quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Sete décadas depois, a revisão da história

Correio Braziliense - 28/07/2012

Favelas do Rio, como a Rocinha, foram ocupadas pelo tráfico, mas recentemente retomadas pela polícia, reacendendo a imagem de pacificação, tão presente em Brasil, país do futuro

Setenta e um anos separam o Brasil que Zweig percorreu em 1941 e o Brasil dos dias de hoje. No início dos anos 1940, o Brasil possuía 41 milhões de habitantes. Hoje, tem quase cinco vezes mais – 190 milhões. Entre 1940 e 2012, a expectativa de vida do brasileiro quase que dobrou, passando de 42,7 anos para 73,1 anos, segundo as últimas estimativas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

De uma nação que mal havia começado a entrar na era industrial e cuja maioria da população ainda vivia no campo, o Brasil é hoje a sexta economia mundial, embora a crise econômica europeia esteja começando a mostrar seus reflexos por aqui também. No campo político, o Brasil alternou períodos de ditadura com experiências democráticas. Embora problemas como a corrupção não estejam ainda sob controle, o Brasil é hoje um Estado democrático consolidado. Não seria o caso de se perguntar, então, se o futuro imaginado por Zewig finalmente não chegou?

Para o sociólogo Rudá Ricci, diretor do Instituto Cultiva, não se pode dizer que o futuro chegou integralmente, pois o país tem problemas sérios de eficiência no setor público e na sua infraestrutura, como apontou estudo sobre a competitividade do Brasil no mundo elaborado pela escola de admistração suíça IMD (ver artigo nas páginas 22 a 24). Por outro lado, com base no mesmo estudo, ele entende que, para algumas áreas o futuro chegou, ainda que com percalços. "Caminhamos para ser o quinto maior mercado consumidor do mundo, temos uma população majoritariamente de classe média, somos o terceiro país do mundo em acesso às redes sociais e o quinto em atração de investimento produtivo externo. Mas caminhamos aos solavancos. Nossas instituições políticas são arcaicas e se ressentem de seus vícios de origem, como o Senado, que foi criado para dar lugar às oligarquias rurais regionais (como nos EUA) e não para, efetivamente, representar os estados que compõem nossa federação", afirma Rudá.

A mesma visão tem o antropólogo Luiz Eduardo Soares, que foi secretário nacional de Segurança durante o governo Lula. Para ele, o país avançou muito a partir de 1994, com o Plano Real, que, segundo ele, estendeu para a economia e a administração pública as condições indispensáveis para a vigência da institucionalidade democrática que havia sido recentemente conquistada e fora formalmente consagrada na Constituição de 1988. "Os governos FHC e Lula, a despeito de seus problemas e limites, e sem prejuízo de suas diferenças, contribuíram para a consolidação democrática, a redução das desigualdades e a retomada do crescimento."

Porém, segundo Luiz Eduardo Soares, os problemas a serem superados para que o país chegue ao futuro ainda são muitos. "A representação política está deteriorada, a confiança popular está profundamente abalada, a desigualdade no acesso à Justiça permanece abissal, corroendo sua credibilidade, o racismo ainda não foi reconhecido como um dos mais dramáticos problemas nacionais, a violência não foi enfrentada com racionalidade, nos marcos da legalidade, a homofobia e a brutalidade contra a mulher intensificam-se, violações aos direitos humanos prosperam em todo o país e a pobreza tem sido criminalizada como nunca." Em resumo, segundo Luiz Eduardo Soares, o Brasil continua sendo o "casamento perverso entre o atavismo regressivo e o progressismo inspirador, dançando na corda bamba entre avanços e recuos, sombras e luzes. Somos o país do passado e do futuro", define.

O ex-ministro da Fazenda Maílson da Nóbrega considera que o futuro chegou não pelas razões apontadas por Stefan Zweig: extensão territorial e recursos naturais. "O futuro chegou porque construímos as instituições básicas que geram a prosperidade: democracia, Judiciário independente – que garante direitos de propriedade e respeito aos contratos – e imprensa livre e independente. Ainda não está assegurada nossa integração ao mundo rico, mas dificilmente voltaremos aos tempos de instabilidade política e inflação sem controle", afirma Maílson, que é autor do livro O futuro chegou, editado em 2005.

