quinta-feira, 8 de março de 2012

Educação: futuro em jogo


Autor(es): Mozart Neves Ramos
Correio Braziliense - 08/03/2012
 

Professor da UFPE, é conselheiro do Todos Pela Educação e membro do Conselho Nacional de Educação
Uma análise dos dados acumulados dos quatro primeiros relatórios de monitoramento das cinco metas do movimento Todos Pela Educação, o De Olho nas Metas, revela avanços importantes nas séries iniciais do ensino fundamental (EF), tanto no atendimento quanto na aprendizagem e conclusão escolar. Por seu lado, esses mesmos dados mostram uma nítida estagnação na aprendizagem escolar nas séries finais do EF e no ensino médio (EM), especialmente em matemática. De acordo com análise realizada pelo professor Tufi Machado Soares, da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), para a publicação deste ano, se a taxa de conclusão continuar no atual nível de crescimento, teremos apenas 65% de nossos jovens concluindo o EM na idade correta (até 19 anos) em 2021, muito abaixo da meta desejável de 90%.
É importante ressaltar que as metas do movimento são para 2022 e, se alcançadas, colocarão o Brasil no estágio em que se encontravam, em 2005, os países da União Europeia. Portanto, um crescimento discreto ou mesmo uma estagnação, em alguns casos, significa aqui retrocesso, pois o fosso que já nos separa dos países mais desenvolvidos continuará crescendo. Daí o caráter de urgência que precisa ser dado à educação.
Um ponto alarmante que deve ser destacado desse relatório é o percentual de aprendizagem escolar dos alunos da rede pública ao final do EM em matemática. Na média nacional, apenas 5,8% deles saem dessa etapa sabendo o que era esperado. Isso sem falar que muitos ficaram no meio do caminho, ou seja, não conseguiram sequer terminar a EB (como o nome aponta, o básico para a sua educação). Porém, mesmo entre esses que conseguiram concluir o básico, o percentual de aprendizagem adequada é absolutamente vergonhoso para o nosso país. Se esses resultados, como veremos a seguir, ocorressem em outros países, que entendem o verdadeiro papel de uma educação de qualidade para todos, seria caso de "parar" o país para repensar o que está acontecendo.
No Piauí, por exemplo, o percentual de alunos das escolas públicas com aprendizado adequado em matemática, ao final das séries iniciais do EF, é de 15,7%; quando concluem essa etapa, o percentual já cai para 6,4%, e, ao final do EM, vem o pior desempenho, o percentual é de apenas 1,3%. Ou seja, de cada 100 alunos que concluem o EM nesse estado, apenas um aprendeu o que seria esperado em matemática. A situação do Piauí se repete em outros estados. No Amapá, por exemplo, o percentual é de 1,8%; no Rio Grande do Norte, de 1,6%; em Mato Grosso, de 1,5%.
Mesmo no estado mais rico do país, São Paulo, o percentual é de apenas 7,5%. Em língua portuguesa, os percentuais são um pouco melhores, mas nada que nos permita comemorar, tendo a média nacional da rede pública sido de 23,3% para o 3º ano do EM. Mesmo quando contemplamos também os alunos das escolas particulares, os dados não são animadores, atingindo percentual de apenas 11% em matemática e 28,9% em língua portuguesa no 3º ano do EM.
Esse é o verdadeiro drama juvenil. Não querer enxergar esse drama é negar a própria capacidade do Estado brasileiro de cuidar de seus jovens. Em vez de uma boa educação, é preferível cuidar (e mal) dos problemas que decorrem de sua ausência, como as drogas, o alcoolismo e as elevadas taxas de homicídio juvenil.
Os números mostram que é o momento para lançar a versão 2.0 do Plano de Desenvolvimento da Educação (PDE), que, na primeira fase, estabeleceu um indicador de qualidade para a EB, o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb). Esse índice trouxe a cultura de metas para as escolas, municípios, estados e União, e produziu avanços importantes nas séries iniciais do EF, mas ainda não vem produzindo o efeito esperado nas séries finais dessa etapa, e, muito menos, no EM, que vive uma grave crise.
Presidente Dilma, ministro Mercadante, é chegada a hora de convocar os governadores e tomar decisões estratégicas e compactuadas para o enfrentamento, trazendo no bojo o compromisso da sociedade, em especial dos pais e das famílias. Caso contrário teremos um país de economia próspera, mas incapaz de formar os nossos jovens para aproveitá-la. É o futuro que está em jogo.

