Publicado em 04/09/2010 Gazeta do Povo
O modelo educativo brasileiro, com seus baixíssimos índices de aproveitamento, não é capaz de cumprir o preceito do artigo 205 da Constituição de 1988, que estabelece como meta formar o educando para o desenvolvimento pleno da pessoa, do seu preparo ao exercício da cidadania e da sua qualificação para o trabalho, o que o torna inconstitucional.
O maior agravante é verificar que a corrente majoritária, inspirada no Iluminismo, mostra-se incapaz de prover uma educação que contemple as três dimensões humanas (biológica, psicológica e noológica) em seus cinco âmbitos (físico, intelectual, afetivo, transcendente e social) capazes de serem desenvolvidos através da educação. Atualmente, trabalham-se apenas as dimensões biológicas (ensino) e psicológicas (instrução), o que, segundo o fisiólogo russo, Ivan Petrovich Pavlov (1849-1936), também é possível ser feito com irracionais.
Esse autor estabeleceu a conexão entre estímulos ambientais neutros e atividades fisiológicas, ao estudar as relações entre o organismo (biológico) e o ambiente (sentidos) que os rodeia, percebendo-a como psicológica em sua origem, considerando-a superior ao determinismo biológico. O resultado é um ensino falho que busca fazer com que as pessoas reajam a instrumentos legais que as forcem a serem “boazinhas e honestas”, não porque conheçam experimentalmente o conceito, mas porque temem uma penalidade.
Abre-se mão de se educar, para se condicionar, ameaçar e obrigar, que se torna combustível para reações, afinal, sabe-se que o homem sempre descobre como agir dentro da lei contrariando à própria lei, levando à destruição da sociedade ética, pela política. Afinal, que lei impede um pai jogar sua filha da janela? Há de se voltar ao modelo educativo integral, método que perdurou por milênios ficando conhecida como a pedagogia do dhikr (pedagogia do lembrar), ou melhor, a Pedagogia do Coração.
Em muitas línguas ela está presente na linguagem cotidiana sem que muitos se deem conta disso. O que significa saber de cor? O que guardamos no coração! Isso se repete em inglês (by heart) em francês (par couer) e também no italiano, em que scordasi significa tirar do coração. Assim é que se formam humanos!
É na dimensão noológica, exclusiva do ser humano, que ocorre a verdadeira educação que faz com que a vontade do ser decida pelo certo, não porque uma lei o imponha, mas porque isso animaliza em vez de humanizar. A humanização impede que se tenha de viver com mais de 1 milhão de leis e milhares de códigos de ética, cada uma tentando lembrar seus colaboradores o que a educação atual não foi capaz de fazer.
O disparate tem consequências bastante onerosas para o Estado, instituições privadas que labutam nesse setor e também para o professor, que, ao participar de um processo educativo falho e parcial, avaliza seus resultados finais, podendo ser por eles responsabilizados em casos de insucesso, como ocorre atualmente. Em 2007, o Indicador de Alfabetismo Funcional apontou como “analfabetos funcionais” 72% dos brasileiros, entre 15 e 64 anos.
Ninguém está imune a responder pelos seus atos que causem danos físicos ou morais a terceiros, pelo que uma rápida adequação da educação pátria à Lei Magna do país torna-se urgente. Aliás, urge que assim se faça se o que se quer é ser uma potência mundial que possa contribuir para um mundo melhor, sem violência e mais humano.
Sávio Ferreira de Souza, professor, advogado, empresário, é orientador familiar.
sábado, 4 de setembro de 2010
Por uma educação constitucional
MEC nega deter ficha completa de bolsistas
O Estado de S. Paulo - 03/09/2010
O Ministério da Educação voltou a negar ontem a cessão de mailing dos alunos do ProUni a candidatos de qualquer partido. "Os alunos prestam as informações socioeconômicas necessárias ao ingresso no programa diretamente às instituições de ensino", informou. "O MEC não detém informações socioeconômicas sobre os beneficiários do ProUni." O Estado mostrou ontem que bolsistas do ProUni receberam propaganda eleitoral do candidato a deputado Gustavo Petta (PC do B-SP), ex-presidente da UNE. A acusação dos universitários é de que houve uso do banco de dados do programa.