Para Cláudio Weber Abramo, diretor-executivo da ONG Transparência Brasil, o futuro imaginado por Stefan Zweig em 1941 está longe de se concretizar. "Um país que se acostumou à cópia, à repetição acrítica de tudo o que soa popular e à supressão do contraditório. Esse é o Brasil do século 21, no qual a invenção é vista como contravenção e a imaginação só é permitida quando a serviço da embromação mercadológica. Tudo é imagem, ficando a substância das coisas soterrada sob a complacência generalizada de quem teria o dever da crítica. É verdade que a mediocridade brasileira não resulta de alguma transformação recente. Excetuando-se talvez a música, a sociedade brasileira jamais produziu algo de original. Consumidores para sempre: esse é o futuro do Brasil", afirma Cláudio Weber Abramo.

Bem menos pessimista é a avaliação do jurista Ives Gandra, especialista em direito tributário. Para ele, o Brasil é, ao mesmo tempo, um país do passado, do presente e do futuro. "Como país do passado, mantém estruturas políticas arcaicas, concepção de que a autoridade é mais importante que o cidadão, departamentos burocráticos anacrônicos, sem ter adotado, salvo exceções, a burocracia profissionalizada, e não ter ainda modernizado seu sindicalismo e sua legislação trabalhista e previdenciária. É um país do presente com um sistema financeiro e eleitoral melhor que das nações desenvolvidas e, graças ao setor privado e não aos governos, um país economicamente estável e emergente. E é um país do futuro, pois ainda há muito a mudar para destravar os quatro gargalos da nossa economia: excesso de tributos, excesso de encargos trabalhistas, excesso de burocracia e excesso de corrupção, a que acrescento escassez de patriotismo em nossos políticos."

O empresário Robson Andrade, presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), também entende que no Brasil dos dias de hoje, o presente e o futuro caminham juntos. "Soubemos, sim, aproveitar todo o potencial que Zweig via em nosso país e, a partir dele, construir o que é hoje uma grande democracia e a sexta maior economia do mundo. Moderna e inovadora, inclusiva e transformadora". Para Robson Andrade, seguir adiante é o desafio do Brasil de hoje, "em um mundo em constante e acelerada evolução e asfixiado por grave crise econômica e financeira". Nesse sentido, ele considera como maior obstáculo a ser vencido o de trabalhar pelo aumento da produtividade e da competitividade da economia. "Como fez Zweig em seu diagnóstico premonitório, essa é uma indeclinável convocação à sociedade brasileira, o que, mais uma vez, implica perscrutar o futuro para definir como agir no presente", afirmou Robson Andrade.

O senador Cristovam Buarque (PDT-DF), ex-reitor da Universidade Nacional de Brasília (UnB) e profundo conhecedor da obra do escritor austríaco, analisa a utopia de Stefan Zweig por um outro ângulo. Para o senador, o cenário ideal imaginado por ele há 70 anos é outro, embora muitos países, entre os quais inclui o Brasil, estejam trabalhando para se tornarem peças ativas deste mesmo cenário. "Nesse mundo que está aí, dessa civilização industrial predatória, não seremos o país do futuro. Somos emergentes tardios. Emergimos para um mundo em extinção, que é o mundo do consumo, da depredação ambiental. Estamos apenas imitando o ocidente e não construindo uma alternativa. Quem não constroi alternativa, não é futuro. É rabeira. Vai atrás dos outros. Para ser futuro, tem que trazer novidade", afirmou Cristovam Buarque, para quem o cenário futuro de descrito por Zweig não existe mais. "O futuro também morre. E aquele futuro morreu".

A professora emérita também UnB Bárbara Freitag lembra que o livro Brasil, país do futuro, foi escrito para dois públicos distintos: o europeu e o brasileiro. O europeu poderia ter a chance de superar iniciar uma vida nova sem os traumas do nazismo. Para os brasileiros, que não tiveram a vivência da guerra e dos campos de concentração, a promessa de felicidade consistia, segundo Freitag, em sair da pobreza, da ignorância, da fome e do desemprego. Para ela, nos últimos 60 anos, a situação mudou para melhor, tanto para os europeus que vieram para o Brasil, quanto para os próprios brasileiros, "que hoje buscam sua sorte, em liberdade, dentro e fora do país". Ela afirma que não se importa com o fato de que o futuro sonhado por Stefan Zweig para o Brasil possa ser interpretado com uma utopia: "A utopias existem para serem perseguidas".

