sábado, 8 de maio de 2010

Legionários do anticristo

da Veja
Os relatos de crimes envolvendo a Legião de Cristo e seu fundador,
Marcial Maciel, se avolumam e levam o papa Bento XVI a assumir
o controle da congregação

André Vargas

Dario Pignatelli/Polaris/Other Images

Entre a cruz e...
...a caldeirinha que o atual papa está fervendo para esses ortodoxos que adoram uma missa solene,
como a retratada na foto ao lado, de 2006, em Roma


A Legião de Cristo é uma congregação católica missionária, criada em 1941, no México. Desde então, ela acabou reunindo um exército de 65 000 seguidores em trinta países e prega a pobreza, a penitência e a castidade. Sua disposição para defender a ortodoxia católica fez com que os legionários de Cristo granjeassem a simpatia do papa João Paulo II e prosperassem em seu pontificado. Hoje, eles mantêm centros de estudos em Nova York e Roma, seminários em São Paulo, Curitiba e Porto Alegre e uma paróquia em Brasília. A Legião de Cristo sofreu seu primeiro abalo em 1997. Naquele ano, seu fundador, Marcial Maciel, foi acusado de pedofilia por oito ex-seminaristas americanos. De acordo com as vítimas, os abusos ocorreram nas décadas de 40 e 50, quando elas tinham cerca de 10 anos. O escândalo só resultou em punição em 2006, quando o papa Bento XVI tirou Maciel da chefia da congregação e lhe impôs uma vida de "orações e penitência". O religioso morreu em 2008, sem demonstração pública de arrependimento. As denúncias, então, se avolumaram. No ano passado, o jornal The New York Times revelou que Maciel teve uma filha em 1987, quando contava 67 anos e a mãe, 26. Em seguida, dois jovens também afirmaram ser filhos dele, acusaram-no de abuso e reclamaram herança. Uma emissora de televisão chilena divulgou que Maciel era dependente do analgésico Demerol e que sofria de dupla personalidade. O religioso foi, ainda, denunciado por manter 20 milhões de euros escondidos em paraísos fiscais. Na Espanha, descobriu-se que Maciel plagiou um li--
vro, delito admitido pe-la própria congregação.

O cerco à Legião de Cristo e ao seu fundador recrudesceu na semana passada, depois que o jornal mexicano Milenio publicou que Marcial Maciel criou uma congregação feminina, sem o conhecimento do Vaticano, composta de 900 jovens. Conforme a publicação, elas foram recrutadas em famílias de classe média e alta da Espanha, do México, dos Estados Unidos, da Itália e da Alemanha. As moças vivem em estabelecimentos mantidos pelo Regnum Christi, o braço laico da ordem. Nesses lugares, seriam mantidas praticamente como escravas, de acordo com o jornal. Só podem receber um telefonema por mês e dependem de autorização para tomar banho. Veem os pais apenas uma vez por ano e as visitas a parentes são limitadas a duas semanas a cada período de sete anos. Têm de sorrir sempre, manter boa aparência e não podem estudar. Também são instadas a fazer gordas contribuições aos legionários. Segundo o jornal, as condições de vida delas foram descobertas por uma comissão eclesiástica que investigava a ordem. A Legião de Cristo nega tudo. Afirma que as consagradas no Regnum Christi são livres e felizes e que o Vaticano aprovou a arregimentação das moças em 2004.

No ano passado, as primeiras denúncias de pedofilia vinculadas à Legião de Cristo já haviam levado o Vaticano a se desculpar publicamente nos Estados Unidos. Em abril último, a Igreja ampliou as desculpas para o resto do mundo. No início deste mês, expediu uma nota pública condenando Marcial Maciel. "Os comportamentos muito graves e objetivamente imorais do padre Maciel, confirmados por testemunhos irrefutáveis, manifestam uma vida sem escrúpulos e privada de autêntico sentimento religioso", diz o texto. Agora, o papa Bento XVI assumiu o controle da congregação e determinou a revisão nos procedimentos adotados pelos legionários. Em setembro, a Igreja já havia despachado o arcebispo chileno Ricardo Ezzati o Brasil, para averiguar a conduta dos legionários no país. Entre os integrantes brasileiros da ordem, reina a consternação. "Fomos enga-nados. Nosso fundador traiu nossa confiança", lamenta o padre Celso Nogueira.