O Ministério da Educação voltou a negar ontem a cessão de mailing dos alunos do ProUni a candidatos de qualquer partido. "Os alunos prestam as informações socioeconômicas necessárias ao ingresso no programa diretamente às instituições de ensino", informou. "O MEC não detém informações socioeconômicas sobre os beneficiários do ProUni." O Estado mostrou ontem que bolsistas do ProUni receberam propaganda eleitoral do candidato a deputado Gustavo Petta (PC do B-SP), ex-presidente da UNE. A acusação dos universitários é de que houve uso do banco de dados do programa.
quinta-feira, 2 de setembro de 2010
Educação não é carente apenas de verbas
Autor(es): Agência O Globo
O Globo - 02/09/2010
Construído o consenso na sociedade em torno do objetivo estratégico de se melhorar o ensino público básico, tem havido saudável mobilização de grupos, dentro e fora do Estado, numa empreitada cujos horizontes de tempo são medidos em décadas. No aspecto político da missão, é imperioso obter a adesão de governos, em todos os níveis, na busca de metas. A mais geral é o país atingir em 2020 o nível de proficiência verificado no Primeiro Mundo em 2003. Em números: os estudantes do ciclo básico precisarão atingir nota média 6, daqui a dez anos, dois pontos acima da nota do última exame nacional, em 2009.
Nesse sentido, merece destaque a iniciativa de quase três dezenas de entidades de formular uma carta-compromisso, sob a inspiração do Movimento Todos pela Educação, a ser subscrita pelos principais candidatos a presidente da República. Deverão fazê-lo. A questão será cumprir as promessas, e isso dependerá de constante cobrança da sociedade. Afinal, uma das metas incluídas na carta é elevar o gasto público na educação a 10% do PIB, dos quais 8% com o nível básico, e 2% com o superior. Na prática, significa inverter de vez as prioridades na política de gastos com educação e dobrar o atual dispêndio. Para isso, sem considerar a hipótese reprovável do aumento de impostos - até porque a carga tributária se acha no limite -, será necessário remanejar verbas e enfrentar previsíveis resistências políticas.
Se a mobilização de recursos públicos é chave, também é imperioso que no "chão de fábrica" sejam aplicados bons programas. Por óbvio, a mobilização e a qualificação do professorado são imprescindíveis. Nesse aspecto, aconselha-se acompanhar a política educacional do governo de Barack Obama, para combater o mesmo mal: baixa qualidade do ensino básico. Também nos EUA, depois de gerações de êxito, as escolas públicas naufragaram e, já há algum tempo, são alvo de políticas específicas, federais, estaduais e municipais, para voltar a formar estudantes com a mesma qualificação fornecida já há algum tempo em salas de aula sul-coreanas, chinesas, escandinavas etc. Situações econômicas e sociais podem ser diversas, mas em todo o mundo o professor é o centro dos cuidados. Tem havido nos Estados Unidos, como aqui, choques constantes entre governos e sindicatos de professores, tão corporativistas quanto os nossos. Mas os governantes americanos não recuam e aplicam métodos de qualificação, avaliação do professorado, para efeito de premiação, como passou a ser feito em São Paulo e no município do Rio, por exemplo. Nossa herança cultural embebida de visão cartorial e de estamentos, vinda com as caravelas de Portugal, nos impede de ir tão fundo quanto os americanos: escolas improdutivas têm sido fechadas, e os alunos, remanejados; professores são demitidos, e assim por diante. Lá, é verdade, não existe estabilidade do funcionalismo como no Brasil.
Ilusão pensar que acordaremos um dia calvinistas e anglo-saxões. Mas reformas aplicadas em prefeituras como a de Nova York - onde há casos de sucesso de escolas administradas por terceiros - e na criação de programas de distribuição de bilhões de dólares federais em prêmios a estados que alcançam metas de rendimento escolar precisam ser acompanhadas com atenção.
Será catastrófico se a meta dos 10% do PIB for alcançada e não existirem programas eficazes para serem executados.