Educação é a base de tudo

Correio Braziliense - 28/07/2012

Queda do PIB ajudou a reduzir a competitividade internacional do Brasil nos últimos dois anos
Carlos Arruda e Fabiana Madsen *

Em 2010, o Brasil chegou à 38ª posição entre os países mais competitivos do mundo. Nos últimos dois anos, interrompeu essa ascenção e caiu para o 56º posto, apenas três na frente do lanterna. Os pesquisadores Carlos Arruda e Fabiana Madsen, da Fundação Dom Cabral (FDC), instituição que coordena a coleta de dados do estudo no Brasi, analisam essa retrocesso e apontam as saídas. Para que isso ocorra, é preciso que o país se antecipe ao futuro.

O índice geral do World Competitiveness Yearbook 2012 mostra que o Brasil está menos competitivo no cenário internacional. Com uma queda de duas posições em relação a 2011, o país chegou à 56ª colocação entre os 59 países analisados. Para retomar o ganho competitivo que acompanhou a economia nacional entre 2007 e 2010 – quando ocupou a 38ª colocação – e alavancar o crescimento do país, o curto prazo não pode ser o foco principal das medidas adotadas tanto por governos quanto por empresas. As ações devem ser planejadas considerando o longo prazo, e assim permitirem retorno positivo e sustentado para o Brasil. A análise detalhada do desempenho da economia brasileira em todos os indicadores que compõem o relatório mostra que em 2012 a perda de competitividade é consequência de deficiências acumuladas nos últimos anos.

Como principais destaques negativos, tem-se o crescimento tímido do PIB em 2011, de 2,7%, quando comparado com o crescimento de 2010, que chegou a 7,5%. Obviamente o baixo crescimento do PIB resulta em perda de competitividade em inúmeros outros fatores, como crescimento da renda per capita, participação no comércio internacional, etc. Revés também foi observado nos investimentos internacionais, em especial no fluxo de investimentos do Brasil no resto do mundo. Em 2011, resultante das crises econômicas vividas na Europa e EUA e uma perspectiva ainda positiva para a economia brasileira, houve uma inversão na direção dos investimentos diretos no exterior por empresas brasileiras que retornaram cerca de US$ 9,3 bilhões para o país, ao mesmo tempo em que investidores estrangeiros trouxeram cerca de US$ 66 bilhões em investimentos diretos. O indicador de comércio internacional também permanece desfavorável. No último ano, conforme dados do Banco Central, o Brasil apresentou um déficit de US$ 52,6 bilhões em seu balanço de transações correntes. Este déficit recorde no país ocorreu apesar do superávit de US$ 58,6 bilhões no balanço de pagamentos em 2011, e de um saldo de US$ 29,8 bilhões na balança comercial do mesmo ano.

Quando analisado o comportamento do indicador de crescimento real da produtividade total, verifica-se um ligeiro aumento no último ano. Em 2010, essa variável fechou em -0,96% (em relação ao PIB) e, em 2011, a taxa de crescimento foi de 0,62%. Ainda assim, esse valor é muito aquém do ideal, quando comparado à taxa de crescimento médio da produtividade das demais economias mundiais, que foi de 2,06%. A produtividade do trabalho em paridade do poder de compra (indicador que elimina a diferença entre o custo de vida dos países) indica que o trabalhador brasileiro produz, em média, o equivalente a US$ 12,56 por hora trabalhada, enquanto a média mundial é de US$ 31,84 por hora trabalhada.

A análise comparativa da competitividade brasileira sugere, no entanto, que o Brasil tem fortes fundamentos para uma potencial melhora em seu desempenho competitivo. Praticamente todos os indicadores de eficiência dos negócios (diversidade, qualidade da gestão, profissionalismo, etc.) indicam de forma consistente a existência de um ambiente empresarial positivo e confiante em seu desempenho – apesar da perda produtiva apresentada anteriormente. Em se tratando do mercado de trabalho, o Brasil se mantém entre os 20 países que têm seus mercados de trabalho mais competitivos. Em 2010 e 2011, conforme apresenta o relatório, a força de trabalho cresceu timidamente (3,05%), chegando a um patamar de 102,5 milhões de pessoas. Pesquisa de opinião realizada anualmente pela Fundação Dom Cabral sobre as práticas gerenciais, atitudes e valores das empresas mostra a confiança do corpo empresarial no potencial de suas atividades.