terça-feira, 6 de março de 2012

Os labirintos do Enem

Claudio de Moura Castro
Veja - 05/03/2012

Todo ministro vive o mesmo dilema: fazer o seu grande projeto, rapidinho, mas com risco de tropeço sério, ou fazer com prudência, mais lentamente, arriscando-se a vê-lo abortado pelo seu sucessor? Apressar o Enem foi uma escolha, diante desses dois riscos. Mas a fragilidade da máquina publica acentuou o perigo de um passo maior do que as pernas, ou seja, um projeto que tenta atingir demasiados objetivos. De fato, apesar dos avanços, o Enem tem falhas técnicas (assunto cuja análise não caberia aqui), de logística e de concepção. Depois que o Enem se propôs a substituir os vestibulares, venceu a licitação um consórcio improvisado e que derrapou para o escândalo do roubo das provas. Só então foi aprovada a escolha, sem licitação, do grupo que incluía o Cesgranrio, a instituição mais experiente no ramo. As aplicações subsequentes tiveram falhas, ainda que bastante limitadas, considerando a magnitude do projeto. Mas os ásperos decibéis das críticas procedentes se mesclaram aos ruídos gerados pela politização do exame, de ambos os lados.


Lamentavelmente, as missões do novo Enem foram ignoradas por quase todos. Ou seja, a discussão erradamente se polarizou em torno do ensino superior, quando a intenção era aliviar o médio da maldição de ser modelado pelo dilúvio curricular dos vestibulares das universidades públicas. Essa é sua função nobre e a justificativa para sua existência. Nas boas universidades, os vestibulares não são mais provas de “decoreba”. De fato, selecionam praticamente os mesmos candidatos que o Enem. Alias, a hipótese de que o Enem seria uma prova socialmente mais justa não resiste a nenhuma análise seria. Então, por que substituir os vestibulares por um Enem gigantesco e caríssimo? E que as universidades são livres para criar seus vestibulares e optam por provas difíceis. Foram feitas para selecionar também os melhores dos melhores candidatos aos cursos mais cobiçados. O excesso de conteúdos envia uma mensagem equivocada para o ensino médio. A 1ógica é simples, embora errada: se cai na prova, e preciso ensinar no ensino médio. Preparando uma prova menos enciclopédica, o MEC poderia conter a corrida do ensino médio, forjado a uma maratona curricular. Cobrindo poucos tópicos, permitiria a ênfase na profundidade.

É por esse critério que o Enem deveria ser julgado. Infelizmente, a análise preliminar das provas sugere que não foi freada a enxurrada de assuntos. A meu ver, essa é a acusação mortal, o resto é detalhe. O Enem tem outras vantagens, como reduzir a correria daqueles que desejam tentar a sorte em varias instituições. Permite também o acesso a instituições em outras cidades. Mas tais aspectos são secundários. Uma decisão imprudente foi optar, prematuramente, por uma prova que permite comparações entre anos diferentes, pois exige que cada questão seja testada com alunos reais. Se houvesse um grande banco de perguntas, a prova seria feita com itens testados há mais tempo. Como o banco é pequeno, obriga a testar as perguntas com os mesmos alunos que vão fazer o Enem, uma opção de alto risco de vazamentos. De fato, isso aconteceu, inflamando a opinião pública. A epopeia de um exame único e gigantesco foi também o preço da decisão de testar perguntas, para obter comparabilidade de um ano para o outro. Sem isso, poderíamos ter várias aplicações, escalonadas no tempo.

Um erro estratégico do Inep foi não sugerir uma ponderação baixa para a redação. Soma-se o caráter subjetivo da correção à logística de lidar manualmente com milhões de provas e a pouca experiência das equipes. Isso gerou uma considerável margem de erro. Se tivesse um peso menor, quando nada, os enganos na sua correção trariam menos dores de cabeça jurídicas para o MEC. Outro equívoco foi trombetear um escore único, no momento em que se fala de diversificação do ensino médio. O correto seria, por exemplo, instruir os cursos de letras para valorizar os pontos em português e os de engenharia, os pontos em matemática. Noves fora? No meu julgamento: (1) as trapalhadas logísticas foram menos importantes do que sugerido pela imprensa; (2) os problemas técnicos com as provas são reais, mas não insolúveis; (3) ainda não foi demonstrada a sua maior contribuição, que seria reduzir distorções no ensino médio. Se falhar nisso, não vejo por que deva existir.