O Globo - 02/09/2010
Construído o consenso na sociedade em torno do objetivo estratégico de se melhorar o ensino público básico, tem havido saudável mobilização de grupos, dentro e fora do Estado, numa empreitada cujos horizontes de tempo são medidos em décadas. No aspecto político da missão, é imperioso obter a adesão de governos, em todos os níveis, na busca de metas. A mais geral é o país atingir em 2020 o nível de proficiência verificado no Primeiro Mundo em 2003. Em números: os estudantes do ciclo básico precisarão atingir nota média 6, daqui a dez anos, dois pontos acima da nota do última exame nacional, em 2009.
Nesse sentido, merece destaque a iniciativa de quase três dezenas de entidades de formular uma carta-compromisso, sob a inspiração do Movimento Todos pela Educação, a ser subscrita pelos principais candidatos a presidente da República. Deverão fazê-lo. A questão será cumprir as promessas, e isso dependerá de constante cobrança da sociedade. Afinal, uma das metas incluídas na carta é elevar o gasto público na educação a 10% do PIB, dos quais 8% com o nível básico, e 2% com o superior. Na prática, significa inverter de vez as prioridades na política de gastos com educação e dobrar o atual dispêndio. Para isso, sem considerar a hipótese reprovável do aumento de impostos - até porque a carga tributária se acha no limite -, será necessário remanejar verbas e enfrentar previsíveis resistências políticas.
Se a mobilização de recursos públicos é chave, também é imperioso que no "chão de fábrica" sejam aplicados bons programas. Por óbvio, a mobilização e a qualificação do professorado são imprescindíveis. Nesse aspecto, aconselha-se acompanhar a política educacional do governo de Barack Obama, para combater o mesmo mal: baixa qualidade do ensino básico. Também nos EUA, depois de gerações de êxito, as escolas públicas naufragaram e, já há algum tempo, são alvo de políticas específicas, federais, estaduais e municipais, para voltar a formar estudantes com a mesma qualificação fornecida já há algum tempo em salas de aula sul-coreanas, chinesas, escandinavas etc. Situações econômicas e sociais podem ser diversas, mas em todo o mundo o professor é o centro dos cuidados. Tem havido nos Estados Unidos, como aqui, choques constantes entre governos e sindicatos de professores, tão corporativistas quanto os nossos. Mas os governantes americanos não recuam e aplicam métodos de qualificação, avaliação do professorado, para efeito de premiação, como passou a ser feito em São Paulo e no município do Rio, por exemplo. Nossa herança cultural embebida de visão cartorial e de estamentos, vinda com as caravelas de Portugal, nos impede de ir tão fundo quanto os americanos: escolas improdutivas têm sido fechadas, e os alunos, remanejados; professores são demitidos, e assim por diante. Lá, é verdade, não existe estabilidade do funcionalismo como no Brasil.
Ilusão pensar que acordaremos um dia calvinistas e anglo-saxões. Mas reformas aplicadas em prefeituras como a de Nova York - onde há casos de sucesso de escolas administradas por terceiros - e na criação de programas de distribuição de bilhões de dólares federais em prêmios a estados que alcançam metas de rendimento escolar precisam ser acompanhadas com atenção.
Será catastrófico se a meta dos 10% do PIB for alcançada e não existirem programas eficazes para serem executados.
quarta-feira, 1 de setembro de 2010
Educação e infraestrutura urbana terão prioridade
Valor Econômico - 01/09/2010
O governo Lula definiu, na proposta orçamentária enviada ontem ao Congresso, que o próximo presidente da República aumentará os gastos da União, prioritariamente, pelo menos no primeiro ano de seu governo, na área de educação e na infraestrutura social e urbana, dando ênfase ao programa Minha Casa, Minha Vida, que teve a sua verba elevada em 77,7% em relação ao previsto para 2010.
As despesas com a educação no próximo ano subirão 16,7%, de acordo com a proposta, com o gasto primário total desta área passando de R$ 50,9 bilhões este ano para R$ 59,4 bilhões - um aumento nominal de R$ 8,5 bilhões. Os investimentos no programa Minha Casa, Minha vida passarão de R$ 7,29 bilhões este ano para R$ 12,95 bilhões em 2011 - um aumento nominal de R$ 5,66 bilhões.
Os investimentos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) em 2011 foram estimados em R$ 43,5 bilhões, contra uma previsão de R$ 31,8 bilhões este ano - um aumento de 36,8% ou R$ 11,7 bilhões. "O PAC virou um "pacão"", brincou o ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, durante a entrevista coletiva em que apresentou os números do orçamento de 2011. Além de concluir as obras do PAC 1, o governo projeta iniciar as obras do PAC 2.
