quarta-feira, 27 de julho de 2011

João Ubaldo Ribeiro - Vida de escritor

Domingo, Julho 03, 2011



O Estado de S.Paulo




Com mais de 50 anos de escrevinhação nas costas, descobri algumas
ideias que muita gente faz da vida de um escritor. Por exemplo, tem
quem ache que os escritores, notadamente entre eles mesmos, só falam
difícil, uma proparoxítona para abrir, uma mesóclise para dar classe e
um tetrassílabo para arrematar. "Em teu parecer, meu impertérrito
amigo", perguntaria eu ao Rubem Fonseca, durante nosso almoço
periódico, "abater-se-á hoje, sobre a nossa urbe, uma formidanda
intempérie?" Ao que o Zé Rubem reagiria com uma anástrofe, um
mais-que-perfeito fazendo às vezes do imperfeito do subjuntivo e uma
aliteração final show de bola, coisa de craque mesmo. "Augure do tempo
fora eu, pressagiá-lo-ia libentissimamente", responderia ele.
"Todavia, de tal não me trato." E assim iríamos almoço afora,
discutindo elevadíssimos assuntos, em linguagem só compreensível por
indivíduos especiais.
Além de falar difícil, os escritores são ricos. Todo mundo acha que o
escritor com quem se defronta é o mesmo que, segundo os jornais,
lançou oito best-sellers em sucessão nos Estados Unidos e os vendeu
por todos os dólares disponíveis em Hollywood, além de ter dormido com
nove em cada dez estrelas de cinema. Muitos não acreditam que o
escritor, quando ganha com o que faz, leva entre 5 e 12% do preço do
livro na livraria. Na verdade, a imensa maioria dos escritores tem que
se virar em outras atividades, como a de professor ou de jornalista,
nos intervalos das quais, desassistido e muitas vezes com fama de
maluco, teima em ceder a uma vocação imperiosa ou ao que lá o impila a
escrever.
E acredita-se muito nas matérias que, de tempos em tempos, ressurgem
com uma regularidade que as faz parecer sazonais, a respeito do boom
experimentado por nossa literatura no exterior. Com exceção de alguns
dias como objeto de uma feira importante, nunca houve boom nenhum. As
editoras, livrarias e feiras, de modo geral, criaram uma categoria
literária e lá socam brasileiros, peruanos, chilenos, cubanos,
argentinos e toda a malta latina. Saem daí noções estapafúrdias, como
"cultura latino-americana". Já contei aqui como fui recebido, uma vez,
na Áustria, por uma "noite de cultura sul-americana", que passei
ouvindo índios andinos tocando aquelas flautas deles. O ensino de
língua e literatura de língua e literatura em português é
frequentemente enfiado em departamentos de espanhol e português, de
verbas curtas, equipes minúsculas e prestígio mínimo.
Os brasileiros portam a carga adicional da Amazônia. Na Alemanha,
falando em público, eu notava que algumas pessoas acreditavam que
praticamente todo o Brasil era a Amazônia e achavam que, assim ou
assado, poucos brasileiros viviam longe dela. Não é incomum que nos
tomem satisfações pessoais pela situação da Amazônia como descrita
pela imprensa local. E os índios são também obrigatórios. Se o
palestrante brasileiro ousar afirmar que nunca viu um índio, como
aconteceu comigo (eu só tinha visto o Juruna, comendo frango de paletó
e gravata, na casa de Darcy Ribeiro), pode ser tido na conta de
mentiroso cínico.
O brasileiro que se meter a discutir problemas literários, digamos,
universais não obterá a atenção de ninguém. Se aparecer um filósofo
brasileiro, vão achar que é uma aberração. E isso acontece também em
outras áreas. Balé brasileiro tem que basear-se em danças de origem
africana ou indígena, com música percussiva e, se possível, gente
pelada no palco. Para balé moderno brasileiro, torcem o nariz, assim
como para qualquer manifestação de áreas vistas como ilegítimas para
nós. E, sim, respondemos sempre a perguntas sobre identidade nacional
- eles lá mudando de país e povo na mera travessia de uma rua e nós
aqui, com bem mais território que a Europa ocidental e tudo quanto é
tipo de gente misturada, falando a mesma língua e se considerando o
mesmo povo. Muitos não se conformam, saem resmungando das palestras e
elaboram teorias complexas, mostrando cisões de todos os tipos no povo
brasileiro, as quais não percebemos nem quando muito explicadas por
eles.
Os escritores africanos partilham conosco certos problemas. Talvez
ainda em maior escala do que nós, são rotulados simplesmente de
"literatura africana". Tenho vários amigos em vários países africanos,
que não aguentam mais serem escritores africanos, metidos no mesmo
barco que todos os originários de nações negras. A identidade de uma
nação como essas não é vista por sua história, sua língua, sua
religião, seus costumes, sua cultura, enfim, mas, sim, através da
estéril, pobre e equivocada ótica racial - são todos negros, logo são
iguais, onde haver mais igualdade do que nisso?
Se a minha cultura, no episódio da Áustria, foram os índios andinos,
bem mais complicadas serão as homenagens à "cultura" africana. Não
canso de apontar a completa falta de sentido dessa expressão, pois um
continente como a África, que deve dar umas três Américas do Sul, só
tem uma cultura? Está na hora de até nós mesmos, brasileiros, negros
ou não, pararmos com essa história de "africana" (não convide para a
mesma mesa um zulu e um masai), "música africana" e não sei o que mais
lá africano, assim fomentando a visão equivocada e colonialista de uma
África homogeneizada pela cor da pele e não partilhada por povos que
além dela pouco mais têm em comum.
Comecei a escrever tudo isso por causa da Flip, que vem aí, no fim de
semana. Fui escrevendo, fui escrevendo e, quando dei por mim, já tinha
acabado o espaço. Eu vou aparecer por lá e sei que vai ser bom. Foi
somente por precaução que pedi que não fizessem homenagem à minha
cultura e dispensassem algum trio elétrico porventura contratado.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Uma lição para a seleção brasileira

