segunda-feira, 4 de junho de 2012

O intelectual esta morto: Viva o internectual!

Autor(es): Paulo Coelho
Época - 04/06/2012

As notícias do chamado “mundo literário” parecem retiradas do livro das lamentações de Jó: não há mais espaço nos grandes veículos de mídia para discussões sérias, a lista dos mais vendidos só publica coisas para a garotada, os brasileiros não são lidos no exterior porque ninguém se interessa em traduzi-los. O Ministério da Cultura gastou uma fortuna na Europalia, um dos mais importantes eventos culturais do Velho Continente, sem conseguir absolutamente nenhum resultado além de dilapidar seu orçamento. Eventos como a Flip chamam atenção provisória, mas os autores que ali se apresentam, depois que tudo é dito e discutido, não ganham outra projeção além da que já tinham junto aos seus pares.

Mas quem são esses pares?

Para detectar intelectuais, pergunte o que é um “efeito virai”. Dirão que se trata de uma epidemia (possivelmente de dengue). Vá mais adiante e procure saber o que é uma “campusparty”. Respondem que são festas organizadas em campi de universidades americanas na formatura de alunos. Finalmente, para tirar qualquer dúvida, peça que digam o que pensam dos livros eletrônicos. A resposta inevitável será: “gosto do cheiro do papel”, como se odor interferisse na leitura ou nas ideias expostas no texto.

Não vou sequer sugerir que procurem saber com eles o que é “nerd”, pois serão olhados de alto a baixo com desprezo, e retirados à força do recinto onde estão discutindo a morte da leitura, a atualidade de Gilles Deleuze ou as teorias de Ludwig Wittgenstein. Para eles, suas perguntas são irrelevantes.

Pois bem, vamos esclarecer os termos citados acima usando um exemplo. O efeito virai (comentários na internet sobre determinada obra, que se propaga independentemente da crítica especializada) fez com que Eduardo Sphor colocasse seu livro A batalha do Apocalipse em todas as listas dos mais vendidos, com a ajuda de uma gigantesca e espontânea máquina de divulgação surgida nas “campus parties” (megaeventos de blogueiros que acampam durante alguns dias em diversas partes do planeta para discutir ideias). Os “nerds”, termo até então depreciativo, cuja tradução mais próxima seria nosso famoso CDF, organizam os encontros, criam vasos comunicantes e ocupam de maneira avassaladora - sem pedir licença - o espaço então reservado para os pseudoeruditos, que sempre julgaram conhecer melhor o que o povo deve ou não deve ler (embora, em quase sua totalidade, se digam democratas).

Um fato isolado? Vamos a outro caso. No ano passado, uma livraria virtual na Austrália lançou Fifty shades ofgrey, que até janeiro de 2012 vendera 7 mil exemplares em livro eletrônico (o tal sem cheiro de papel). Em fevereiro, o número tinha saltado para 100 mil cópias (efeito viral), chamando a atenção das grandes editoras mundiais. No dia 21 de abril, depois que seus direitos foram comprados pela Random House, o número de exemplares vendidos em livro eletrônico estava em torno de 2,5 milhões. A imprensa só passou a se interessar pelo fenômeno agora...

Então, o que está acontecendo?

Pela primeira vez na história, temos acesso irrestrito a bens culturais. Com o advento da internet, todos puderam expressar o que pensam a respeito de qualquer tema - incluindo aí as obras literárias. Quando alguém deseja comprar um livro, não vai procurar os comentários da crítica especializada, mas daqueles que já leram. Isso pode determinar o sucesso global ou a morte súbita de um texto.

Sempre foi assim?

Claro, pois não há melhor propaganda que o boca a boca. Entretanto, por causa da velocidade da propagação virai (repito, não estou falando de gripe asiática), o autor desconhecido começa a ter a possibilidade de encontrar seu lugar ao sol de maneira rápida e efetiva, independentemente do apoio tradicional da mídia. (A revista ÉPOCA foi uma exceção, ao colocar antes de todo mundo o escritor Eduardo Sphor como uma das personalidades mais influentes de 2011.)

