruno Boghossian
O Estado de S. Paulo - 04/11/2010




Carlos Fico, do projeto Memórias Reveladas, acusa instituição de impedir consulta de papéis da ditadura militar


Dificuldades no acesso a documentos do regime militar durante o período eleitoral levaram o historiador Carlos Fico a renunciar ao cargo que ocupava no projeto Memórias Reveladas, que reúne informações sobre a ditadura militar. O professor acusa o Arquivo Nacional de impedir a consulta dos papéis, "sob a alegação de que jornalistas estariam fazendo uso indevido da documentação, buscando dados sobre os candidatos envolvidos na campanha eleitoral".


Fico, que é professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e era presidente substituto da Comissão de Altos Estudos do projeto, enviou ontem sua carta de renúncia ao presidente do Arquivo, Jaime Antunes. Até o início da noite de ontem, a instituição não havia se manifestado sobre o caso.

O historiador afirma que uma de suas alunas solicitou acesso a documentos do período do regime militar e foi informada por um funcionário de que "os acervos estavam fechados". Na semana passada, o professor enviou um novo requerimento de consulta aos arquivos e também teve o pedido negado. Segundo Fico, uma funcionária pediu que ele entrasse em contato com o diretor-geral do Arquivo Nacional na sexta-feira, último dia da campanha eleitoral.

"Não é normal que um pesquisador precise se dirigir ao diretor-geral para ter acesso a documentos. É um procedimento burocratizado", afirma. "Para mim, são evidentes os motivos pelos quais eu teria que esperar até o dia 29."

Marco. O projeto Memórias Reveladas foi criado em 2009 pela Casa Civil da Presidência da República. Na nota de apresentação da instituição, a então ministra Dilma Rousseff define o projeto como "marco na democratização do acesso à informação".

Fico garante que as informações solicitadas por ele e por sua aluna não têm qualquer relação com os candidatos que disputavam o segundo turno das eleições até domingo. "Eu interpreto essa medida como um excesso de cautela, uma coisa completamente sem sentido. Essa é a razão da minha renúncia", diz.

Evitar a exploração eleitoral também foi o argumento usado pelo Superior Tribunal Militar (STM) para manter em sigilo o processo que levou Dilma à prisão durante o regime. Há sete meses, o presidente do STM, Carlos Alberto Soares, determinou que os papéis ficassem trancados em um cofre para evitar o uso político dos documento. Dilma alega que os arquivos estão disponíveis na Unicamp.

Para Carlos Fico, o acesso a documentos referentes ao regime militar está cercado de procedimentos burocráticos, anteriores ao período eleitoral. Ele alega que a decisão de manter documentos em sigilo em nome da privacidade dos indivíduos citados nos papéis prejudica o trabalho de pesquisadores e o resgate da memória da sociedade.

Fico propõe a criação de um procedimento padrão de acesso a documentos, seguindo o exemplo do Arquivo Estadual de São Paulo, que permite a consulta mediante a assinatura de um termo de compromisso. "A burocracia serve para reforçar o mito de que documentos da ditadura seriam um testemunho da verdade, que incriminariam pessoas. Na realidade, é uma memória da repressão."

Richa vai rever investimento feito pela Copel

Novo governo vai rever investimentos da Copel
Autor(es): Marli Lima | De Curitiba
Valor Econômico - 04/11/2010




A eleição de Beto Richa (PSDB) para o governo do Paraná, no primeiro turno, provocou uma valorização de 7,33% das ações da Copel (o Estado tem 31,1% do capital). A tendência de alta já vinha ocorrendo nos últimos meses, antecipando a saída de Roberto Requião (PMDB), que interferiu bastante na companhia. Agora, Richa afirma que vai analisar decisões recentes da estatal.

Energia: Linha de transmissão e subestação em São Paulo e usina no Mato Grosso serão reavaliadas.

Durante a campanha política, o futuro governador do Paraná, Beto Richa (PSDB), teve trabalho para combater as acusações de ser privatista e, em especial, de ter sido favorável, no passado, à privatização da estatal de energia Copel.

No mês em que ele foi eleito, os papéis da companhia tiveram valorização de 7,3% na Bolsa de Valores de São Paulo (a variação do Ibovespa no período foi de 1,8%) e atingiram o maior preço de sua história, R$ 41,30, no dia 13 de outubro.

Até então, o tucano havia dito apenas que planejava "manter públicas e fortes" as estatais paranaenses. Agora, vai além. "Estamos preocupados com os últimos investimentos feitos pela Copel. São caros e têm retorno baixo", disse ao Valor.