"A culpa é da sociedade" é um lugar-comum que saiu do âmbito do pensamento do filósofo suíço Jean-Jac-ques Rousseau (1712-1778), criador da tese do "bom selvagem", segundo a qual nascemos imaculados e somos corrompidos pela sociedade. Ele serviu de base para as teses marxistas e, depois, como não poderia deixar de ser, virou desculpa para ações criminosas. "Sociedade", nesses termos, é uma abstração destinada a escamotear a verdade – a de que são os indivíduos os responsáveis por seus delitos. Uma versão desse lugar-comum ressurgiu na 48ª Assembleia da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Ao comentar os inúmeros casos de pedofilia que fizeram a Igreja Católica mergulhar numa de suas maiores crises, o arcebispo de Porto Alegre, dom Dadeus Grings, tentou justificar os abusos de colegas de batina, dizendo que "a sociedade atual é pedófila". Ele afirmou que as categorias de médicos, professores e empresários abrigam mais pedófilos que o clero, e ainda defendeu a hierarquia eclesiástica que não denuncia os pedófilos à Justiça: "A Igreja ir lá acusar seus próprios filhos seria um pouco estranho". Mal a CNBB mandou Dadeus se calar, lá foi o bispo emérito de Blumenau, dom Angélico Bernardino, dizer que há diferença entre o assédio a crianças e o perpetrado contra adolescentes. Deu a entender que haveria menos problema no segundo caso. Ou seja, baseou-se em outro lugar-comum surgido a partir do pensamento de Rousseau – o de que "tudo é relativo". O filósofo suíço, aliás, abandonou seus filhos num orfanato. Deve ter sido "culpa da sociedade".

Salto no escuro

Mais de 60% das escolas públicas e particulares no Brasil se identificam como adeptas do construtivismo. Sendo assim, parece óbvio que seis de cada dez crianças brasileiras estão sendo educadas com base em uma doutrina didática cuja natureza, objetivos e lógica devem ser de amplo conhecimento de diretores, professores e pais. Correto? Errado. Uma pesquisa conduzida pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) desvenda um cenário obscuro. Em plena era da internet, os conceitos do construtivismo parecem ter chegado ao Brasil via as ondas curtas de 49 metros de propagação troposférica, com suas falhas e chiados. Ninguém sabe ao certo como o construtivismo funciona, muito menos saberia listar as razões pelas quais ele foi adotado ou deve ser defendido. Ele é definido erradamente como um "método de ensino". O construtivismo não é um método. É uma teoria sobre o aprendizado infantil posta de pé nos anos 20 do século passado pelo psicólogo suíço Jean Piaget. A teoria do suíço deu credibilidade à concepção segundo a qual a construção do conhecimento pelas crianças é um processo diretamente relacionado à sua experiência no mundo real. Ponto. A aplicação prática feita nas escolas brasileiras tem apenas o mesmo nome da teoria de Piaget. O construtivismo tornou-se uma interpretação livre de um conceito originalmente racional e coerente. Ele adquiriu várias facetas no Brasil. Unifica-as o primado da realidade da criança sobre os conceitos básicos das disciplinas tradicionais. Traduzindo e caricaturando: como não faz frio suficiente na Amazônia para congelar os rios, um aluno daquela região pode jamais aprender os mecanismos físicos que produzem esse estado da água apenas por ele não fazer parte de sua realidade. Isso está mais longe de Piaget do que Madonna da castidade.

A experiência mostra que as interpretações livres do construtivismo podem ser desastrosas – especialmente quando a escola adota suas versões mais radicais. Nelas, as metas de aprendizado são simplesmente abolidas. O doutor em educação João Batista Oliveira explica: "O construtivismo pode se tornar sinônimo de ausência de parâmetros para a educação, deixando o professor sem norte e o aluno à mercê de suas próprias conjecturas". Por preguiça ou desconhecimento, essas abordagens radicais da teoria de Piaget são a negação de tudo o que trouxe a humanidade ao atual estágio de desenvolvimento tecnológico, científico e médico. Sua ampla aceitação no passado teria impedido a maioria das descobertas científicas, como a assepsia, a anestesia, as grandes cirurgias ou o voo do mais pesado que o ar. Sir Isaac Newton (1643-1727), que escreveu as equações das leis naturais, dizia que suas conquistas só haviam sido possíveis porque ele enxergava o mundo "do ombro dos gigantes" que o precederam. O conhecimento que nos trouxe até aqui é cumulativo, meritocrático, metódico, organizado em currículos que fornecem um mapa e um plano de voo para o jovem aprendiz. Jogar a responsabilidade de como aprender sobre os ombros do aprendiz não é estúpido. É cruel.

