sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Educação aquém das metas

Autor(es): Ruy Martins Altenfelder Silva
Correio Braziliense - 22/02/2012

Presidente do Conselho Diretor do CIEE Nacional e do Conselho de Administração do CIEE e presidente da Academia Paulista de Letras Jurídicas

O Plano Nacional de Educação 2011-2020 já começa com atraso. Enviado pela Presidência da República ao Congresso em dezembro de 2010, teve a apresentação do parecer da comissão especial da Câmara dos Deputados prorrogada no último dia 15 — dentro de um rito que prevê, ainda, votação em plenário, apreciação pelo Senado e sanção presidencial. Outro aspecto merece reflexão nesse processo de aprovação: a baixa repercussão na sociedade de um plano que afetará, para o bem ou para o mal, pelo menos as duas próximas gerações e constitui um dos gargalos mal resolvidos do país.

O CIEE, que há quase meio século cuida da inclusão profissional de jovens — e, portanto, atua na delicada intersecção entre os mundos do saber e do fazer —, vem detectando a constante queda de qualidade do ensino nas últimas décadas e sua influência negativa na empregabilidade jovem, que hoje bate na casa dos 12,6% na faixa etária de 20 e 24 anos e dos 22,9% no segmento 15 a 17 anos, segundo o IBGE, em contraponto aos cerca de 6% registrado entre a população economicamente ativa. E não é por falta de vagas, pois há milhares delas não preenchidas por falta de candidatos adequados.

Olhando o país como um todo, merecem elogio a universalização do acesso ao ensino fundamental e sua extensão para nove anos; o recente (embora ainda insuficiente) estímulo ao ensino técnico; a vinculação de benefícios assistenciais à frequência escolar dos filhos; o ProUni; e outras iniciativas que asseguram avanço na quantidade das matrículas nos três níveis da educação formal. A questão que se coloca, neste momento, é como as 20 metas do novo PNE poderão contribuir efetivamente para atenuar o sombrio cenário da educação embora até aqui as análises precisem se restringir ao campo das intenções, pois ainda não foram testadas na prática (lembrando que, nesta, a teoria pode ser outra).

Entre as metas, sete visam à valorização do professor, com iniciativas que vão desde a ampliação para 75% do número de mestres e doutores no corpo docente das instituições de ensino superior até a adoção de critérios técnicos para a nomeação de diretores de escolas — hoje feita por indicação política, planos de carreira, etc. Detalhe: o rendimento médio do profissional da educação não poderá ser inferior ao dos demais trabalhadores com escolaridade semelhante.

Com a questão praticamente resolvida no ciclo fundamental, o PNE fixa metas para o acesso à educação infantil e aos ensinos médio e superior — ponto em que o otimismo sofre uma queda, considerando o balanço de resultados do PNE atual. Por exemplo, aponta que 50% das crianças de até três anos devem ter acesso a creches. Entretanto, esse mesmo patamar já constava do atual PNE, mas o percentual concretizado não atinge 20%. O mesmo documento previa a erradicação do analfabetismo entre os brasileiros com mais de 15 anos até o final de 2010 — mas vergonhosa taxa ainda está em 9,7%. Isso sem falar do analfabetismo funcional e da incapacidade de os alunos da 3ª série do fundamental de resolver continhas de somar ou de interpretar um texto simples, por deficiência de leitura.

Também é ausência notável no novo PNE uma menção à necessária reestruturação do ensino médio regular, apontado por respeitados especialistas como ciclo de estudo sem foco preciso, sendo quase um curso preparatório para o vestibular, com excesso de matérias no currículo, em muitas das quais o aluno não vê utilidade para sua formação, entre outros aspectos que contribuem para inchar as taxas de evasão. Ponto positivo, entretanto, para a expansão do ensino médio técnico, com a duplicação do número de vagas, o que vem atender em parte à explosão da procura por parte de jovens que concluem o fundamental e já estão de olho nas oportunidades do mercado de trabalho.