“No Brasil, me sinto fora da jaula”, diz Camille Paglia

Ensaísta participa de congresso sobre jornalismo cultural e diz que quer levar a música brasileira para a TV americana

Entrevista, Vida Urbana - Regiane Teixeira - 17/05/2011



Camille Paglia quer se dedicar a pesquisa sobre música brasileira

Época São Paulo – Você começou a estudar português há algum tempo. Já fala a nossa língua?
Camille Paglia – Sim, eu gostaria de estudar de um jeito mais sistemático e focado, mas nos últimos anos estou tentando aprender tudo que posso. Eu sei muito vocabulário de ouvir música brasileira, mas ainda tenho problemas em entender e falar. Vou bem na hora de ler revistas, jornais e artigos na internet. Um dos meus objetivos é nos próximos anos aprender português e conseguir conversar.

Do que você mais gosta no Brasil?
Essa é a minha sétima viagem ao Brasil. Gosto das pessoas, me sinto muito em casa. A minha família é ítalo-americana. Meus avós e minha mãe nasceram na Itália. Na América você tem de ter cuidado com o que fala. É muito menos expressivo, emocional e livre. Quando eu vou para o Brasil, posso ser eu mesma, gesticulando, falando alto. Principalmente, quando estou no Nordeste. Tenho sorte de dar aulas em universidades de artes porque os alunos estão acostumados a um certo nível de energia. No Brasil, me sinto fora da jaula. A segunda coisa que mais gosto é da comida! Amo feijoada, moqueca, queijo de Minas, as frutas lindas.

Algo a incomoda aqui?
Todo mundo adora te ver, adora o momento, mas depois é muito difícil manter contato com os brasileiros. Vocês são muito do momento, do presente. Eu também gosto de que todo mundo é físico e dá abraços. Nos EUA, você tem que ter muito cuidado. Não há esse tipo de contato físico caloroso. Na América, as pessoas estão sempre analisando tudo, sua relação com os seus pais, com seus amigos, com o mundo. Igual ao programa da Oprah. Isso não faz parte da cultura brasileira. O que, provavelmente, é bom! Quando vocês tem um problema, se fala sobre isso, mas se segue para outra coisa. O estilo americano é muito neurótico.

Como é sua relação hoje com a cantora Daniela Mercury?
Eu a verei na semana do evento em São Paulo. Isso tudo começou há exatamente três anos quando participei de uma conferência na Bahia sobre arte. A Daniela estava em turnê na Europa, mas pessoas que trabalham com ela me deram um DVD dela. Quando voltei para a Filadélfia fiquei absolutamente eletrificada. Pesquisei sobre ela na internet, no YouTube, escrevi sobre ela. Depois ela me escreveu e me convidou para visitar o Carnaval de Salvador. Foi aí que eu a conheci juntamente com o seu namorado, Marco Scabia, que agora é seu marido. Desde então somos amigas e nos encontramos sempre que ela vem aos EUA. Fui ao casamento da filha dela no ano passado. Há alguns projetos de livros sobre os quais estamos conversando. Devo escrever a introdução de um livro. Ela é um tesouro do Brasil, mas quando leio os jornais acho que não há um senso sobre isso, sobre a grande artista que ela é.

Antes desse momento, há três anos, eu estava muito entediada com a arte contemporânea, filmes, artes visuais. Estava desiludida com o estado da cultura contemporânea até conhecer Salvador. Nunca tinha ouvido falar de artistas como a Elis Regina e descobri toda essa música muito rica. Estou terminando um livro sobre artes e depois disso quero voltar toda minha atenção à música brasileira. É simplesmente errado as pessoas do mundo não estarem expostas à música brasileira. As pessoas não deveriam viajar até Salvador para descobrir isso.

Esse seu projeto seria sobre música brasileira contemporânea?
Não. Eu gostaria de mostrar todo o “corpo” da música brasileira. Nos EUA, todo mundo tem TV à cabo e há muitos canais de músicas que vem automaticamente em qualquer plano. Há country, música eletrônica, seis tipos de rock, blues, rap. E música brasileira você só vê de vez em quando no canal de jazz. Os ritmos brasileiros tem de ser representados e deveriam estar aqui em seis canais diferentes, um para cada estilo. Esta é minha ambição. Colocar a música brasileira nos canais a cabo americanos. Só não tive tempo ainda de fazer isso como uma campanha. Talvez precise da ajuda do consulado brasileiro. Quando as pessoas tiverem contato com isso será uma revolução na música.