É interessante observar, no entanto, que o maior crescimento dos investimentos do PAC ocorrerá na área de infraestrutura social e urbana, que terá R$ 25,2 bilhões contra R$ 15,9 bilhões este ano. Além do aumento dos recursos destinados ao programa Minha Casa, Minha Vida, o governo programou verbas orçamentárias para programas que não tinham obtido recursos em anos anteriores, como é o caso da compra de equipamentos e mobiliário para creches e pré-escolas (R$ 891 milhões), a construção de quadras esportivas escolares (R$ 730 milhões), a construção de posto comunitário (R$ 350 milhões) e o programa de unidade básica de saúde (UBS), com R$ 565 milhões.
Os investimentos em infraestrutura logística crescerão bem menos, passando de R$ 15,5 bilhões este ano para R$ 17,96 bilhões em 2011, com aumento de 15,9%. Os investimentos em infraestrutura energética (estudos dos setores de energia e petrólo) cairão de R$ 448 milhões este ano para R$ 354 milhões. Os gastos com a saúde terão um crescimento modesto em 2011, de apenas 9,6%. As prioridades definidas no orçamento para o próximo ano poderão, no entanto, ser alteradas pelo próximo presidente, depois da eleição, como reconheceu ontem o ministro do Planejamento.
A proposta orçamentária prevê também recursos para a Copa do Mundo Fifa 2014, no montante de R$ 444,1 milhões. Os recursos destinados aos Jogos Olímpicos e Paraolímpicos Rio 2016 ficaram em R$ 1,1 bilhão. O ministro Paulo Bernardo explicou que esses dados se referem apenas aos recursos orçamentários, não incluindo as operações de créditos já aprovadas, feitas com a Caixa Econômica Federal e Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para esses eventos esportivos.
O ministro do Planejamento informou também que os investimentos das empresas estatais federais foram fixados em R$ 107,5 bilhões, sendo que o grupo Petrobras será responsável por investimentos de R$ 78,7 bilhões. Paulo Bernardo disse que os investimentos totais programados para o próximo ano chegarão a R$ 159,6 bilhões, sendo R$ 52 bilhões do orçamento da União e R$ 107,5 bilhões das estatais.
O governo Lula definiu, na proposta orçamentária enviada ontem ao Congresso, que o próximo presidente da República aumentará os gastos da União, prioritariamente, pelo menos no primeiro ano de seu governo, na área de educação e na infraestrutura social e urbana, dando ênfase ao programa Minha Casa, Minha Vida, que teve a sua verba elevada em 77,7% em relação ao previsto para 2010.
As despesas com a educação no próximo ano subirão 16,7%, de acordo com a proposta, com o gasto primário total desta área passando de R$ 50,9 bilhões este ano para R$ 59,4 bilhões - um aumento nominal de R$ 8,5 bilhões. Os investimentos no programa Minha Casa, Minha vida passarão de R$ 7,29 bilhões este ano para R$ 12,95 bilhões em 2011 - um aumento nominal de R$ 5,66 bilhões.
Os investimentos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) em 2011 foram estimados em R$ 43,5 bilhões, contra uma previsão de R$ 31,8 bilhões este ano - um aumento de 36,8% ou R$ 11,7 bilhões. "O PAC virou um "pacão"", brincou o ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, durante a entrevista coletiva em que apresentou os números do orçamento de 2011. Além de concluir as obras do PAC 1, o governo projeta iniciar as obras do PAC 2.
É interessante observar, no entanto, que o maior crescimento dos investimentos do PAC ocorrerá na área de infraestrutura social e urbana, que terá R$ 25,2 bilhões contra R$ 15,9 bilhões este ano. Além do aumento dos recursos destinados ao programa Minha Casa, Minha Vida, o governo programou verbas orçamentárias para programas que não tinham obtido recursos em anos anteriores, como é o caso da compra de equipamentos e mobiliário para creches e pré-escolas (R$ 891 milhões), a construção de quadras esportivas escolares (R$ 730 milhões), a construção de posto comunitário (R$ 350 milhões) e o programa de unidade básica de saúde (UBS), com R$ 565 milhões.