Em um país como o Brasil, onde as carências educacionais são agudas, em especial a má formação dos professores, a existência de um método rigoroso, de uma liturgia de ensino na sala de aula, é quase obrigatória. A origem latina da palavra professor deveria ser um guia para todo o processo de aprendizado. O professor é alguém que professa, proclama, atesta e transmite o conhecimento adquirido por ele em uma arte ou ciência. Nada mais longe da realidade brasileira, em que menos da metade dos professores é formada nas disciplinas que ensina. À luz das versões tropicais do construtivismo, essa deficiência é até uma vantagem, pois, afinal, cabe aos próprios alunos definir com base em sua realidade o que querem aprender. É claro que um modelo assim já seria difícil funcionar em uma sala de aula ideal, com um mestre iluminado cercado de poucos e brilhantes pupilos. Nas salas de aula da realidade brasileira, é impossível que essa abordagem leniente dê certo. Adverte o doutor em psicologia Fernando Capovilla, da Universidade de São Paulo (USP): "As aulas construtivistas frequentemente caem no vazio e privam o aluno de conteúdos relevantes".

Um conjunto de pesquisas internacionais chama atenção para o fato de que, em certas disciplinas do ensino básico, o construtivismo pode ser ainda mais danoso – especialmente na fase de alfabetização. Enquanto na pedagogia tradicional (a do bê-á-bá) as crianças são apresentadas às letras do alfabeto e aos seus sons, depois vão formando sílabas até chegar às palavras, os construtivistas suprimem os fonemas e já mostram ao aluno a palavra pronta, sempre associada a uma imagem (veja o quadro). A ideia é que, ao ser exposto repetidamente àquela grafia que se refere a um objeto conhecido, ele acabe por assimilá-la, como que por osmose. De acordo com a mais completa compilação de estudos já feita sobre o tema, consolidada pelo departamento de educação americano, os estudantes submetidos a esse método de alfabetização têm se saído pior do que os que são ensinados pelo sistema tradicional. Foi com base em tal constatação que a Inglaterra, a França e os Estados Unidos abandonaram de vez o construtivismo nessa etapa. O departamento de educação americano também o contraindicou para o ensino da matemática – isso depois de uma sucessão de maus indicadores na sala de aula.

O construtivismo ganhou força na pedagogia durante a década de 70, época em que textos de Piaget e de alguns de seus seguidores, como o psicólogo russo Lev Vygotsky (1896-1934), vários dos quais traduzidos para o inglês, foram descobertos nas universidades americanas. Foi a partir daí que a corrente se disseminou por escolas dos Estados Unidos e da Europa. No Brasil, virou moda. Uma década mais tarde, porém, tal corrente começaria a ser gradativamente abandonada nos países que a adotaram pioneiramente. Os responsáveis pelo sistema educacional daqueles países chegaram a uma mesma conclusão: a de que a adoção de uma filosofia que não se traduzia em um método claro de ensino deixava os professores perdidos, deteriorando o desempenho dos alunos. Hoje, são poucos os países ainda entusiastas do construtivismo. Entre eles estão todos os de pior desempenho nas avaliações internacionais de educação. Com seis de cada dez crianças brasileiras entregues a escolas que se dizem adeptas do construtivismo, é de exigir que diretores, professores, pais e autoridades de educação entendam como se atolaram nesse pântano e tenham um plano de como sair dele.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Tocar em adolescente não é tocar em criança, diz bispo

Autor(es): LARISSA GUIMARÃES - DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
Folha de S. Paulo - 06/05/2010

Para bispo de Blumenau (SC), porém, abuso sexual deve ser punido nos dois casos

Porta-voz de assembleia da CNBB diz que declaração de que "a sociedade é pedófila", feita por arcebispo, não traduz o pensamento da entidade



O bispo emérito de Blumenau (SC), d. Angélico Sândalo Bernardino, disse ontem que é preciso distinguir casos de abusos contra crianças de casos de abusos contra adolescentes.

O bispo opinou a respeito após ser questionado sobre a declaração de outro religioso -o arcebispo de Porto Alegre (RS), dom Dadeus Grings-, que disse anteontem que "a sociedade atual é pedófila".
A frase provocou polêmica no primeiro dia da 48ª Assembleia-Geral da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), realizada em Brasília.