Ademais, o relatório apontou um ganho de seis posições no conjunto dos indicadores de infraestrutura, indicando a interrupção de um ciclo de três anos de declínio em relação aos 58 países pesquisados. Apesar disso, o Brasil ainda está entre as economias menos competitivas do grupo. O avanço geral em praticamente todas as variáveis relacionadas à infraestrutura sugere que o país está na direção correta, mas talvez a velocidade esteja aquém do necessário. O mesmo se pode observar nos ganhos relacionados ao desenvolvimento tecnológico e à capacidade de geração de novas tecnologias a partir da cooperação entre empresas e entre estas e as universidades. Estes ganhos, importantes, mas tímidos, não resultaram em aumento no número de patentes e novas tecnologias geradas no país, tampouco em exportações de produtos com maior valor agregado. Os ganhos competitivos existem, mas também sinalizam para um problema enfrentado pelo Brasil e do qual tanto o setor público quanto o privado estão cientes: o atraso do país na eficiência e técnica para a criação e desenvolvimento de novas tecnologias e inovações, principalmente devido à ineficiência nos sistemas educacionais, cooperação entre os setores público e privado, marco regulatório adequado para incentivo e apoio à pesquisa tecnológica, à inovação e ao empreendedorismo.

A combinação de marco regulatório inadequado, sistema tributário ultrapassado, sistemas educacionais de baixa qualidade e baixos investimentos no país, tanto por parte dos governos quanto da iniciativa privada, trava a competitividade brasileira no curto, médio e longo prazos. A produtividade deveria ser, em nossa opinião, a grande prioridade, uma vez que por ela passa uma série destes e outros aspectos que necessitam atenção imediata. A capacidade produtiva de um país é um dos fundamentos determinantes para avançar na competitividade. Quanto mais riqueza é obtida com a mesma quantidade de capital e com o mesmo número de trabalhadores, mais competitivo será o país. No caso brasileiro, o crescimento do emprego, tão necessário e tão citado como base dos avanços recentes, não tem gerado crescimento de riqueza na mesma proporção.

Em seu momento atual, o Brasil gera empregos mas não riqueza – a taxa de crescimento do emprego saiu do nível de 0,3% entre 2009 e 2010 para o nível de 2,1% entre 2010 e 2011. Estão sendo criados empregos que exigem menor qualificação do trabalhador, em setores que agregam pouco valor à economia. Ou seja, apesar dos óbvios benefícios econômicos e sociais que acompanham a positiva geração de postos de trabalhos estes não estão sendo adequados para a reestruturação e crescimento do setor produtivo brasileiro. Os dados do relatório mostram que é pequeno o número de profissionais com a qualificação necessária para transformar a simples pesquisa em um processo de desenvolvimento (os dados mais recentes apresentados, para 2007, mostram que o percentual de graduados em cursos de ciência e tecnologia no Brasil está em 15,2%, enquanto no resto do mundo esse percentual chega a 34,46%).

Além disso, os profissionais precisam desenvolver um comportamento empreendedor e inovador menos avesso ao risco, característica raramente encontrada no país. Uma pesquisa recente feita pela FDC com cerca de 220 gestores mostrou que aproximadamente 80% deles estão investindo em inovação para atender pressões competitivas do mercado. Apenas 9% estavam aplicando recursos no desenvolvimento de novos produtos e serviços que podem fazer a diferença nos mercados nacional e internacional.

Na busca pelo equilíbrio, a economia brasileira deverá alocar seus recursos de maneira mais eficiente. Para resultados mais imediatos, esses recursos precisam ser destinados, principalmente, à melhoria técnica no ensino do país, que carece de mão de obra qualificada, e na infraestrutura (tanto física como científica e tecnológica). Considerando o longo prazo, o investimento na educação básica é fundamental para garantia de melhorias na capacidade do capital humano que se forma, assim como na estruturação de um modelo de incentivos e cooperação voltado ao desenvolvimento e à inovação. No final dos anos 90, um estudo conduzido pelo Fórum Econômico Mundial perguntou que fatores determinavam a capacidade de um país de se tornar competitivo. Uma das principais conclusões foi a capacidade do país de se antecipar ao futuro. No Brasil o futuro é agora! Não podemos perdê-lo.