Mas o que é necessário para que isso aconteça? Em primeiro lugar, saber que a internet não é uma ameaça para a leitura - sobretudo porque ainda é um meio escrito e, para que se escreva, é preciso ler. Em seguida, entender que, da mesma maneira que o mercado está mudando, o estilo de escrever também se transforma.

Dirão os puristas: “Estão matando a qualidade”. Será que é isso mesmo? Voltemos um pouco ao passado para ver o que pensavam: “Seu nome é supervalorizado; logo será esquecido” (1814, Lord Byron falando de Shakespeare). “Flaubert não é um escritor” (1857, jornal Le Figaro, França). “Esse livro dura apenas uma temporada”(New York Herald Tribune comentando O grande Gatsby, de F.S. Fitzgerald).

Os três autores criticados acima - que hoje podem ser encontrados em qualquer livraria brasileira - romperam radicalmente com o estilo em vigor na época em que viviam. Escolheram contar uma boa história, em vez do exercício inútil da metalinguagem. Seus críticos pertenciam a respeitáveis jornais, e um deles, Byron, continua sendo uma referência da literatura mundial. Mesmo assim, o poder do leitor foi mais forte.

E eu com isso? Devo dizer: sou parte interessada.

Não tenho nada a reclamar. Embora a crítica nem sempre tenha sido gentil comigo, nunca me faltou espaço na imprensa. Celebrei, neste abril de 2012, o Jubileu de Prata da publicação do meu primeiro livro, O diário de um mago, apesar das previsões, muito comuns no final da década de 1980, de que eu era apenas um fenômeno de moda. Com o advento da internet, passei a escrever para blogs e comunidades sociais, ampliando assim o alcance daquilo que julgo importante dizer. Mas sou parte interessada quando vejo que toda uma nova geração de escritores brasileiros não está prestando a devida atenção a todas as possibilidades que tem diante de si. Ainda sofre daquilo que chamo de “síndrome de Van Gogh” (ser reconhecido apenas após a morte). Tentam agradar ao sistema falido da cultura construída com verbas de ministérios e cimentada com resenhas misteriosas e ilegíveis. Gastam uma imensa energia em busca de reconhecimento que já não está nas mãos daqueles que pensam detê-lo.

A esses, eu digo: os meios de produção e divulgação estão a seu alcance - e isso nunca aconteceu antes. Se ninguém presta atenção ao que estão fazendo, não se preocupem. Continuem adiante, porque cedo ou tarde (mais cedo que tarde) alguém entenderá o que dizem.

Aproveitem este momento único. E mãos à obra, porque qualquer sonho dá muito trabalho.

No ano de 2001, quando Jimmy Wales criou a Wikipédia (uma enciclopédia on-line, administrada por mais de 100 mil voluntários em diversas línguas e em diversos países), escutei de um editor: “Não tem credibilidade, e nada substituirá a Encyclopedia Britannica”. Em março deste ano, a vetusta enciclopédia anunciou que não mais publicará edições impressas - depois de quase 250 anos reluzindo nas estantes de nossos pais, avós, e antepassados distantes (aqui, volto a pensar nos viciados em “cheiro de papel”, coisa que devo confessar jamais ter sentido).

O intelectual está morto. Longa vida ao internectual.

Paulo Coelho é o escritor brasileiro mais publicado no mundo. Seus 19 títulos já venderam mais de 100 milhões de exemplares, são vendidos em 150 países e foram traduzidos em 66 idiomas

Não falta dinheiro, falta compromisso

Autor(es): Jair Ribeiro e Ana Maria Diniz
Época - 04/06/2012

A qualidade da educação pública no ensino fundamental e médio é de longe o maior desafio que o Brasil enfrenta. Somos um país em que cerca de 50% das crianças da 5ª série em todos os Estados são semianalfabetas. Dos 3,5 milhões de alunos que ingressam no ensino médio, apenas 1,8 milhão se formam. Desses, só 10% atingem o nível esperado de aprendizado. O Brasil apresenta um dos cinco piores resultados entre os 56 países avaliados pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico. Isso significa que, todo ano, jogamos milhões e milhões de adolescentes despreparados no mercado de trabalho, sem nenhuma perspectiva de ascensão social e econômica. O apagão de mão de obra já é uma realidade hoje. Será muito pior no futuro.