SOBRE A EDUCAÇÃO TECNOLÓGICA NO BRASIL

Recentemente, as políticas educacionais do Brasil voltaram-se para a educação tecnológica, campo do conhecimento voltado essencialmente para a formação técnica nos níveis médio e pós-médio e na qualificação profissional pautada no conhecimento científico e na inovação tecnológica no ensino superior.

Apesar de pertinentes para o contexto de ascensão socioeconômica que o país vive nos últimos anos, tais políticas encontram-se desconectadas da realidade de muitas instituições, especialmente as de ensino superior no Brasil.

Isto se agrava principalmente em algumas instituições privadas. As dificuldades aparecem sob vários aspectos, tais como: alunos (as) vindos (as) do ensino médio mal preparados (as) para enfrentar um curso de nível superior, bibliotecas com livros desatualizados, qualificação profissional dos docentes inferior ao das instituições públicas, pouco incentivo em pesquisa e inovação tecnológica e a falta de equipamentos, principalmente para a realização de experimentos e até mesmo manuseio dos mesmos.

Dessa forma, transparece uma falta de comprometimento dos gestores destas instituições para com os (as) estudantes. A educação tecnológica, como o próprio nome indica, pressupõe investimentos na inovação tecnológica, científica e na preparação de profissionais para o mercado de trabalho. Já passou a época em que apenas giz, quadro e livros faziam um bom profissional. Evidente que certas práticas pedagógicas ditas “tradicionais” devem estar presentes, porém, não devem ser as únicas como se observa atualmente.

Para um bom curso superior de tecnologia são necessários projetos de pesquisa nas áreas científica e tecnológica, treinamento envolvendo aparatos tecnológicos presentes em agroindústrias e demais setores produtivos, desenvolvimento de projetos de extensão nos meios de produção e setor de serviços, currículos voltados para o mercado de trabalho, bem como aulas dinâmicas com fundamentos científicos.

Da forma como vem sendo desenvolvidos os cursos superiores de tecnologia hoje, pautados na simples exposição de conteúdos teórico-coneceituais pode-se pensar até mesmo em propaganda enganosa, praticada por diversas instituições. Cabe aos estudantes verificarem as práticas pedagógicas e, dessa forma, exigirem uma formação adequada para o atual contexto em que estamos inseridos.