* Carlos Arruda é coordenador do Núcleo Bradesco de Inovação, diretor-executivo de Internacionalização e professor da Fundação Dom Cabral (FDC) na área de inovação e competitividade

* Fabiana Madsen é graduada em Ciências Econômicas pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e atua como pesquisadora no Núcleo Bradesco de Inovação e na equipe de competitividade da FDC

Como a história assombra o euro

Autor(es): Barry Eichengreen
O Estado de S. Paulo - 29/07/2012

BARRY EICHENGREEN - o autor é professor de Economia e Ciência Política da Universidade da Califórnia em Berkeley. Escreve a cada dois meses para o "Estado" - O Estado de S.Paulo Depois de passar boa parte da semana no Brasil, tive a impressão de que havia um único assunto na cabeça dos meus interlocutores: a crise na Europa. É difícil ser encorajador. Não há muito que o Brasil possa fazer para se isolar da crise na zona do euro. A saída da Grécia e a crescente intensidade das ondas de choque financeiro irradiadas a partir da Europa estão se aproximando, e não há muito que possamos fazer quanto a isso. O melhor conselho, que não chega a ser muito útil, é fechar bem as escotilhas, pois teremos mares agitados pela frente. Na verdade, minhas conversas no Brasil levantaram uma questão importante a respeito da crise na Europa. É claro que a Europa tem muitos problemas. O continente vive uma crise de endividamento, uma crise bancária, uma crise de competitividade e uma crise política. Mas alguns desses problemas têm sido desnecessariamente agravados pela falta de flexibilidade do Banco Central Europeu. O BCE tem sido lento no corte aos juros. Cortes nos juros implementados pelo BCE tornariam mais fácil o pagamento dos encargos das dívidas nacionais - principalmente se os cortes nos juros forem acompanhados pelo afrouxamento quantitativo, com o BCE comprando títulos no mercado secundário. Além disso, a relutância do BCE em fazer cortes manteve a taxa de câmbio do euro demasiadamente fortalecida. Um câmbio mais fraco é exatamente o que a Europa precisa para começar a controlar seus problemas. Suas exportações se tornariam mais competitivas. Sua economia começaria a crescer. O crescimento tornaria mais fácil a restauração da confiança entre os países e entre os eleitores, pré-requisito para a formação de um consenso quanto às medidas a serem adotadas. Por fim, um afrouxamento quantitativo adicional por parte do BCE faria com que os preços começassem a subir. O custo dos produtos no sul da Europa precisa cair em relação ao custo na Alemanha. Isso pode ser conseguido de maneira menos dolorosa por meio de uma inflação um pouco mais alta na Alemanha, somada a salários e preços mais estáveis no sul, em vez da estabilidade de salários e preços na Alemanha que implica a necessidade de cortes impossíveis nos países do sul. Mas o BCE se recusa a adotar tais medidas. Tudo que vimos nos últimos meses foi um corte aleatório nos juros e nenhuma medida adotada com relação ao afrouxamento quantitativo. A situação se tornou tão ruim que até o Fundo Monetário Internacional, instituição que não é conhecida exatamente por sua irresponsabilidade, deseja agora medidas de resposta mais agressivas por parte do BCE. Quando indagamos por que o BCE reluta tanto em agir, a maioria das pessoas aponta para o medo que os alemães têm da inflação. Depois da terrível experiência de hiperinflação vivida pelo país nos anos 20, os alemães temem a possibilidade de a inflação estar à espreita, aguardando o momento de atacar. Eles criaram o Banco Central Europeu à imagem do seu próprio BundesBank. Consequentemente, o BCE se recusa a fazer qualquer coisa que possa criar o mais remoto risco de inflação. Em particular, a Alemanha rejeita todas as propostas que pedem a compra de títulos do governo por parte do BCE, temendo que isto leve à impressão de ainda mais dinheiro, incentivando os governos a burlar as regras orçamentárias da UE. E, no ambiente atual, contexto em que é a Alemanha quem dá as cartas na economia europeia, os alemães impõem seu estilo aos demais. É neste ponto que a comparação com o Brasil se torna interessante. O Brasil também tem uma história de alta inflação - ainda mais próxima do que a da Alemanha, já que foi vivenciada em primeira mão pelos brasileiros ainda vivos. O Brasil tem também uma história de governos estaduais que burlam as regras orçamentárias. Mas o Banco Central do Brasil se sentiu livre para cortar os juros acentuadamente na desaceleração atual, como deveria fazer um banco central competente. Diferentemente do BCE, o BCB não foi inibido pela história de inflação do Brasil e seguiu práticas adequadas para uma instituição de seu tipo. Por que tal diferença? Suspeito que os alemães tenham tamanha fobia da inflação - a ponto de colocar em risco sua moeda única - porque a sabedoria popular alemã diz que a inflação causou o colapso da República de Weimar, o fim da democracia e a ascensão dos nazistas. Ninguém no Brasil deseja ver o retorno da inflação, mas a experiência inflacionária brasileira foi menos traumática, pois não levou ao colapso do sistema político. O único problema é que a sabedoria popular alemã está errada. Os estudos modernos concordam que não foi a hiperinflação dos anos 20, e sim a Grande Depressão e o alto desemprego dos anos 30 que fomentaram o apoio político aos nazistas. Ao exigir do BCE que apague imediatamente todas as fagulhas de inflação - algo que, no ambiente atual, só agrava o desemprego -, a Alemanha está portanto alimentando justamente o problema do extremismo político que o pais tanto teme. Não será fácil contrariar a sabedoria popular alemã, algo que, por sua vez, não nos dá muita esperança de uma solução amena para a crise da zona do euro. Mas, no Brasil, a situação é mais alegre. Os brasileiros aprenderam a lição certa com sua própria crise inflacionária. Fortalecer as regras fiscais sob as quais os governos estaduais operam. Dar ao banco central independência estatutária. E então se afastar para que o banco central possa fazer seu trabalho. /TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