Há mais de oito anos coordenamos uma ONG que promove a parceria entre escolas públicas e empresários - a Parceiros da Educação. Já desenvolvemos, ao longo desse período, mais de 100 parcerias com escolas, procurando sempre melhorar a qualidade de ensino delas. Além do impacto nas escolas parceiras, o contato direto com a realidade do ensino público nos trouxe uma visão bastante clara dos enormes desafios do sistema e, com isso, a oportunidade de entender e influenciar políticas públicas que poderão, aí sim, ter impacto na vida de milhares de escolas e milhões de crianças.

Não é difícil concluir que o modelo de ensino brasileiro tem falhas. As estatísticas mostram isso. Precisamos de uma verdadeira revolução na educação pública. Os Estados Unidos a fizeram em 1870, há 140 anos. Em uma década, eles dobraram o investimento na educação pública e universalizaram o ensino. Em 1900, eliminaram o analfabetismo. Em 1910, todas as crianças tinham acesso à escola de período semi-integral. Outro exemplo é a Coreia. Na década de 1970, a Coreia iniciou uma verdadeira transformação na qualidade da educação pública e fez dela prioridade. O resultado se mostrou pelo salto do Produto Interno Bruto (PIB), indicador da geração de riquezas. O PIB, antes inferior ao do Brasil, passou para patamar semelhante ao de países de Primeiro Mundo em menos de duas gerações. O exemplo mais recente é a China. Muito se propagandeia sobre os investimentos em infraestrutura, mas pouco se divulga sobre o enorme esforço educacional chinês, do primário ao curso de doutorado. É fantástico o que estão fazendo na China em termos de educação.

A fórmula para melhorar a educação não tem mistério. Em educação, há muita pesquisa sobre o que funciona e o que não funciona. Primeiro, é preciso que a sociedade entenda que há deficiências e cobre do poder público. Uma das razões pelas quais o país apresenta um dos piores índices do mundo na qualidade do ensino público é que há certa satisfação da população com a educação pública em geral, na medida em que existem escolas disponíveis para todas as crianças. A população, em sua maioria (notadamente a menos favorecida e titular do maior número de votos), não reconhece a péssima qualidade de nossa educação.

O primeiro passo, portanto, consiste em dar ampla divulgação à real situação da qualidade da educação básica no país, alertando a população para as mudanças de base necessárias à correção do problema.

O segundo passo é que cada Estado e prefeitura definam uma nova visão para sua Secretaria da Educação. Mas que seja uma visão arrojada, ambiciosa, que inspire seus stakeholders a sair do gerúndio e a efetivamente buscar um salto qualitativo na realidade de nossas escolas.

Firmada a visão, há que desenvolver e detalhar um plano de curto, médio e longo prazos para atingir a meta. Esse plano, para dar certo, precisa contar com o envolvimento e paternidade de seus futuros executores. Um plano que não se prenda à estrutura atual; que seja transformacional, porém embasado em pesquisas e experiências já testadas, no Brasil e no exterior. E que seja um plano de Estado, e não de um governo. Educação não se resolve em poucos anos - requer continuidade.

A dificuldade de enfrentar as resistências naturais e institucionais à mudança e a incapacidade de execução são, sem dúvida, os maiores obstáculos ao sucesso de um plano que transforme a educação.

Em 2010, na esteira das eleições para governador e presidente, várias entidades ligadas à educação convidaram, na Casa do Saber, 12 especialistas em educação pública para responder à seguinte questão: caso fosse eleito presidente da República ou governador do Estado, quais as cinco grandes iniciativas o senhor tomaria para efetivamente resolver o problema da qualidade do ensino público básico?

