terça-feira, 25 de outubro de 2011

Quanto mais prova, melhor

Veja - 24/10/2011

Pela primeira vez, uma pesquisa investiga a eficácia das avaliações do ensino no Brasil. Conclusão: o sistema é bom, mas falta usa-lo mais em prol da excelência.





Tudo o que se sabia sobre a educação brasileira até a década de 80 era fruto dos censos demográficos divulgados a cada dez anos e de estimativas imprecisas. Não havia sequer consenso sobre o número de escolas no país - variava de 190000 a 230000, dependendo da fonte. Foi só a partir de 1990 que o Brasil estreou no mundo das avaliações do ensino, com a criação do Saeb, a primeira das provas aplicadas pelo Ministério da Educação para diagnosticar as mazelas escolares. Desde aí, surgiram centenas de aferições municipais, estaduais e federais, do nível fundamental ao superior. Já é possível, por exemplo, comparar o grau de aprendizado em um minúsculo município brasileiro ao de escolas da Coréia do Sul. Até hoje, no entanto, pouco se estudou o uso prático desse gigantesco universo estatístico. A primeira pesquisa nacional do gênero, conduzida pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) em parceria com a Fundação Victor Civita, acaba de ser concluída. O foco é o ensino básico. Coordenador do levantamento, o inglês Nigel Brooke, da UFMG, resume a ideia geral: "O Brasil já conseguiu colocar de pé um sólido sistema para medir o nível da educação, mas falta aprimorá-lo e usá-lo de forma mais eficiente na rotina escolar".

O trabalho, que consumiu um ano, chama atenção para a necessidade de criar alternativas nos estados e municípios às provas oficiais do MEC. É consenso que o conjunto de avaliações federais - cujo carro-chefe, por sua abrangência, é a Prova Brasil - funciona como um bom termômetro da qualidade, permitindo comparar estados, municípios e até escolas ao longo de décadas. Só que, segundo enfatiza a pesquisa, é difícil transformar esses grandes diagnósticos em um plano objetivo para avançar na sala de aula. Antes de tudo, porque a divulgação dos resultados pelo MEC custa a sair - às vezes quase dois anos, como ocorreu na última Prova Brasil. É tempo valioso que os colégios perdem em voo cego, sem o mapa das deficiências na mão. A pesquisa lança luz ainda sobre uma fragilidade pouco comentada acerca dos termômetros do ensino do MEC: muitas vezes, a amostra de alunos testados nas escolas é pequena para que se produza a partir dela um indicador capaz de espelhar a realidade com todas as suas nuances.

O estudo também lembra que não existe no Brasil um currículo nacional unificado - a matéria ensinada varia muito de uma rede de ensino para outra. Nesse sentido, produzir diagnósticos mais localizados, feitos sob medida para cada lugar, pode ser de grande valor.

"Quanto mais aproximado for o retrato da sala de aula, melhor ele servirá para subsidiar os professores sobre as lacunas que devem atacar", reforça Maria -Helena Guimarães, que esteve à freme do Inep, o Instituto Nacional De Pesquisas Educacionais do MEC, entre 1994 e 2002. Nos últimos cinco anos, começaram a crescer no país as avaliações estaduais do ensino: hoje, dezesseis dos 27 estados já têm uma. Um grupo minoritário, que inclui São Paulo, Minas Gerais e Ceará, faz uso bem prático dos resultados, traçando a partir deles metas e políticas de bônus para as equipes daquelas escolas que as atingirem.

Uma das mais relevantes contribuições que tais termômetros dão ao ensino é expor não só aos educadores, mas também a pais e estudantes, a verdadeira situação das salas de aula. Só assim eles podem fazer uma escolha bem embasada de uma determinada escola e exercer o papel decisivo de fiscalizar e cobrar avanços. Isso é coisa recente. No princípio, esses medidores da educação frequentemente não vinham a público, sobretudo aqueles feitos na esfera estadual. Ficavam confinados nas repartições, tratados como meros instrumentos internos de gestão. A falta de transparência traduzia o corporativismo de uma classe de educadores que sempre repudiou as comparações. Se isso não foi de todo superado, o novo estudo mostra de forma enfática que o Brasil já conta com um valioso diagnóstico sobre o ensino. Resta fazer desse gigantesco banco de dados um permanente aliado na busca pela excelência.