"Dossiê Golpe de 64" saiu da gaveta

Élio Gaspari - Élio Gaspari
O Globo - 29/07/2012

Está chegando às bancas a edição de agosto da "Revista de História" da Biblioteca Nacional. Nela desfaz-se um mistério: o que havia nas 22 páginas do "Dossiê - O Golpe de 1964" que foram retiradas da edição de abril, por decisão comunicada em nome do Conselho Editorial da revista, depois de elas estarem prontas, editadas e diagramadas? Resposta: Nada além de um trabalho competente de jornalistas e professores.

O "Dossiê", organizado por Bruno Garcia e Nashla Dahás, foi publicado por decisão de todos os profissionais da redação (cinco jornalistas e 12 pesquisadores). Aparece com três meses de atraso, mas tira da revista a macumba de ter engavetado a História.

Há no "Dossiê" cinco artigos, dos professores Daniel Aarão Reis (UFF), João Roberto Martins Filho (UFSCar), Jorge Ferreira (UFF), Luis Antonio Dias (PUC-SP), e Mateus Henrique de Faria Pereira (UFMG). São textos de historiadores, só isso. Não revelam onde estão desaparecidos da ditadura, nem quem deu a ordem para matar todos os militantes do PCdoB que estavam no Araguaia a partir de outubro de 1973.

Ainda há gente que se inquieta com 1964. É compreensível. Aarão Reis ensina em seu artigo que "é inútil esconder a participação de amplos segmentos da população no movimento que levou à instalação da ditadura em 1964. É como tapar o sol com a peneira."

Resta a pergunta das razões que levaram conselheiros a se associar, ou verem-se associados, ao engavetamento. Eram oito historiadores, sete dos quais professores de universidades. O conselho estava envolvido num conflito com a entidade que edita a revista, a Sociedade Amigos da Biblioteca Nacional. Em meados de junho, ele demitiu-se. O conflito nada teve a ver com o conteúdo da publicação. Em abril a revista circularia com artigos que relembrariam um fato histórico ocorrido há 48 anos. Saiu com um levantamento sobre mercenários. Em maio, mês da Abolição, a capa foi para a princesa Isabel.

A redação deu final adequado a uma história que deixaria mal uma revista chamada História.