O objetivo do encontro não era buscar meras sugestões para integrar um programa de governo para o próximo mandato, mas propostas ambiciosas e transformadoras, sem as ditas “restrições político-partidárias, orçamentárias ou corpora-tivistas”, para que a nação, em dez anos, eliminasse o enorme fosso existente entre a qualidade da educação básica no Brasil e aquela dos países mais desenvolvidos. As conclusões desse trabalho podem se resumidas em três grandes temas:

1) Desenvolver um novo modelo de escola - precisamos revisar a abordagem pedagógica, o conteúdo do currículo e a carga horária. Pesquisas recentes sugerem que a ampliação do número de horas dos alunos em sala de aula proporciona enorme impacto no aproveitamento escolar. Esse novo formato, de regime integral, deveria incluir carga horária de aproximadamente oito horas, infraestrutura como laboratório de informática, ciências, sala de leitura e currículo com maior foco em português e matemática, além da inclusão de matérias optativas no ensino médio.

2) Melhorar as ações pedagógicas - podemos gastar fortunas em infraestrutura sem obter qualquer mudança no aproveitamento dos alunos. O maior impacto vem do aperfeiçoamento da maneira de ensinar. São exemplos de ações a perseguir nessa frente:
criação e unificação do currículo base nacional - partindo do que já existe, coordenar a elaboração de padrões curriculares básicos, explicitando com clareza as habilidades e competências esperadas por cada série/ano, que possam servir de referência obrigatória tanto para os currículos a ser construídos pelos Estados e municípios como para as avaliações nacionais;
elaboração de material pedagógico produzido com as novas tecnologias educacionais usadas no ensino à distância e estruturado de acordo com as diretrizes curriculares dos diferentes anos/séries. Esses materiais podem ser usados presencialmente nas salas de aula, como é feito na Coreia;
fortalecimento da cultura de avaliação e acompanhamento do desempenho dos alunos;
campanha de alfabetização por meio de programas bem estruturados;
instituir avaliações diagnosticas para todos os alunos em todas as séries, quatro vezes por ano, com o objetivo de personalizar as intervenções pedagógicas de cada sala de aula;
criação de equipes de acompanhamento da gestão pedagógica.

3) Investir nos professores - a qualificação desses profi-sisonais é o fator que mais influencia no aprendizado dos alunos. Por isso, é preciso atualizar os cursos de pedagogia para que os professores, mais que dominar o conteúdo, estejam habilitados a conduzir atividades em sala de aula. Em paralelo, há que promover a contínua capacitação dos atuais professores, gestores e pessoal de apoio em geral, voltada para a realidade da sala de aula, do laboratório, da gestão da escola, da biblioteca, do ambiente escolar. Devem ser oferecidos aos professores materiais estruturados, com práticas de gestão em sala de aula e conteúdo nos moldes dos bons sistemas de ensino.

A carreira precisa ser meritocrática. Mas o magistério público atualmente é uma das carreiras menos atraentes: o salário inicial é baixo, faltam perspectivas, há problemas de infraestrutura nas escolas e a profissão está desvalorizada socialmente. Pesquisas sugerem que os melhores professores abandonam a carreira nos primeiros cinco anos de trabalho. Para mudar esse quadro, a seleção deveria ser mais rígida e as contratações feitas pela Consolidação das Leis Trabalhistas, não por concursos públicos, que garantem estabilidade. O salário inicial tem de ser mais atraente. Parte dele poderia ser baseada em avaliações do desempenho, medidas pelo aproveitamento dos alunos. As promoções seriam igualmente respaldadas por essas avaliações. Além disso, o professor se dedicaria em período integral a uma única escola. Com isso, ele teria mais tempo para preparar as aulas e dar apoio aos estudantes no contraturno.