Hoje, os jovens não sabem o que procurar na internet. Eu adoro seguir a Daniela no Google Alert. Ela é o único Google Alert que eu sigo. Quando o nome dela aparece na mídia eu sou informada por e-mail. Eu sei se ela teve um concerto ontem à noite num lugar escondido no Amazonas. E se alguém coloca um vídeo na internet, 12 horas depois eu já estou vendo.

Há algum artista brasileiro novo na música ou nas artes visuais que você tem acompanhado?
Não, um amigo me enviou CDs do Zeca Baleiro, Céu, Maria Rita e alguns outros. Eu gosto de acompanhar as divas da Bahia. Eu conheci a Margarete Menezes no trio da Daniela e a Ivete (Sangalo), que é a maior estrela pop de lá.

Não há como descrever como isso foi uma revolução para mim. Eu sempre me interessei por arte, filmes de Hollywood, rock. Depois de um momento achei que tudo tinha terminado e não veria mais nada criativo, mas quando cheguei a Salvador fiquei tão animada porque tem tanta coisa para aprender. Não sei o que está acontecendo em artes visuais aí agora. Mas quando estiver em São Paulo, irei aos museus e galerias.

Você sabe algo sobre o movimento gay no Brasil? O que pensa dele?
Eu soube da aprovação da união gay na semana passada. Eu adorei e fiquei surpresa. Esse é o caminho certo a seguir falando de união civil e não de casamento. Nos últimos 20 anos eu critiquei o ativismo gay nos EUA por causa da frase “casamento gay”. Aqui a religião é muito mais poderosa do que na Europa. O casamento gay gerou muitos problemas e o governo não deveria estar envolvido em casamentos, isso é um assunto de igrejas. O governo não deveria se envolver em nenhum tipo de casamento nem homossexual nem heterossexual. Mas a união civil é justa.

Na sua opinião, quais são hoje as diferenças sociais entre homens e mulheres?
As mulheres estão bem colocadas em políticas e negócios. Elas alcançaram o posto mais alto do governo de diversos países. O verdadeiro trabalho precisa ser feito no terceiro mundo, onde as mulheres ainda são tratadas como propriedade e são submetidas a violência doméstica. É muito complicado lidar com o mundo mulçumano. Há muitos conflitos e diferentes valores e princípios entre o Ocidente e o Oriente. O que está acontecendo na França com as mulheres mulçumanas, por exemplo, que foram proibidas de usar véus. É uma grande questão. Não sei o que irá acontecer.

Na semana passada o presidente americano Barack Obama afirmou que o mundo é um lugar mais seguro com a morte de Osama Bin Laden. Qual sua opinião sobre isso?
Estou feliz por eles terem pego o Bin Laden depois de dez anos, mas eu teria preferido que eles o tivessem capturado e o mandado a julgamento. Não sei como foi a situação na qual ele foi morto, mas o modo como ele foi enterrado, a coisa toda não faz sentido para mim. Todo o poder mítico dele teria sido diminuído se ele tivesse sido feito prisioneiro. Estou feliz por ele ter sido pego, mas não acho que muda nada. Não acho que ele estava controlando o movimento, há grupos pequenos pelo mundo todo. Não sei o que muda, só que agora temos que nos proteger de um ataque de vingança este ano, provavelmente próximo a data dos dez anos.

Como você vê o público nas conversas e palestras das quais você participa? Algumas opiniões ainda te surpreendem?
Claro, sempre. O Brasil não é só outro país, é outro universo. Estou tentando aprender tudo o que puder. Essa conferência é sobre jornalismo cultural e vendo o que acontece no Brasil acho que os jovens têm pouca informação histórica das coisas pela mídia. O jornalismo cultural poderia melhorar. Nos EUA, quando um jornal grande fala do lançamento do CD de um artista conhecido há informação histórica, com datas, um contexto para o novo álbum. Isso é muito útil para os jovens. Acredito na importância da história em todos os setores das nossas vidas.


segunda-feira, 5 de março de 2012

MEC vai criar força-tarefa para acelerar creches

Autor(es): agência o globo:Demétrio Weber

O Globo - 05/03/2012

Apenas 221 das 633 unidades que o ministério dá como prontas estão concluídas; PPS quer explicações de Mercadante


BRASÍLIA. O Ministério da Educação (MEC) anunciou ontem que criou uma força-tarefa para, em 60 dias, ajudar as prefeituras a acelerarem a construção de creches e pré-escolas financiadas pelo ProInfância em todo o país. Como O GLOBO mostrou no domingo, um balanço do próprio MEC mostra que só 221 unidades estão concluídas, do total de 633 que a pasta dá como prontas.