À época do engavetamento do "Dossiê", era a seguinte a composição do conselho editorial: Alberto da Costa e Silva (presidente), José Murilo de Carvalho (UFRJ), Lília Moritz Schwarcz (USP), João José Reis (UFBA), Laura de Melo e Souza (USP), Caio César Boschi (PUC-BH), Ricardo Benzaquen (PUC- RJ), Ronaldo Vainfas (UFF), Marieta Moraes Ferreira (CPDOC-FGV) e Luciano Figueiredo (UFF).

Lula

O comissariado petista diz que Lula vai bem, em relação a seja lá o que for. Apesar disso, reconhece que, com a chegada de agosto, as coisas não evoluíram como se previa.

Em outubro passado, quando o câncer de Lula foi diagnosticado, a doutora Dilma previu que no carnaval ele desfilaria com os Gaviões da Fiel. Em abril, Lula achava que em duas semanas estaria nas campanhas de Fernando Haddad e Luiz Marinho.

José Dirceu

Na quarta-feira, a decisão de José Dirceu era a de não ocupar a tribuna do Supremo para se defender. A tarefa ficaria com seu advogado.

O conde Ciano

Para quem gosta de histórias da Segunda Guerra, do fascismo ou de espertalhões, saiu um bom livro. É "O Conde Ciano - Sombra de Mussolini", do jornalista americano Ray Moseley.

Galeazzo Ciano era um nobre italiano, boa-pinta e vigarista. Casou-se com a filha do ditador Benito Mussolini e tornou-se ministro das Relações Exteriores aos 33 anos.

Em 1943, traiu e ajudou a depor o sogro. Foi capturado pelos fascistas, julgado e condenado à morte, junto com quatro outros hierarcas. Na hora de ser passado nas armas, escreveu a melhor página de sua biografia (e do livro). Primeiro, arrumou a disposição dos colegas de viagem de acordo com o cerimonial da precedência, como se acomodasse convidados para um jantar. Recusou a venda e, sentado de costas para o pelotão de fuzilamento, na hora certa virou-se e encarou-o.

A tradução é do general Gleuber Vieira, comandante do Exército durante o tucanato.

FILME PARA O STF
Um curioso sugere que os ministros do Supremo aproveitem as vésperas do julgamento do mensalão para ver o filme "Dois são Culpados" ("La Glaive et la Balance"), do francês André Cayatte. É de 1963, difícil de achar. Dois sujeitos sequestraram um menino e, perseguidos pela polícia, esconderam-se num farol. Quando o prédio foi invadido o menino estava morto e havia nele três pessoas. Durante o julgamento os advogados dos três sustentaram que seu cliente estava lá quando chegaram os criminosos. Foram convincentes, e todos os réus foram absolvidos. Terminado o julgamento, entraram num camburão. A choldra queimou o carro onde estavam Anthony Perkins, Jean Claude Brialy e Renato Salvatori. Assaram os culpados e o inocente.

TUNGA
O comissariado promete um reordenamento tributário. Poderia dar atenção a um capítulo irracional e retrógrado da barafunda de tungas que impõem aos contribuintes.

Um cidadão quer ver um filme que ainda não chegou ao Brasil e resolve importar um DVD pela Amazon. Ele custa US$ 24, mais US$ 17 pelo frete da caixinha. Em cima do total de US$ 42 a empresa cobra, adiantado, US$ 40 de impostos brasileiros. O pobre-diabo toma uma tunga equivalente ao valor da compra.

O problema é que outro cidadão pode comprar por R$ 400 um aparelho Apple TV, ou trazê-lo na mala, comprado nos Estados Unidos, por US$ 99. Com essa máquina aluga o filme no iTunes e paga US$ 5. Se quisesse comprá-lo, baixaria a peça por US$ 20, a quarta parte do que pagou a primeira vítima.

Proteger a indústria nacional de distribuição de DVDs é uma coisa. Punir os contribuintes com tamanha tributação é outra. Os impostecas nacionais ainda não descobriram o alcance democratizador do comércio eletrônico. Como diziam que os iPads não eram computadores porque não tinham teclado, são capazes de tudo.

O CONDE CIANO
Para quem gosta de histórias da Segunda Guerra, do fascismo ou de espertalhões, saiu um bom livro. É "O Conde Ciano - Sombra de Mussolini", do jornalista americano Ray Moseley.

Galeazzo Ciano era um nobre italiano, boa-pinta e vigarista. Casou-se com a filha do ditador Benito Mussolini e tornou-se ministro das Relações Exteriores aos 33 anos.