Há também um impacto enorme da competência e comprometimento do diretor com o resultado da escola. Vemos isso todos os dias nas escolas da Parceiros da Educação (o fator determinante para a escolha de uma instituição parceira é o comprometimento do diretor). Logo, uma sociedade que efetivamente priorize a educação tem de desenvolver uma carreira para esses cargos que atraia e retenha os melhores talentos. Foi o caso de Coreia e Finlândia.

Por fim, é fundamental recuperar a imagem da profissão. Países como Cingapura e Inglaterra fizeram (e fazem continuamente) grandes esforços de marketing e relações públicas para projetar a profissão na sociedade. A Inglaterra conseguiu, em cinco anos, a partir de reformas estruturais e divulgação maciça, levar a profissão de professor da 90a entre as mais desejadas pelos estudantes para o quinto lugar.

Podemos e temos de sonhar em transformar nosso sistema de ensino num dos melhores do mundo. Dinheiro não falta. Faltam sim vontade política e competência. Precisamos colocar a educação como prioridade absoluta de Estado.

Jair Ribeiro e Ana Maria Diniz são empresários e coordenadores da Associação Parceiros da Educação, organização não governamental que promove a adoção de escolas públicas por empresários

Educação paraum mundo sem fronteiras

Autor(es): Inês Kisil Miskalo
Correio Braziliense - 04/06/2012

A falta de qualidade da educação brasileira não é de hoje. Já na Primeira República, o educador paulista Orestes Guimarães liderava o movimento de cunho nacionalista chamado "Entusiasmo pela educação", e convocava a atenção da sociedade para o impacto socio-econômico e político do investimento na educação popular. No início do século 20, 80% dos brasileiros eram analfabetos e 46% da população entre sete e 14 anos se encontravam fora da escola. Segundo estatísticas da época, o Brasil estava em penúltimo lugar em índice de alfabetização entre as nações "civilizadas".

Quase um século depois, temos ainda 9,7% de analfabetos na população entre 15 e 64 anos de idade e 3% de crianças de sete a 14 anos fora da escola. Mais: somente 56,1% dos estudantes que concluem o 3º ano do ensino fundamental aprenderam o que era esperado em leitura; e 42,8%, em matemática. E continuamos a ocupar os últimos lugares nos rankings mundiais de educação, como o Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa).

É um contrassenso que o Brasil, considerado a 6ª economia do mundo, esteja na lanterna nos rankings internacionais de educação. Os últimos resultados do Pisa confirmam essa discrepância entre o poder econômico de um país e o nível educacional de seus cidadãos. A avaliação da Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) mostra que o PIB per capita tem influência para o sucesso educativo, mas só explica 6% das diferenças de desempenho médio dos estudantes. Os outros 94% refletem o modo como os recursos fazem a diferença.

As análises da OCDE sugerem que a relação entre investimento na educação e desempenho não tem mais impacto a partir de um patamar de US$ 35 mil de gasto cumulativo por aluno em sua educação dos seis aos 15 anos. Por exemplo: países que gastam mais de US$ 100 mil com seus estudantes, como Suíça e Estados Unidos, apresentaram níveis semelhantes de desempenho em comparação aos que gastam menos da metade desse valor por aluno, como a Hungria e a Polônia.

O Brasil destina a cada aluno US$ 18 mil em média, durante os nove anos de estudo do ensino fundamental. Comparando investimento dos países e o desempenho de leitura média no Pisa, estamos acima apenas do Kirguistão, um dos países mais pobres da Ásia Central, com 5 milhões de habitantes e às voltas com guerras étnicas. Portanto, o nível de investimento com educação básica no Brasil, além de estar num patamar baixo, é ineficaz porque não implica bons resultados e indica claramente que não estamos empregando bem os investimentos em educação.

Cabe, então, uma pergunta: como fazer para que a qualidade realmente chegue a todas as escolas do país? Coreia, Finlândia e Xangai sobressaem nas avaliações internacionais de matemática e linguagem e servem como exemplos de sucesso para quem busca melhorar o desempenho educacional. Como ponto de partida, esses países acreditam que todos os alunos são capazes de aprender e lhes dão essa oportunidade, com uma abordagem individualizada na aprendizagem, foco na aquisição de habilidades complexas do pensamento desde o início da educação infantil e alinhamento com as novas tecnologias.