Em junho, a Copel arrematou a concessão de uma linha de transmissão e uma subestação no interior de São Paulo, que demandarão investimentos de R$ 270 milhões. No mesmo mês, ganhou leilão para construção da usina Colíder, no Mato Grosso, que terá potência de 300 megawatts, deve custar R$ 1,3 bilhão e tem inauguração prevista para 2014.

Richa adiantou que sua equipe vai analisar esses contratos. "Muitos copelianos me procuraram para falar da preocupação com esses investimentos", contou. A principal dúvida, segundo ele, é em relação à usina. Questionado se a intenção é continuar a investir em outros Estados, o governador eleito não descartou a possibilidade, mas reforçou que só fará isso "se for vantajoso". "Onde houver irregularidade, vou investigar minuciosamente", disse.

O governador Roberto Requião (PMDB), que assumiu em 2003 e cumpriu dois mandatos, também iniciou a administração revisando contratos que considerava prejudiciais à Copel. Depois, deu início a uma política de descontos nas tarifas para os consumidores que pagavam as contas de luz em dia. Seu estilo de administração das estatais, com intervenções em tarifas e investimentos, fez surgir no mercado o chamado "risco Requião" e os papéis da Copel foram impactados por isso.

A reação dos preços das ações já vinha acontecendo nos últimos meses, antecipando a saída de Requião. Com o atual governador, Orlando Pessuti (PMDB), algumas coisas mudaram: acabaram os descontos nas contas e foram feitos investimentos fora do Paraná.

O mercado está agora na expectativa do que virá com Richa. "O governo do PSDB deve interferir menos na empresa e pode tirar algumas amarras, como a necessidade de a empresa ser majoritária em empreendimentos", opina Filipe Acioli, analista da Ágora Corretora.

Sérgio Tamashiro, do Banco Safra, diz que o mercado já incorporou a saída de Requião e reforça que com Richa são esperadas mais mudanças, entre elas a implementação de uma política de dividendos mais agressiva.

Richa encarou a valorização das ações como uma espécie de boas-vindas. Sua assessoria divulgou nota em que credita à sua eleição o aumento no preço dos papéis em outubro e ele próprio citou essa valorização ao falar da companhia. Questionado sobre quem deve ser o novo presidente da Copel, o tucano disse que ainda não foi decidido. Alguns discursos feitos por ele nos últimos meses dão pistas de quais serão as metas. "Vamos promover um choque de gestão, colocando profissionais para que nossas empresas voltem a ser referência e orgulho dos paranaenses", disse. "Há oito anos a Copel estava entre as empresas mais valorizadas do setor elétrico. E a Cemig, de Minas Gerais, tinha apenas 40% do valor da Copel. Hoje, essa proporção se inverteu."

O governador eleito não esconde a intenção de copiar modelos adotados em Minas por seu colega de partido, Aécio Neves, como fez quando era prefeito de Curitiba e implantou metas para a equipe.

Atualmente, a Cemig tem patrimônio de R$ 11 bilhões, não muito distante dos R$ 9,2 bilhões da Copel, mas seu valor na bolsa está por volta de R$ 18 bilhões, bem superior aos R$ 10,3 bilhões da estatal paranaense.

O economista Ronald Thadeu Ravedutti, que está há seis meses no comando da Copel, aposta que não deve haver grandes mudanças nos rumos da companhia. "Pode haver uma correção aqui e ali", diz. Segundo ele, a valorização das ações não tem a ver com eleições, mas com o que passou a ser feito com a saída de Requião. Sobre a preocupação com investimentos recentes, o executivo é direto: "Estão dando informações erradas para o governador eleito". E completa: "A escolha é deixar o dinheiro no banco ou investir em geração de energia". Ravedutti planeja participar de mais leilões de usinas em dezembro. A Copel tem caixa de cerca de R$ 1,4 bilhão.

Educação ou negócio?

Educação ou negócio?

Autor(es): Agencia o Globo/Nival Nunes de Alemeida e Lincoln Tavares Silva
O Globo - 04/11/2010




O novo titular na Secretaria estadual de Educação assumiu influenciado pelos resultados educacionais aqui obtidos.

Repete-se a fórmula em busca da solução: mudar o gestor, mudar o discurso, acenar para a sociedade a substituição do velho pelo novo.

Gerir a complexidade do sistema de ensino não é tarefa de responsabilidade de um único dirigente. Em duas décadas, vimos mais de quinze novos secretários.