Com sua permanente preocupação com o futuro dos jovens, o CIEE só tem a aplaudir a estratégia 3.6 da Meta 3 do PNE, dedicada ao ensino médio. Ela consagra expressamente o estímulo à expansão do estágio para estudantes do ensino médio profissionalizante e regular, preservando seu caráter pedagógico e alinhando-o à grade curricular da série em curso, "visando ao aprendizado de competências próprias da atividade profissional, à contextualização curricular e ao desenvolvimento do estudante para a vida cidadã e do trabalho". Exatamente o que ocorre com os programas que administra em total sintonia com a Lei do Estágio (11.788/2008).






quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

O FUTEBOL DE PONTA GROSSA


A cidade de Ponta Grossa, sempre teve o reconhecimento da imprensa estadual no que se refere à prática do futebol. No ano de 1923, o Operário Ferroviário teve seu primeiro vice-campeonato paranaense, registrando assim o primeiro grande feito de um time ponta-grossense no certamente estadual.

O ápice dos times princesinos deu-se entre fins da década de 20 e 30. Entre 1928 e 1937, Operário, Olinda, Nova Rússia e Guarani se revezaram em 2º lugar no certame estadual, acumulando assim, 10 vices-campeonatos paranaenses para a cidade. É interessante notar que Ponta Grossa já teve 4 times profissionais de futebol em período concomitante, numa época em que a cidade não possuía uma dinâmica econômica notável, como tem nos dias atuais.

Deste período em diante, somente o Guarani em 1956 e o Operário em 1958 e 1961 conseguiram um vice-campeonato. Portanto, são aproximadamente 41 anos que Ponta Grossa não tem um time disputando diretamente o título do campeonato paranaense.

Nos últimos anos, tentativas de colocar um novo time na cidade não deram certo. A Pontagrossense na década de 1970 e o Ponta Grossa Esporte Clube mais recentemente, são exemplos de times que surgiram e desapareceram de forma repentina. Para estes, faltou a alma, o espírito de uma equipe como o Operário, que tem raízes históricas e uma relação forte com a população local e até mesmo regional.

Com o retorno do Operário ao futebol profissional na década de 2000, a cidade vê somente neste time a esperança de que Ponta Grossa possa novamente reaparecer com força no cenário estadual.

Porém, no ano de seu centenário, o time vem realizando uma campanha pífia no campeonato paranaense de 2012. Com um orçamento relativamente magro, pouca participação do empresariado local e regional e uma torcida desconfiada com o atual presidente (por erros grotescos de gerenciamento cometidos no passado e no presente) o Operário amarga posição intermediária no certamente estadual.

Para a diretoria, a esperança é de que o público volte a comparecer maçicamente no Germano Kruger e, aliviar as contas do time, que segundo informações estão no vermelho. Outra luz no fim do túnel é a participação na Copa do Brasil, competição que tem início para o alvi-negro de Vila Oficinas no próximo dia 07 de março contra o Juventude do Rio Grande do Sul. Se avançar na competição, o time ponta-grossense recebe cotas da Confederação Brasileira de Futebol, o que de certa forma melhoraria a situação dos cofres do clube.

Para aqueles que torcem pelo Operário e por Ponta Grossa cada vez mais fortes no cenário estadual e nacional, vale a pena dar apoio ao time, comparecer no estádio e vestir a camisa alvi-negra no dia a dia, com o intuito de divulgar as cores do time que representa os Campos Gerais no futebol profissional.

ISONEL SANDINO MENEGUZZO (Professor de Geografia)




quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

SOBRE A BRIGA ENTRE AS TORCIDAS DO OPERÁRIO

Isonel Sandino Meneguzzo

Se já não bastasse a má campanha do Operário no certamente paranaense de 2012, membros das duas torcidas organizadas do time princesino foram atração à parte durante os primeiros minutos do jogo de Paranaguá. Após um instrumento musical de uma das torcidas ter se soltado, o mesmo acabou descendo rolando as arquibancadas e passou a aproximadamente um metro de uma simpatizante da outra torcida organizada que estava posicionada na parte mais inferior das arquibancadas do estádio “Gigante do Itiberê”.