Outra prática importante nesses países é o foco em gestão educacional, delegando aos próprios gestores o controle sobre recursos humanos, materiais e finanças. Esse modelo requer a contrapartida governamental no compromisso com a formação inicial e contínua dos educadores, além de planos de carreira que atraiam os profissionais mais qualificados.

Os exemplos estão postos e é preciso agir com urgência para superar esse histórico de perdas na área educacional. Não se trata mais da simples vontade de “querer mudar“, mas sim de uma indeclinável “exigência de mudanças” de uma sociedade em constante transformação, que nos conecta, em tempo real, em interações físicas e digitais a um mundo sem fronteiras. Não há mais tempo para retórica sobre a abertura da escola para um incrível mundo novo.

sábado, 2 de junho de 2012

A democracia da decoreba

Autor(es): Claudio de Moura Castro
Veja - 28/05/2012

As leis da natureza podem ser cruéis. O preço do sucesso aqui pode ser o fracasso ali. Em meados dos anos 70, peritos da Fundação Ford ajudaram a reformular o vestibular do Quênia. Tornaram as provas mais inteligentes e criativas, buscando testar aquilo que realmente correspondia a uma boa educação. Obviamente, reforçaram perguntas de raciocínio e reduziram o número daquelas que apenas testavam a memória ou refletiam aspectos culturais. É isso que cabe fazer, pois estudamos para a prova. Se a prova é boa, estudamos coisas boas. Mas eles esperavam também que as provas ficassem mais justas, dando melhores oportunidades àqueles de origem mais modesta. Surpresa! Comparadas com as anteriores, as novas provas distanciavam ainda mais os ricos dos pobres. Pouco tempo depois, orientei a tese de mestrado de uma moça que havia estudado com Piaget. Ela estava indignada com a injustiça trazida pelos testes de inteligência aplicados pela Secretaria de Educação, pois exigiam conhecimentos factuais e normas culturais, não apenas raciocínio e capacidade mental. Em contraste, os protocolos inspirados nas teorias de Piaget eram livres desses ruídos. Tomou então uma amostra de alunos e aplicou os dois procedimentos. Outra surpresa! Comparados ao tradicional da secretaria, os protocolos de Piaget refletiam ainda mais a origem social dos alunos.

Nessa época, eu dirigia um projeto internacional de pesquisas (Programa Eciel) que incluía sete países latino-americanos. Tratávamos de aplicar testes de rendimento escolar (antepassados do Programa Internacional de Avaliação de Alunos — Pisa) e descobrir que fatores se associavam a bons resultados. Além das análises convencionais, decidimos separar as perguntas de memória daquelas que demandavam manifestações mais elaboradas de raciocínio. Tabulando, veio o mesmo resultado: os pobres obtinham escores relativamente próximos dos alcançados pelos ricos nas perguntas de memória, mas a distância aumentava com relação àquelas que mediam aplicação, raciocínio e análise. 0 Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) não privilegia a memória. Portanto, se substituir um vestibular muito tradicional, dará uma vantagem extra aos alunos que frequentaram as melhores escolas. No panorama brasileiro, são predominantemente alunos de origem social mais elevada A ideia de que seria uma prova que promoveria a igualdade social não passa de uma quimera. Eis o dilema. Se queremos uma educação melhor para o país, temos de sinalizar nos testes a direção do esforço esperado. Se a prova pedir raciocínio e análise, os alunos vão se esforçar para dominar essas competências. Se pedir para decorar, é isso que vão fazer. Portanto, o futuro da educação não pode abrir mão de provas que focalizem tais conhecimentos mais nobres —e não a memorização.