E as políticas públicas para a educação, mudaram? Espera-se dos gestores o entendimento de que qualidade e excelência requerem planejamento a curto, médio e longo prazo, além de ações transformadoras para as comunidades a que servem. Os índices não dependem simplesmente das técnicas de gestão, mas fundamentalmente das políticas.

Diferem os discursos de posse dos dirigentes educacionais e o cotidiano vivenciado ao fim de seus exercícios.

Quando conseguem constituir uma boa equipe, notam que anos de sucateamento não são debelados somente com “novas” ideias e uma boa equipe.

A descontinuidade de gestores piora os problemas. Propor melhor educação requer vontade política que explicite qual educação se deseja oferecer a população.

Exige investimentos superiores aos atuais: salários, carreiras e dedicação exclusiva dignos, com formação (inicial e continuada) e ambientes nos quais as condições de trabalho e estudo resgatem sua importância social.

Nas instâncias da rede é preciso, além do novo ânimo, acreditar e investir nas possibilidades de mudança, e isso não pode ser esperado de quem ouve novos discursos a cada ano.

No Brasil, presenciamos tentativas de transformar os sistemas e as instituições escolares em organizações-empresas.

Este “caminho do sucesso” prolifera por meio de consultorias privadas e propostas de reformas gerenciais das redes. Visa à eficiência e à produtividade no setor. Associa-se à educação por evidências, priorizando testes, avaliações e mecanismos meritórios.

Não amplia a cidadania, a sociabilidade e o entendimento contextualizado dos conhecimentos sistematizados, emperrando aspectos fundamentais ao desenvolvimento dos estudantes da escola básica. Reduz a formação das pessoas à competição e ao alcance de índices.

Sua lógica de execução-produto debilita a democracia. O professor vira mero executor de tarefas e cumpridor de metas gerenciais. Os beneficiários viram elementos do fluxo. Felizmente, sua incompatibilidade, inclusive em países centrais do capitalismo, já é questionada por muitos.

Sem que se definam os insumos necessários à qualidade do ensino é estranho avaliar sua eficiência. Há que se delinear o custo-aluno-qualidade como parâmetro de financiamento e estabelecer seus moldes em cada etapa e modalidade da educação. Aqulio que produz, pela ação pública, impactos sociais positivos é o que a população reconhece como tendo qualidade efetiva.

A imposição da eficiência (otimizando recursos) e da eficácia (restrita aos objetivos organizacionais) pode causar a redução da efetividade.

No país, almejamos o investimento educacional de 10% do PIB até 2014. No Rio de Janeiro, há leis que tratam do Plano Estadual de Educação e da Reponsabilidade Educacional. Seus objetivos e metas representam uma discussão a ser ampliada, garantindo a educação como direito. Para efetivá-la necessitamos de financiamentos que viabilizem oportunidades de pluralidade e inclusão educacional para todas as comunidades, como escolas de tempo integral, com projetos político-pedagógicos respeitados pelos gestores.

Nada surtirá efeito sem a valorização dos profissionais da educação. Isso já ocorre para os profissionais de outras carreiras equivalentes. Os que têm implantado as reformas centradas em aspectos gerenciais costumam ser altamente valorizados (financeira e profissionalmente).

Suas condições de trabalho dão inveja aos educadores que efetivamente atuam na sala de aula.

Mudemos o cenário, se vamos dar importância à educação. Não será diferenciando escolas, profissionais e comunidades escolares com sistemas de avaliação por premiação/punição que propiciaremos o desenvolvimento com liberdade e a qualidade social na educação.

Atenção para não seguirmos caminhos imprecisos ou equivocados que outros países vêm abandonando!

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Cresce uso de apostilas no ensino infantil

Autor(es): Isis Brum
O Estado de S. Paulo - 02/11/2010

Pesquisa da Unicamp mostra que, de 2008 para 2009, o número de cidades paulistas que usam, no ensino infantil, apostilas de sistemas de ensino privados subiu de 24 para 32. Há dez anos, eram quatro.



Educação. Adoção de sistema privado de apostilas, elaborado por grupos como Anglo, Etapa e COC, provoca discussão nas escolas de ensino fundamental e médio; recentemente, municípios e colégios particulares passaram a adotar o modelo também na pré-escola

JORNAL DA TARDE - O Estado de S.Paulo

Fonte de polêmica no ensino fundamental e médio, o uso de apostilas elaboradas por sistemas de ensino privados cresce também no ensino infantil, etapa voltada para crianças entre 4 e 5 anos. Pesquisa feita pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) mostra que, de 2008 para 2009, o número de municípios do Estado que adotam o modelo subiu de 24 para 32. Há dez anos, só 4 cidades tinham apostilas para essa faixa etária.