Os investimentos em infraestrutura logística crescerão bem menos, passando de R$ 15,5 bilhões este ano para R$ 17,96 bilhões em 2011, com aumento de 15,9%. Os investimentos em infraestrutura energética (estudos dos setores de energia e petrólo) cairão de R$ 448 milhões este ano para R$ 354 milhões. Os gastos com a saúde terão um crescimento modesto em 2011, de apenas 9,6%. As prioridades definidas no orçamento para o próximo ano poderão, no entanto, ser alteradas pelo próximo presidente, depois da eleição, como reconheceu ontem o ministro do Planejamento.
A proposta orçamentária prevê também recursos para a Copa do Mundo Fifa 2014, no montante de R$ 444,1 milhões. Os recursos destinados aos Jogos Olímpicos e Paraolímpicos Rio 2016 ficaram em R$ 1,1 bilhão. O ministro Paulo Bernardo explicou que esses dados se referem apenas aos recursos orçamentários, não incluindo as operações de créditos já aprovadas, feitas com a Caixa Econômica Federal e Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para esses eventos esportivos.
O ministro do Planejamento informou também que os investimentos das empresas estatais federais foram fixados em R$ 107,5 bilhões, sendo que o grupo Petrobras será responsável por investimentos de R$ 78,7 bilhões. Paulo Bernardo disse que os investimentos totais programados para o próximo ano chegarão a R$ 159,6 bilhões, sendo R$ 52 bilhões do orçamento da União e R$ 107,5 bilhões das estatais.
Da ideologia ao personalismo
Autor(es): Agencia o Globo/Roberto DaMatta
O Globo - 01/09/2010
O PT foi o partido mais ideológico do Brasil. Ele se estruturava em teses socialistas, mas era também banhado por um lado social-democrata que se ampliou depois que o Lula virou o Lulinha paz e amor e, graças a um marketing genial (a Cesar o que é de Cesar...) penetrou no imaginário dos segmentos elitistas, tornando-se um candidato viável. Pois, como o próprio Lula teoriza, com sua conhecida sensibilidade sociológica, pobre não vota em pobre. Hoje, porém, graças ao que ele dramatiza na sua figura, pobre vota em pobre votado e admirado por seus patrões. Foi essa convergência cultural que permitiu a aceitação do operário candidato radical no operário pleno de paz e amor como presidente.
No primeiro governo havia uma herança maldita, mas os fundamentos do sistema econômico implantado com o Plano Real prosseguiram. Depois veio o mensalão, que implodiu o PT como partido, promoveu um expurgo e uma ascensão dos petistas possíveis.
Agora, debaixo da batuta do único sobrevivente o próprio Lula o partido antes ideológico depende de uma pessoa.
Lula salvou-se a si mesmo invocando, como Cristo, a traição de alguns companheiros que, no mensalão, exageraram a dose, dentro de um sistema político de resto igualmente marcado pela corrupção e antiliberal.
Há uma transformação crucial. O candidato que representava o operariado nacional e era um duríssimo opositor torna-se presidente e, neste papel, ele representa o trabalhador e o pobre. Mas é preciso não esquecer que ele próprio foi um pobre. Ele é a dramatização de si mesmo como um operário sem escolaridade e diploma, como sempre enfatiza, do mesmo modo que provoca dizendo que tem azia quando lê. Mas, como presidente de uma sociedade hierarquizada até o gargalo, ele sabe que pode dizer e fazer tudo quando se mora num palácio. Faz então um governo de coalizão e amplia sem limites as suas bases realizando alianças nas quais os partidos e os movimentos sociais não são mais peçaschaves, mas atores subordinados às personalidades e às relações sociais mais do que políticas dos seus membros e donos.
O universo da casa, das simpatias pessoais, domina a cena e começa a canibalizar o campo econômico em nome de um retorno de um estado forte, que servirá como instrumento de aristocratização. A coalizão compadresca começa a abalar aquilo que o poeta William Blake chamava de moinho satânico, porque o mercado capitalista autorregulado não para diante de ninguém. Menos, é obvio, neste Brasil que se faz e desfaz de tempos em tempos.