O estopim para a selvageria foi quando um torcedor arremessou o instrumento musical para dentro do campo, numa atitude totalmente deseducada e inconveniente. O mais interessante disso tudo é que este torcedor é estudante universitário e mantém um blog sobre política e cidadania!

Após algumas discussões, um torcedor que acompanhava uma das torcidas atingiu covardemente com um soco um membro da Torcida Fúria Jovem, promovendo um corte e sangramento na cabeça desta pessoa. Consequentemente, mais membros das duas torcidas trocaram chutes e pontapés, promovendo uma imagem ridícula não somente para o Operário como para a cidade de Ponta Grossa.

Em segundos, a Polícia Militar fez a intervenção, acabando com a bizarra cena que os torcedores de ambos os times tiveram que presenciar. Após isso, a PM fez escolta da Torcida Fúria Jovem que estava em menor número, inclusive com crianças, mulheres e idosos.

Cabe a torcida realizar o seu papel de incentivar o time e neste momento protestar pacificamente contra a campanha ridícula que o time vem fazendo neste campeonato paranaense. Além disso, se filmagens ou fotos chegarem à federação paranaense de futebol, o Operário pode até mesmo perder mando de campo, tendo em vista que é proibido o arremesso de objetos dentro do campo. E este ato é um fator complicador, tendo em vista que após isso várias pessoas foram agredidas fisicamente.

Para o jogo de quarta-feira em Ponta Grossa um alerta à diretoria do Operário e ao órgão responsável pela segurança pública: novamente as duas torcidas estarão “lado a lado” e, a possibilidade de novo conflito é real.





Crer e perseverar - FERNANDO HENRIQUE CARDOSO

O ESTADÃO - 05/02/12

Nas duas últimas semanas apareceram alguns artigos na mídia que ressaltam o silêncio das oposições como um risco para a democracia. É inegável que está havendo uma "despolitização" da sociedade não só no Brasil, mas em geral. O "triunfo do mercado" levou às cordas as colorações políticas. Parece que tudo se deve medir pelo crescimento do PIB. Nos países bem-afortunados, ainda que cheios de "malfeitos", não há voz que ressoe contra os governos. Nos que caem em desgraça sem terem feito a "lição de casa" - sem terem gerado um "superávit primário" -, aí sim, os governos em exercício pagam o preço. Caem porque são vistos como incapazes de assegurar o bom pagamento aos mercados. Não importa ser de coloração mais progressista ou mais conservadora. Caem sem que tenha havido um debate político-ideológico que mostre suas fraquezas eventuais, mas porque o rancor das massas gerado pelo mal-estar econômico-financeiro se abate sobre os líderes do momento.

O Brasil esteve até agora ao abrigo da tempestade que desabou sobre os mercados dos Estados Unidos e da Europa. Por mais que nossos governos errem, os decibéis das vozes oposicionistas são insuficientes para comover as multidões. Pior ainda quando essas vozes estão roucas ou preferem sussurrar. Como entramos em céu de brigadeiro a partir de 2004, tanto pela virtude do que fizemos na década anterior como pelos acertos posteriores e graças à ajuda dos chineses, fazer oposição tornou-se um ato de contrição.

Mas que importa? Também era assim no período do milagre dos anos 1970, durante o regime militar. A oposição nada podia esperar, a não ser censura, cadeia ou tortura. Não obstante, não calou. Colheu derrotas eleitorais e políticas, resistiu até que, noutra conjuntura, venceu. Hoje a situação é infinitamente mais fácil e confortável. Só que falta, o que antes sobrava, a chama de um ideal: queríamos reabrir o sistema político. Hoje o que queremos? Ganhar as eleições? Mas para quê?

Eis o enigma. Não faltam candidatos. Ainda recentemente, em conversa analítica que fiz com uma jornalista da The Economist, ressaltei que há vários, e não só no PSDB. Neste o mais conhecido e denso, José Serra, amadurecido por êxitos e derrotas, não conseguiu deixar clara em 2010 sua mensagem, embora tenha obtido 44% dos votos. O isolamento em que sua campanha ficou, dadas as dissonâncias internas do PSDB e as dificuldades para fazer alianças políticas, impediu a vitória. Se o candidato tivesse expressado com mais força as suas convicções, mesmo desconsiderando o que as pesquisas de opinião indicavam ser a demanda do eleitorado, poderia ter sensibilizado as massas.