Em 1943 traiu e ajudou a depor o sogro. Foi capturado pelos fascistas, julgado e condenado à morte, junto com quatro outros hierarcas. Na hora de ser passado nas armas escreveu a melhor página de sua biografia (e do livro). Primeiro arrumou a disposição dos colegas de viagem de acordo com o cerimonial da precedência, como se acomodasse convidados para um jantar. Recusou a venda e, sentado de costas para o pelotão de fuzilamento, na hora certa virou-se e encarou-o.

A tradução é do general Gleuber Vieira, comandante do Exército durante o tucanato.

O PLANALTO INCENTIVA MAIS UMA GREVE

Desde 18 de junho há auditores da Receita Federal namorando uma greve. Por enquanto, fazem operações-padrão e reduzem o lançamento de cobranças. O sindicato da categoria não gosta da ideia, e o movimento não empolgou os servidores.

Na quarta-feira os sábios do Planalto ameaçaram substituir eventuais grevistas com funcionários das fazendas estaduais. A ideia não tem base legal sólida e serve apenas para acirrar os ânimos. Em 2002 uma hierarca insultou os auditores dizendo que não precisavam de melhorias porque entre eles havia muitos corruptos. Deu fôlego à greve.

Num caso desses, a Receita, silenciosamente, mexe nos canais e reprograma o índice de fiscalização, sem anúncios marqueteiros que apenas estimulam contrabandistas e larápios.

A ideia de terceirizar grevistas deu certo nos Estados Unidos em 1981, quando pararam os controladores de voo. O presidente Ronald Reagan convocou militares e interessados nos postos, desempregou 11 mil, quebrou o movimento e destruiu o sindicato. Dilma Rousseff não é Ronald Reagan.

Resgate histórico

Autor(es): Ana Dubeux
Correio Braziliense - 29/07/2012

O Brasil sempre foi um país condenado ao olhar impiedoso daqueles que o enxergam como o reino do jeitinho, da impunidade, da tibieza de suas instituições. Junto ao crescimento que experimenta na seara econômica e até no jogo político democrático, tem tido a chance de reinventar sua imagem. Os esforços para abrir arquivos da ditadura e instituir a comissão da verdade estão aí para derrubar mais alguns obstáculos nesse caminho. Nesta semana, no entanto, será estendido o tapete vermelho para essa passagem civilizatória. O cidadão acompanhará o julgamento dos réus do chamado mensalão, o escândalo que contaminou o fim do primeiro mandato de Lula e colocou 38 pessoas diante das acusações de formação de quadrilha, peculato, corrupção ativa e passiva, gestão fraudulenta, lavagem de dinheiro e evasão de divisas. Não é pouca coisa, principalmente porque significa o desfecho do caso, independentemente do resultado.

O maior julgamento da República levará o brasileiro a uma viagem no tempo, ao fechamento de um longo período de sete anos e, principalmente, o resgatará de um esquecimento, tão comum quando se trata de crimes políticos. Nesse período, as pessoas nasceram, morreram, tiveram

filhos ou os viram partir, casaram-se, viajaram, trabalharam, compraram a casa própria e tocaram a vida sem que a lembrança de Delúbio Soares, Marcos Valério, Roberto Jefferson e companhia limitada queimasse uma só de suas pestanas. Houve, sim, a decepção, mas o show continua.

Passaram a indignação coletiva, as eleições que deram a Lula seu segundo mandato, as outras eleições que colocaram a sucessora de Lula como a primeira mulher a presidir o Brasil. Dilma adoeceu e se curou, Lula adoeceu e se recupera, o delator Jefferson enfrenta problemas de saúde e não estará no Supremo Tribunal Federal durante o longo julgamento. Passaram bois e boiadas, inclusive sobre a cabeça dos brasilienses, que dormiram um dia e acordaram de frente com uma senhora encrenca chamada Pandora.

O Brasil continuou perdendo gente para o trânsito, para as doenças crônicas, para as drogas. Perdeu também o fio condutor para uma educação de qualidade, enquanto a classe política discute se o caso mensalão, agora novamente no foco, vai ou não influenciar nas próximas eleições. Mas é bom saber que desta vez não perderá a memória. O julgamento retoma, resgata uma parte da história brasileira, que poderá ser contada com início, meio e fim.