"A sociedade não é pedófila", disse ontem dom Angélico, para completar mais adiante: "Acredito que o meu ilustre colega quis dizer que estamos vivendo num ambiente saturado de uma certa permissividade".

Dom Angélico, da ala progressista da Igreja Católica, quis frisar durante entrevista a jornalistas que há uma "confusão generalizada" entre pedofilia e efebofilia (atração sexual por adolescentes).

"Tocar numa criança é diferente de tocar num adolescente, o que eu não quero dizer que se deva tocar num adolescente. Absolutamente, mas é diferente. E essa distinção comumente não é feita", afirmou.

Questionado se há gravidade maior quando o abuso é praticado contra criança, dom Angélico respondeu: "Avaliem vocês no meu lugar, eu acho diferente. Deve também ser punido, e a lei pune. O próprio Estatuto [da Criança e do Adolescente] faz diferença: uma coisa é pedofilia, outra coisa é efebofilia".

Pelo estatuto, criança é a pessoa até 12 anos de idade incompletos, e adolescente, aquela de 12 a 18 anos. O texto criminaliza práticas como vender imagens com cena de sexo explícito envolvendo criança ou adolescente. Para a CPI da Pedofilia, tais crimes configuram pedofilia.

Dom Dadeus Grings havia falado sobre pedofilia anteontem e, na ocasião, disse que só 0,2% dos crimes foram cometidos por membros da igreja.

Após a polêmica em torno de sua declaração de que "a sociedade é pedófila", o porta-voz da assembleia, dom Orani Tempesta, afirmou ontem que a frase de Grings não traduzia o pensamento da CNBB.

A questão entra na pauta da CNBB no momento em que a Igreja Católica enfrenta acusações de ter acobertado casos de pedofilia no país e no mundo.

Num caso recente em Arapiraca (AL), um monsenhor acusado de pedofilia disse que "pecou contra a castidade" com pessoa do mesmo sexo, mas nunca com crianças ou adolescentes. Ele admitiu a prática de homossexualismo com um adulto, o que não é crime.

CNBB desautoriza arcebispo

Autor(es): Rodrigo Couto
Correio Braziliense - 06/05/2010



Porta-voz diz que posição de dom Dadeus Grings, afirmando que a sociedade é pedófila, não representa o pensamento da entidade


Bruno Peres/CB/D.A Press

Dom Angélico lamenta excesso de permissividade nos dias atuais



Um dia depois da polêmica declaração do arcebispo de Porto Alegre, dom Dadeus Grings, de que a sociedade atual é pedófila, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) apressou-se em ressaltar que esse não é o pensamento da entidade. Segundo o porta-voz da 48ª Assembleia Geral da CNBB, dom Orani João Tempesta, “os bispos podem emitir opinião sobre qualquer assunto, mas que essa não é uma posição oficial”.

Ao longo do dia, outros religiosos também manifestaram posicionamento contrário ao de Grings. Para dom Angélico Sândalo, bispo emérito de Blumenau (SC), a sociedade atual não é pedófila, mas há uma permissividade nos tempos de hoje. “Basta entrar em qualquer locadora para ver a quantidade de filmes pornográficos exposta. Não há um controle da sexualidade e da afetividade. Nesse mundo, que é bonito, é um tempo de grandes problemas”, argumentou.

Citando a Bíblia — “E qualquer que escandalizar um destes pequeninos que creem em mim, melhor lhe fora que lhe pusessem ao pescoço uma pedra, e que fosse lançado no mar” —, Sândalo afirmou que há uma grande diferença entre crianças e adolescentes abusados sexualmente. “As pessoas englobam como se fosse a mesma coisa. O que eu não quero dizer que se deva tocar num adolescente. Mas é diferente. O ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente), prevê, inclusive, sanções diferentes para quem praticar esses crimes contra crianças e adolescentes”, observou.

Na opinião de Angélico Sândalo, vai chegar um dia em que a Igreja Católica permitirá o casamento de padres do rito latino — modelo seguido pelos religiosos brasileiros. “Não vai demorar muito para isso acontecer. Acho que é saudável e só acrescenta. Outros ritos, como os orientais e os maronitas, já permitem o casamento de padres”, destacou.

Belo Monte
Outro tema abordado pelos participantes do encontro foi o leilão da usina de Belo Monte. Conhecido por seu trabalho ao lado da irmã norte-americana Dorothy Stang, assassinada em fevereiro de 2005, o presidente do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) e bispo prelado do Xingu (PA), dom Erwin Krautler, acredita no cancelamento do leilão. “O assunto não está encerrado. Foi uma soma de absurdos e a batalha judicial está apenas começando”.