Quem sabe por este caminho se decifre o enigma: falar à sociedade, com força e veemência, tudo o que se sente, inclusive a indignação pela corrupção, pela incompetência administrativa e, sobretudo, pelo escândalo de uma sociedade que se faz mais rica com um governo que distribui muito pouco, faz propaganda do que não concretizou inteiramente e coloca no altar os "vencedores", mesmo quando estes ganham à custa do dinheiro do povo, que paga impostos cada vez mais regressivos.

Outro, mais óbvio provável candidato, graças à posição eleitoral dominante em seu Estado e ao seu estilo de fazer política, Aécio Neves, está em fase de teste: transmitirá uma mensagem que salte os muros do Congresso e chegue às ruas? Encarnará a mudança com a energia necessária e o desprendimento que é o motor da ousadia, arriscando-se a dizer verdades inconvenientes, e aparentemente custosas eleitoralmente, para que o povo sinta que existe "outro lado" e confie nele para abrir perspectivas melhores?

Refiro-me aos dois por serem os mais cogitados no momento. Não são os nomes que importam agora, mas a disposição de correr riscos e de sair da armadilha da briga partidário-eleitoral para entrar na grande cena da opinião pública e - façamos a distinção - da opinião popular. É evidente que o governo, qualquer governo, leva vantagens, principalmente desde que o lulopetismo instalou a regra de que tudo vale para manter o poder: clientelismo, propaganda abusiva, uso continuado da máquina pública, etc. Entretanto, também no regime militar o governo levava vantagens. Mas nós lutávamos não para ganhar no dia seguinte, mas para criar um horizonte de alternativas.

A elucidação do enigma requer perseverança e coragem. Eu ganhei duas eleições no primeiro turno contra Lula porque tinha uma mensagem: a da estabilização da economia com o Real e o início da distribuição de rendas. Mesmo sem propagandear, a pobreza deixou de atingir mais de 15 milhões de pessoas com a estabilização dos preços e a política de aumentos reais do salário mínimo, que começou em 1994. Não foi fácil ganhar os apoios para pôr em ação o Plano Real, precisei brigar muito. Lula ganhou porque pregou, no início no deserto, ser ele o portador da mensagem que levaria a um mundo melhor. Perseverou, rodou o Brasil, abandonou a tribuna parlamentar e, no começo, desprezou a mídia. Mostrou-se audacioso, desprendido e generoso. Se sinceramente ou não, é outra questão: a Carta aos Brasileiros está à disposição dos historiadores para que julguem. Mas o povo acreditou.

É esta a verdadeira questão da oposição, e deveria ser a preocupação dos pré-candidatos: mergulhar nos problemas do povo, falar de modo simples o que sentem e o que se pode fazer. Sem meias palavras e sem insultos. Sem falácia, com muita convicção. Politizar a cena pública para assegurar a democracia. Dizer quem é bom, ou melhor, o que é bom e o que é mau. Mas dizer nas universidades, nas organizações populares, nas associações profissionais, nas pequenas e médias cidades. Preparar nelas a mensagem - o discurso - para mais tarde falar com credibilidade na grande cena nacional.

Quem o fizer terá chances de ser o candidato da oposição e, eventualmente, ganhar as eleições. Isso independe de manobras de cúpula, simpatias e interesses menores.

Não se pense que nossa realidade será sempre o que hoje parece ser: uma sociedade conformada, legendas eleitorais disputando mordomias no dá-cá-toma-lá entre governo e congressistas e a voz do governo a tonitruar como um trovão divino, a que todos se curvam prestimosos. É só mudar a conjuntura e a cena muda, se a oposição apresentar alternativas. Mesmo que não mude, nada deve alterar nossos valores e convicções. Continuemos com eles, pois "água mole em pedra dura tanto bate até que fura".