"O Ministério da Educação esclarece que o ministro Aloizio Mercadante já havia reconhecido publicamente que as prefeituras conveniadas encontravam dificuldades na execução do programa", diz nota da pasta. "É fato que o aquecimento do setor de construção civil e a morosidade dos processos licitatórios têm levado a um atraso na implantação das creches."


O PPS quer que Mercadante vá à Comissão de Educação da Câmara dos Deputados explicar por que o número de unidades prontas foi inflado. O deputado Stepan Nercessian (PPS-RJ), que integra a comissão, deverá pedir a convocação do ministro.


Em nota, o líder do PPS, deputado Rubens Bueno, acusou o governo de propaganda enganosa e de usar a máquina pública com fins políticos: "Está claro que essa foi mais uma manobra para beneficiar o ex-ministro da Educação Fernando Haddad, pré-candidato a prefeito de São Paulo. Trata-se de um estelionato, pois até uma creche inaugurada por ele e pela presidente Dilma, em janeiro deste ano, em Angra dos Reis, não está funcionando".


Como O GLOBO mostrou, o Centro Municipal de Educação Infantil Júlia Moreira da Silva, inaugurado em janeiro pela presidente Dilma Rousseff e por Haddad, em Angra, acabou servindo a outro propósito: recebeu alunos de uma escola municipal que está em obras. Assim, nenhuma criança de 0 a 5 anos pôde ser atendida até o momento.


O MEC admite não saber o número exato de creches em funcionamento, já que a gestão das unidades cabe aos municípios. Pelas contas do ministério, creches que ultrapassam a marca de 80% de execução das obras são dadas como prontas, mesmo que não estejam aptas a receber crianças. É que os repasses federais são feitos no início e durante a obra, com a última parcela paga quando o projeto atinge a marca de 80%.


A ideia da força-tarefa é fazer um levantamento das pendências do programa, que prevê a construção de 8,9 mil unidades até o fim de 2014 - das quais seis mil são promessa de campanha de Dilma. O déficit é de 19.766 unidades. O ministério pediu ao Inmetro alternativas de métodos construtivos para erguer as creches. Com investimento de R$ 7,6 bilhões, o ProInfância aprovou a construção de 4.035 creches de 8,9 mil programadas.






MEC SÓ ENTREGA UM TERÇO DAS CRECHES QUE DIVULGA

CONSTRUÇÃO DE CRECHES, PROJETO QUE ENGATINHA
Autor(es): Agência o globo:Sérgio Marques
O Globo - 04/03/2012