No palco nacional, a ênfase no ideológico típica dos movimentos populares é paralisada. E os velhos coronéis da política marcada pelas teias de relações pessoais retornam ao puder. Mas com uma diferença: agora, a esquerda oficial e a direita mais reacionária estão juntas. Formam um time de futebol e o seu técnico e principal craque é o Lula, um misto raro de atacante matador e de goleiro perfeito. No ataque, o PT atua nominalmente ao lado dos sindicalistas e dos empresários fornecedores do Estado estruturado pelo PAC. Na defesa, jogam os sarneys, os barbalhos, os collors os políticos personalistas que governavam na base do aos inimigos a lei; aos amigos tudo! Articulam-se assim, tendo como figura-chave um ator magistral e central um Rei Lear da política nacional.
O velho e bom personalismo que forma a espinha dorsal do nosso sistema social, como eu tenho dito na minha modesta e largamente ignorada obra sociológica, volta a englobar as regras democráticas liberais e as marcações ideológicas.
Com Lula tudo iria mudar e eu mesmo pensei que o governo do PT, como o do Brizola, no Rio, iria realmente promover uma transformação na administração pública. Mas a inércia cultural e a ausência de análise e percepção promoveram o retorno da linguagem da casa, de modo que me assusta (e diverte) ver o fruto de um partido ideológico, como o Lula, criar e impor uma candidata, usando metáforas da casa, da família e do parentesco.
Dilma não vai ser apenas uma presidenta; ela será a mãe inventada pelo Lula, que, como tal, vai cuidar diretamente do povo e não administrar os recursos produzidos por este povo.
Como um bloco de carnaval, demos alguns passos para a frente, mas agora ensaiamos um retorno ao ponto de partida. O que chamei de dilema brasileiro o mal-estar entre leis que valem para todos e as obrigações pessoais que só se aplicam aos amigos faz o seu freudiano retorno. Lula reencarna Getúlio. Mas, diferentemente de Vargas, poderia se quisesse ser aclamado presidente perpétuo do Brasil. Louvo-o por seu desprendimento. Pena que um craque do seu calibre jogue contra uma oposição que joga contra si mesma e, assim, atropela e inviabiliza um liberalismo decente entre nós.
E, sem oposição e uma consciência de limites do poder, vamos ter um longo campeonato no qual haverá apenas um campeão. No esporte isso representa o fim do próprio jogo. Na vida pública, isso significa o fim da política como ação social e o início de um domínio à la Casa Grande & Senzala: repleto de confraternizações e agregados. De vez em quando alguém leva uma chibatada, mas não por mal; recursos serão sempre esbanjados, mas o Brasil é rico. Afinal, como resistir a um personalismo que funda parte do sistema e jamais foi discutido em seus confrontos com o nosso lado liberal e igualitário? Paciência. Só fomos ideológicos para trazer de volta um habitual personalismo que deve eleger este sim é um fato jamais visto na nossa história não uma mulher-presidenta, mas (como quer o Lula) a mãe do Brasil.
O Globo - 01/09/2010
O PT foi o partido mais ideológico do Brasil. Ele se estruturava em teses socialistas, mas era também banhado por um lado social-democrata que se ampliou depois que o Lula virou o Lulinha paz e amor e, graças a um marketing genial (a Cesar o que é de Cesar...) penetrou no imaginário dos segmentos elitistas, tornando-se um candidato viável. Pois, como o próprio Lula teoriza, com sua conhecida sensibilidade sociológica, pobre não vota em pobre. Hoje, porém, graças ao que ele dramatiza na sua figura, pobre vota em pobre votado e admirado por seus patrões. Foi essa convergência cultural que permitiu a aceitação do operário candidato radical no operário pleno de paz e amor como presidente.
No primeiro governo havia uma herança maldita, mas os fundamentos do sistema econômico implantado com o Plano Real prosseguiram. Depois veio o mensalão, que implodiu o PT como partido, promoveu um expurgo e uma ascensão dos petistas possíveis.
Agora, debaixo da batuta do único sobrevivente o próprio Lula o partido antes ideológico depende de uma pessoa.
Lula salvou-se a si mesmo invocando, como Cristo, a traição de alguns companheiros que, no mensalão, exageraram a dose, dentro de um sistema político de resto igualmente marcado pela corrupção e antiliberal.