As apostilas também são utilizadas atualmente por muitas pré-escolas privadas, embora educadores se posicionem contra a prática nessa etapa da vida escolar. Até os 5 anos, a orientação do Ministério da Educação (MEC) é para que sejam priorizadas as brincadeiras, adiando a entrada do aluno em um ensino mais sistematizado e com maiores regras e cobranças.

A pesquisadora Theresa Adrião, autora do estudo e professora da Faculdade de Educação da Unicamp, afirma que o grupo de municípios que aderiu aos sistemas apostilados na pré-escola concentra cidades com até 200 mil habitantes.

"Está havendo um crescimento da adoção deste tipo de material para a educação infantil. As escolas privadas já usavam há alguns anos, mas as redes públicas começaram a entrar agora", afirma Theresa Adrião. "No ensino apostilado, as aulas são padronizadas, assim como os temas e as atividades pedagógicas", diz.

Um dos temores dos educadores é que, justamente na fase em que a criança precisa de estímulos diversos, com brincadeiras e atividades lúdicas, as aulas fiquem limitadas às atividades propostas nos cadernos, o que restringiria a criatividade e a experimentação dos pequenos.

"Nessa fase, a criança precisa de outras experiências, associadas a brincadeiras. É por meio das atividades lúdicas que adquirem conhecimento", explica Bianca Correa, professora de Pedagogia do câmpus de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (USP). Segundo ela, "é um equívoco usar o sistema no ensino infantil".

Legislação. Não há norma para o uso ou não de apostilas na educação infantil. Cada escola ou rede é autônoma para definir o melhor sistema de ensino, desde que respeitadas as diretrizes curriculares da educação básica, cujo parecer foi aprovado em 2009 pelo Conselho Nacional de Educação (CNE) e homologado neste ano pelo MEC.

"O problema não é o material e sim o uso. Ele não pode servir de muleta para professores e alunos, mas deve funcionar como um instrumento de trabalho em sala de aula", afirma César Callegari, integrante da Câmara de Educação Básica do CNE.

"Há 15 anos, havia muito material ruim no mercado editorial. Hoje, porém, é diferente, há muita coisa boa." Para Callegari, "todas as escolas, redes e professores têm condições de desenvolver seu próprio material, mesmo as cidades e as redes pequenas".

Coordenadora pedagógica da educação infantil e dos anos iniciais do ensino fundamental de uma escola particular do Jardim Anália Franco, bairro nobre da zona leste da capital, Mary Assad Heneire defende o uso dos sistemas apostilados na educação infantil como uma base para orientar o trabalho pedagógico.

As apostilas adotadas pelo colégio para as duas etapas da pré-escola (Jardim I e Jardim II) trabalham com temas ao longo do ano escolar - por exemplo, animais no primeiro ano e moradias no mundo no segundo.

Segundo Mary, atividades como balé, judô, informática, aulas de culinária e noite do pijama complementam a formação dos alunos. "O objetivo não é alfabetizar, mas sim estimular o conhecimento a partir da realidade da criança e levá-la a avançar de acordo com seu potencial", afirma a coordenadora pedagógica.

Na pré-escola, o colégio da zona leste adota há seis anos o sistema apostilado do Anglo no atendimento de quase 150 crianças de 4 e 5 anos. Nessa etapa, a mensalidade da escola é de R$ 470.

"O material é um organizador das atividades, dá um norte. Mas nada substitui o trabalho do professor", explica Mary.

Consultora de outro sistema de ensino também oferecido na educação infantil, o Sistema Universitário, a pedagoga Regina Shuedo critica a falta de uma diretriz do Ministério da Educação (MEC) voltada ao uso de material pedagógico nessa etapa do ensino.

"Não existe material didático para a educação infantil", afirma Regina, que também é autora de livros infantis. "O sistema apostilado pelo menos auxilia o professor que não tem tempo de preparar aula, porque trabalha em três turnos e investe na sua formação continuada."

A FAVOR...

Mary Assad Heneire,
Coordenadora pedagógica de pré-escola privada que usa apostila

"O objetivo da apostila é estimular o conhecimento a partir da realidade da criança."

...CONTRA

Bianca Correa,
Professora de Pedagogia da USP

"É um equívoco. Nessa fase, a criança precisa de experiências associadas a brincadeiras."