MEC anuncia entrega de 633 unidadesdo ProInfância, mas só 221 estão prontas Embora o Ministério da Educação (MEC) anuncie que já entregou 633 creches e pré-escolas desde o lançamento do ProInfância, programa que pretende construir 8,9 mil unidades até o fim de 2014, o número real é bem menor. O MEC diz não saber quantas creches efetivamente estão em funcionamento, já que a gestão, após o término das obras, cabe às prefeituras. Mas um balanço do próprio MEC revela que, até o mês passado, só 221 unidades estavam 100% prontas. Se forem consideradas outras 37 que apareciam com pelo menos 99% de execução - caso do estabelecimento de Angra dos Reis, inaugurado em janeiro pela presidente Dilma Rousseff e pelo então ministro Fernando Haddad -, o total sobe para 258. As 221 creches completamente prontas correspondem a 5% das 4.035 obras aprovadas pelo MEC desde 2007, quando o programa foi lançado. O número divulgado pelo ministério é maior porque inclui obras que superaram a marca de 80% de execução física, mesmo não finalizadas. O controle do MEC é feito com base na liberação da última parcela do cronograma de repasses. E a derradeira liberação de verbas ocorre quando a construção atinge os 80%. Em nota, o MEC diz não saber o número de unidades abertas, já que cabe às prefeituras tocar as creches. "A princípio, todas as 633 podem estar em funcionamento. Caso alguma não esteja, se deve a uma circunstância localizada", afirma. O MEC sustenta ainda que creches com menos de 100% de execução estão aptar a matricular alunos: "As escolas podem começar a atender crianças quando a empreiteira entrega a obra para a prefeitura. Isso não significa necessariamente que a supervisão da obra esteja em 100%. Muitas obras com percentual abaixo dos 100% estão concluídas e em funcionamento." Não é o que ocorre em Anápolis (GO), a 50 quilômetros de Goiânia, onde só uma creche financiada pelo ProInfância funciona. A unidade, construída no bairro Residencial das Flores, aparece com 80,12% de execução física, mas está longe de poder receber crianças. Na quarta-feira, quando o GLOBO foi ao local, cerca de 25 operários trabalhavam no prédio. Faltava assentar os pisos interno e externo, terminar a pintura e instalar a caixa d"água. Uma placa do governo federal na frente do terreno informava que o término estava previsto para 3 de novembro do ano passado, ao custo de R$ 1,19 milhão. O convênio foi assinado em 2009. O mestre de obras Nivaldo Paulo Cardoso disse que o prazo foi prorrogado para 27 de abril, embora ele pretenda encerrar o serviço no fim de março. - O que está pesando é a caixa d"água - afirmou Nivaldo. Mesmo que a conta do MEC estivesse correta, e as 633 unidades já funcionassem, o ritmo do programa continuaria lento, avalia a coordenadora-geral de Educação Infantil do ministério, Rita Coelho. - Seiscentas também é bem devagar - diz Rita. No Adriana Parque, outro bairro de Anápolis, a desempregada Priscilla Vieira já passou madrugadas na porta de uma creche, em busca de vaga para a filha. Nunca foi atendida. Aos 19 anos, diz não ter com quem deixar a menina. Resultado: não trabalha nem estuda. Priscilla é vizinha do terreno onde está sendo erguida uma creche e pré-escola do ProInfância. A exemplo do que ocorre em todo o país, porém, a obra está atrasada. Com apenas 46% de execução, ela não consta na lista de concluídas do MEC. O convênio também foi assinado em 2009. - Meu medo é que minha menina nem vá precisar mais de creche, quando esta ficar pronta - disse Priscilla na última quarta-feira, ao passar diante da construção, ao lado da filha Fernanda, de 4 anos. Passos de tartaruga não são novidade no ProInfância. As unidades são financiadas pelo MEC, mas a construção fica sob responsabilidade das prefeituras. Cada estabelecimento oferece creche e pré-escola. O Palácio do Planalto teme não cumprir a promessa de Dilma de abrir pelo menos seis mil novas unidades em seu mandato. O MEC estima que o atual déficit no Brasil é de 19.766 creches e pré-escolas. A educação infantil foi historicamente negligenciada no Brasil. Só depois da criação do Fundo de Desenvolvimento da Educação Básica (Fundeb), em 2007, é que essa etapa passou a receber maior atenção, ao ganhar uma fonte específica de financiamento para o atendimento em creches e pré-escolas. O ProInfância foi lançado neste mesmo ano, no maior programa já concebido pelo governo federal para suprir as carências do setor. A falta de vagas no Brasil é crônica. O censo do IBGE mostra que, em 2010, apenas 23,6% das crianças com idade até 3 anos frequentavam creches. Na pré-escola, eram 80%. O público não atendido na faixa de 0 a 5 anos era de 9,5 milhões de crianças. Em Formosa (GO), na divisa de Goiás com o Distrito Federal, o eletricista João Braz Rodrigues tenta uma vaga para o neto Eduardo, de 2 anos. A mãe do menino é sua filha e está desempregada. Sem ter com quem deixar a criança, ela não pode trabalhar. - Minha filha me pediu pelo amor de Deus. Ela quer trabalhar - disse o eletricista na última quinta-feira. Funcionário da prefeitura, ele foi à sede da Secretaria municipal de Educação de Formosa. Queria matricular o neto no Centro Municipal de Educação Infantil Maria Aparecida Hamu Opa, o único do ProInfância em funcionamento no município. Saiu sem a vaga. O ProInfância prevê investimento federal de R$ 7,6 bilhões até 2014. O MEC fornece o projeto arquitetônico, paga a construção, os móveis e eletrodomésticos. A prefeitura dá o terreno. Antes do PAC-2, o ProInfância era tocado por meio de convênios com prefeituras. De 2007 a 2011, foram assinados 2.528. Desde o ano passado, o MEC firma termos de compromisso. Já foram celebrados 1.507 termos, mas nenhuma unidade ficou pronta no primeiro ano do governo Dilma. Estão previstos mais 4.920. Se todos forem assinados e executados no prazo, assim como os convênios, o país terá 8.955 creches e pré-escolas até 2014 - 6.670 contratadas no governo Dilma.