Do contrário, serão graduados, porém não devidamente qualificados.



ISONEL SANDINO MENEGUZZO (GÉOGRAFO, DOUTORANDO EM GEOGRAFIA, UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARANÁ)

PONTA GROSSA NA CONTRAMÃO

A mídia televisiva, impressa e virtual tem sido incisiva no tocante a divulgação de informações referentes ao aumento do número de vereadores dos municípios brasileiros em geral. Nos últimos meses tem sido comum esta postura por parte dos legisladores no âmbito nacional.

Especificamente, no mês de abril deste ano a maioria dos vereadores do município de Ponta Grossa votaram a favor do aumento do número de membros da câmara municipal. Portanto, nas próximas eleições os cidadãos irão eleger 23 vereadores e não mais 15 como ocorreu no último pleito eleitoral. Ressalta-se que esta votação foi realizada de uma forma rápida, não dando tempo suficiente para que a sociedade civil organizada pudesse analisar e discutir sobre tema um tanto quanto polêmico. Nesse contexto, infelizmente a discussão e participação pública no que se refere a este aumento foram ínfimas e pontuais.

Diferente do que vem ocorrendo em outros municípios paranaenses, Ponta Grossa parece estar na contramão dos princípios democráticos, os quais deveriam estar pautados na transparência e respeito pelos cidadãos ponta-grossenses. Afinal, quem banca o salário dos vereadores são todos aqueles que pagam seus tributos. Amplas discussões vêm acontecendo em diversos municípios com uma mobilização significativa da sociedade no sentido de alertar a população para os possíveis gastos públicos com o aumento do número de vereadores (e de carona entram salários de assessores, gastos com contas telefônicas e despesas com veículos).

Recentemente a criação de uma unidade de conservação na região de Ponta Grossa já suscitou questionamentos por parte da população, pois a votação que tratava da localização da área protegida foi feita também de forma nada democrática (numa véspera de feriado e sem divulgação para a sociedade em geral). Elementos indicam que esta unidade seria desapropriada de latifundiários da região. Logo, iria “mexer com gente grande”.

Cabe a população estar ciente disso e ficar atenta aos procedimentos tomados por nossos representantes. No plano teórico e prático os vereadores devem estar a serviço da coletividade e ser transparentes em todas as suas atitudes públicas.


Isonel Sandino Meneguzzo (Geógrafo, Funcionário Público Estadual)

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Paralisação de professores já dura mais de 30 dias

Valor Econômico - 13/07/2011

Em pelo menos três Estados - Rio de Janeiro, Minas Gerais e Santa Catarina - os professores da rede estadual de ensino estão em greve há mais de 30 dias e exigem aumento de salários, entre outras reivindicações. Em Santa Catarina, a paralisação já dura 56 dias.

No Rio, onde a paralisação já dura 35 dias, um grupo de cerca de 30 professores invadiu ontem à tarde o prédio da Secretaria Estadual de Educação, no centro da capital fluminense. Houve tumulto entre os manifestantes e os seguranças da secretaria e uma porta de vidro foi quebrada. Policiais do Batalhão de Choque usaram gás de pimenta contra os grevistas.

Uma das reivindicações dos professores do Rio é um aumento emergencial de 26%. Em nota, a Secretaria de Educação lamentou a postura dos professores ao invadir o prédio e disse estar aberta a um acordo entre as partes.

Em Minas, a greve completou 36 dias e ainda não houve negociação entre grevistas e o governo. No item principal da pauta de reivindicações está o pagamento do piso salarial nacional, instituído por lei federal. A Secretaria da Educação informou que o menor salário pago em Minas é R$ 1.122 por 24 horas semanais, contra os R$ 1.187 estabelecidos pela lei federal para 40 horas.

Em abril, o Supremo Tribunal Federal (STF) determinou que esse piso deve ser composto apenas pelo vencimento básico, sem levar em consideração os benefícios adicionais. Os professores do Estado já reivindicavam que todos os abonos fossem incorporados ao salário. (Agências noticiosas)