Ao lembrar os dois encontros que teve com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre Belo Monte, dom Erwin lamentou a posição do governo em dar prosseguimento à venda da usina. “Ele (Lula) garantiu que não haveria atropelos, tendo em vista que é um projeto que vai afetar diretamente as populações indígenas.”

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Arcebispo afirma: 'A sociedade atual é pedófila'

Autor(es): Agencia O Globo/Demétrio Weber
O Globo - 05/05/2010



Para dom Dadeus Grings, denúncias de abusos são mais frequentes entre médicos e professores do que entre padres


BRASÍLIA. No primeiro dia da 48ª Assembleia Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), o arcebispo de Porto Alegre, dom Dadeus Grings, instaurou uma grande polêmica ao falar sobre as denúncias de pedofilia contra padres.

Presidente da comissão responsável pelo tema principal da reunião — a missão da Igreja no mundo —, Dom Dadeus disse que “a sociedade é pedófila”. Para ele, o abuso sexual de crianças e adolescentes é mais frequente entre médicos, professores e empresários do que entre sacerdotes.

— A sociedade atual é pedófila, esse é o problema. Então, facilmente as pessoas caem nisso. E o fato de denunciar isso é um bom sinal — disse.

Dom Dadeus, de 73 anos, criticou a liberalização da sexualidade por “gerar desvios de comportamento”, entre os quais a pedofilia. Para ele, assim como homossexuais conquistaram mais espaço e direitos, o mesmo poderá ocorrer com pedófilos.

— Quando a sexualidade é banalizada, é claro que isso vai atingir todos os casos. O homossexualismo é um caso. Antigamente não se falava em homossexual.

E era discriminado.

Quando começa a (dizer) que eles têm direitos, direitos de se manifestar publicamente, daqui a pouco vão achar os direitos dos pedófilos — disse.

O arcebispo foi escalado pela CNBB para conceder a primeira entrevista coletiva da conferência, com outros três bispos.

Dom Dadeus deixou claro que o abuso sexual de crianças e adolescentes é crime e deve ser punido.

Mas admitiu que a Igreja tem dificuldade de cortar a própria carne, ao lidar com denúncias contra religiosos. Segundo ele, punições internas são adotadas, mas denunciar os casos à polícia é mais complicado: — A Igreja ir lá acusar seus próprios filhos seria um pouco estranho.

Dom Dadeus disse que, na Alemanha, apenas 0,2% dos abusos sexuais contra crianças foram praticados por sacerdotes.

Ele crê que os casos de pedofilia viraram um calcanhar de Aquiles e estão servindo para quem quer atacar a Igreja e valores como a castidade: — Há uma anomalia na sociedade humana e que deve ser corrigida. Agora, não é justo dizer que só a Igreja que tem. Não é exclusividade da Igreja. A Igreja é 0,2%.

Conhecido por suas posições conservadoras, o arcebispo afirmou que a homossexualidade é inata apenas em pequena parte dos gays. Na outra parte, segundo ele, a opção sexual é resultado da educação recebida: — Nós sabemos que o adolescente é espontaneamente homossexual.

Menino brinca com menino, menina brinca com menina.

Só depois, se não houve uma boa orientação, isso se fixa.

Então, a questão é: como vamos educar nossas crianças para o uso da sexualidade que seja humano e condizente? Indagado sobre a afirmação de dom Dadeus de que a sociedade é pedófila, o arcebispo do Rio, dom Orani Tempesta, portavoz da 48aAssembleia, reagiu: — É uma afirmação complicada, tem que ter dados para verificar isso.

Para dom Orani e o bispo de Araçuaí (MG), dom Severino Clasen, os abusos envolvendo padres são parte de problema que atinge diversos segmentos.

— Isso nos frustra e machuca muito — afirmou dom Severino.

— O que nos envergonha é também o que nos leva a ter esperança de novos tempos.

Em carta enviada à CNBB, o presidente Lula pediu orações aos bispos para que o brasileiro tenha “a luz e a sabedoria” para escolher seu sucessor. Lula mencionou o seu alto índice de popularidade e disse que reflete o fato de que o povo cada vez mais participa de um “banquete antes restrito a minorias”. Lula citou a “grave crise política e ética” em Brasília, referindo-se ao escândalo do mensalão do DEM.