É verdade, para decorar fórmulas, reis da França, tabelas periódicas ou guerras púnicas, pobres e ricos estão em condições parecidas. Basta tempo para estudar e teimosia para guardar isso tudo na cabeça. Já as competências de ordem superior são muito mais difíceis de ser ensinadas. Portanto, sofrem muito mais as escolas piores, frequentadas pelos mais pobres. Em contraste, nas escolas dos alunos de família mais próspera esses assuntos são privilegiados. Por isso, eles terão maior chance de obter bons resultados. É a natureza malvada validando a chamada Lei de Mateus: "A quem tem, mais lhe será dado”. E agora? Se voltassem os vestibulares de decoreba. os pobres estariam mais bem servidos. Mas isso seria uma forma perversa de aproximá-los dos ricos, puxando para baixo o ensino de todos, já que as avaliações guiam o ensino. Não melhoraremos nossa lastimável educação sem provas que empurrem na direção certa. O que fazer: aproximar pobres e ricos ou promover conhecimentos de ordem superior? Não há como titubear. Nos testes, a prioridade tem de estar naqueles que empurrem para cima o ensino. Para atender aos imperativos de justiça social, o caminho é outro: melhorar a qualidade da educação pública nos níveis iniciais. Somente assim se pode reduzir a distância entre classes sociais, ou seja, puxando os pobres para cima. Aliás, para justificar essa política de qualidade, não seria necessário falar de vestibular.

Faculdade de Direito recomenda cotas na USP

Autor(es): PAULO SALDAÑA, ROLDÃO ARRUDA
O Estado de S. Paulo - 01/06/2012

Reunião da Congregação da unidade mais tradicional da universidade aprova que a adoção da política seja discutida no Conselho Universitário

A Faculdade de Direito do Largo São Francisco, a unidade mais tradicional da Universidade de São Paulo (USP), aprovou ontem, por "aclamação" (unanimidade), recomendação para que a USP adote cotas raciais. A declaração, que deve seguir para o Conselho Universitário, pode ser o primeiro passo para que a instituição comece a discutir esse tipo de ação afirmativa.

A recomendação foi votada na Congregação da faculdade, que reúne professores e alunos. A reunião teve a participação de representantes do movimento negro, que defenderam as cotas.

"Esse é um passo muito importante porque reconhece que o debate sobre cotas está amadurecido e que os programas da USP não alteram a desigualdade entre brancos e negros", afirma Clyton Borges, do movimento Uneafro Brasil. A Uneafro faz parte da Frente Pró-Cotas, que reúne 70 organizações do movimento negro e fomentou a discussão,

A USP não adota sistema de cotas ou mesmo bonificação para negros no vestibular. A universidade mantém apenas um programa de inclusão para estudantes da rede pública e o considera satisfatório. Mesmo após o Supremo Tribunal Federal (STF) decidir pela legalidade das cotas, fortalecendo o debate do tema, a USP não cogitou discutir o tema.

Para o professor de Direito Marcus Orione, é simbólico que a primeira declaração oficial pelas cotas na USP tenha saído do Largo São Francisco. "A decisão nos faz resgatar a história da faculdade em defesa da democracia. Temos uma unidade onde não há negros."

A Faculdade de Direito foi fundada em 1827 e hoje é uma das maiores unidades da USP, com 2,5 mil alunos. Calcula-se que apenas 2% são negros. O estudante Danilo Cruz, de 22 anos, é um deles. "Isso é importante para que outras unidades tomem posição parecida e o tema ganhe força na USP", diz ele, do 3.º ano.

Em 2007, após ocupação da faculdade por movimentos sociais, houve um protocolo para que as cotas fossem discutidas na Congregação - como ontem. Na época, segundo professores, o então diretor (e hoje reitor) João Grandino Rodas não levou a discussão adiante. Quando eleito, Rodas prometera que as cotas seriam "discutidas" no conselho, mas o tema só foi falado de forma marginal em debate sobre o programa de inclusão. Segundo a reitoria, haverá ainda neste mês uma sessão temática do conselho para discutir as cotas.