Há uma transformação crucial. O candidato que representava o operariado nacional e era um duríssimo opositor torna-se presidente e, neste papel, ele representa o trabalhador e o pobre. Mas é preciso não esquecer que ele próprio foi um pobre. Ele é a dramatização de si mesmo como um operário sem escolaridade e diploma, como sempre enfatiza, do mesmo modo que provoca dizendo que tem azia quando lê. Mas, como presidente de uma sociedade hierarquizada até o gargalo, ele sabe que pode dizer e fazer tudo quando se mora num palácio. Faz então um governo de coalizão e amplia sem limites as suas bases realizando alianças nas quais os partidos e os movimentos sociais não são mais peçaschaves, mas atores subordinados às personalidades e às relações sociais mais do que políticas dos seus membros e donos.
O universo da casa, das simpatias pessoais, domina a cena e começa a canibalizar o campo econômico em nome de um retorno de um estado forte, que servirá como instrumento de aristocratização. A coalizão compadresca começa a abalar aquilo que o poeta William Blake chamava de moinho satânico, porque o mercado capitalista autorregulado não para diante de ninguém. Menos, é obvio, neste Brasil que se faz e desfaz de tempos em tempos.
No palco nacional, a ênfase no ideológico típica dos movimentos populares é paralisada. E os velhos coronéis da política marcada pelas teias de relações pessoais retornam ao puder. Mas com uma diferença: agora, a esquerda oficial e a direita mais reacionária estão juntas. Formam um time de futebol e o seu técnico e principal craque é o Lula, um misto raro de atacante matador e de goleiro perfeito. No ataque, o PT atua nominalmente ao lado dos sindicalistas e dos empresários fornecedores do Estado estruturado pelo PAC. Na defesa, jogam os sarneys, os barbalhos, os collors os políticos personalistas que governavam na base do aos inimigos a lei; aos amigos tudo! Articulam-se assim, tendo como figura-chave um ator magistral e central um Rei Lear da política nacional.
O velho e bom personalismo que forma a espinha dorsal do nosso sistema social, como eu tenho dito na minha modesta e largamente ignorada obra sociológica, volta a englobar as regras democráticas liberais e as marcações ideológicas.
Com Lula tudo iria mudar e eu mesmo pensei que o governo do PT, como o do Brizola, no Rio, iria realmente promover uma transformação na administração pública. Mas a inércia cultural e a ausência de análise e percepção promoveram o retorno da linguagem da casa, de modo que me assusta (e diverte) ver o fruto de um partido ideológico, como o Lula, criar e impor uma candidata, usando metáforas da casa, da família e do parentesco.
Dilma não vai ser apenas uma presidenta; ela será a mãe inventada pelo Lula, que, como tal, vai cuidar diretamente do povo e não administrar os recursos produzidos por este povo.
Como um bloco de carnaval, demos alguns passos para a frente, mas agora ensaiamos um retorno ao ponto de partida. O que chamei de dilema brasileiro o mal-estar entre leis que valem para todos e as obrigações pessoais que só se aplicam aos amigos faz o seu freudiano retorno. Lula reencarna Getúlio. Mas, diferentemente de Vargas, poderia se quisesse ser aclamado presidente perpétuo do Brasil. Louvo-o por seu desprendimento. Pena que um craque do seu calibre jogue contra uma oposição que joga contra si mesma e, assim, atropela e inviabiliza um liberalismo decente entre nós.
E, sem oposição e uma consciência de limites do poder, vamos ter um longo campeonato no qual haverá apenas um campeão. No esporte isso representa o fim do próprio jogo. Na vida pública, isso significa o fim da política como ação social e o início de um domínio à la Casa Grande & Senzala: repleto de confraternizações e agregados. De vez em quando alguém leva uma chibatada, mas não por mal; recursos serão sempre esbanjados, mas o Brasil é rico. Afinal, como resistir a um personalismo que funda parte do sistema e jamais foi discutido em seus confrontos com o nosso lado liberal e igualitário? Paciência. Só fomos ideológicos para trazer de volta um habitual personalismo que deve eleger este sim é um fato jamais visto na nossa história não uma mulher-presidenta, mas (como quer o Lula) a mãe do Brasil.
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