Acrobacias para ensinar
A premiada professora que levou o circo às crianças

A mineira Fernanda Pedrosa, de 30 anos, é uma professora de educação física pouco convencional. Em suas aulas, as mais disputadas no colégio municipal José de Calasanz, na periferia de Belo Horizonte, vê-se mais do que futebol ou vôlei: ali, ela ensina exercícios de circo. E não de qualquer um. Fernanda tem como fonte de inspiração nada menos que o canadense Cirque du Soleil. Nunca assistiu a um espetáculo de perto, só em vídeos - mas de forma exaustiva. Já decorou quase todos os malabarismos e acrobacias. Ensina os mais básicos a 130 alunos de 6 a 11 anos. Onze deles são portadores de deficiência física ou mental, situação com a qual Fernanda lida de forma exemplar. Com adaptações bem simples, como elevar a corda de pular para que um estudante em cadeira de rodas possa passar ao outro lado e entrar na brincadeira, ela conseguiu integrar a todos. Foi se quebrando aí, segundo relatos dos próprios alunos, o preconceito. Também se renovou o ânimo das crianças para com o colégio. A lição acabou derivando para pesquisas sobre animais e arte circense, fora do turno escolar. "Não esperava tanto impacto", diz Fernanda, grávida de sete meses, mas ainda à frente de suas aulas (embora, evidentemente, longe dos trapézios).

Na semana passada, o trabalho lhe rendeu o Prêmio Educador Nota 10, concedido a dez professores, além de um diretor, que se distinguiram pela excelência no ensino básico. O prêmio, criado em 1998, sempre dá destaque a um dos vitoriosos. Foi o caso de Fernanda. O fato de ter sobressaído em meio a 3000 candidatos faz refletir sobre os caminhos que encontrou para atrair crianças pobres e desprovidas de incentivos. Ela não se paralisou diante das lacunas de infraestrutura. Ao contrário, improvisou um circo com velhos tatames, cordas e bambolês. Debruçou-se sobre o projeto que sonhava implantar na periferia de Belo Horizonte com a obsessão de quem quer oferecer o melhor. Ela festeja: "Alguns de meus alunos já conseguem fazer números como os acrobatas do Cirque du Soleil". _

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Ciência e educação


Autor(es): Ruy Martins Altenfelder Silva
Correio Braziliense - 24/10/2011

Presidente do Conselho Diretor do CIEE Nacional e do Conselho de Administração do CIEE, presidente da Academia Paulista de Letras Jurídicas
É fácil notar certo deslumbramento com o crescimento econômico e a importância que o Brasil vem ganhando no cenário internacional. Com a crise econômica na zona do euro e a instabilidade político-econômica nos Estados Unidos, o mundo passou a olhar com atenção para as perspectivas promissoras dos países do Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul). Mas aqui volta e meia impõe-se uma velha dúvida: até que ponto a nação está preparada para desempenhar o tão sonhado protagonismo mundial? Sétima economia mundial, com potencial para subir no ranking nos próximos anos, o Brasil permanece num modesto 13º lugar no tocante à produção científica. Mais negativo, ainda, é o dado sobre a corrida pelas patentes, indicador de inovação científica e tecnológica de um país. Segundo o Relatório Mundial da Ciência da Unesco, a participação brasileira não passa de 0,1% do volume mundial.

A ciência é a base para o desenvolvimento social, político e econômico de uma nação. A palavra vem do latim — scientia significa conhecimento — e faz parte do esforço de descobrir e aumentar o conhecimento humano sobre a própria realidade, com o objetivo final de trazer bem-estar, resolvendo as mazelas da sociedade. Portanto, está intimamente ligada à educação de qualidade, sem a qual não existe. Sem ciência, não há desenvolvimento. Portanto, é legítimo concluir que, sem educação de qualidade, não há inovação nem desenvolvimento sustentável.

Em contraponto aos indicadores saudáveis, a conjuntura atual revela perigosos efeitos da ausência de um sistema educacional organizado e apto a formar as novas gerações — tanto para o trabalho quanto para o exercício pleno da cidadania, com seus direitos e deveres. Um dos mais preocupantes é a falta de mão de obra qualificada para dar sustentabilidade ao desenvolvimento, um gargalo já perceptível em poucos anos de retomada do crescimento. Faltam profissionais de tecnologia da informação (TI) nas empresas que atuam em setores de ponta. Faltam professores para o ensino das ciências no nível básico, em matérias fundamentais, como matemática, física e química. Faltam engenheiros civis para o boom da construção civil e para tocar os projetos de modernização da infraestrutura do país. E por aí vai.

A carência de profissionais qualificados pode parecer um problema distante dos bancos escolares do ensino básico. Mas não é. Para que o país cresça de forma sustentável, é necessário investir em educação de qualidade desde os primeiros anos de aprendizado e, gradativamente, abrir espaço para cursos que se aproximem das demandas dos setores produtivos, em especial os estratégicos para o desenvolvimento nacional. Paralelamente, há que se estimular a produção científica, diminuindo a burocracia e aumentando os recursos destinados à pesquisa e ao desenvolvimento (P&D). Nos Estados Unidos, 76% desses investimentos vêm da iniciativa privada. No Brasil, a maioria dos recursos sai dos cofres públicos e o investimento é tímido, se comparado aos indicadores mundiais. O Brasil investe em torno de 1,5% do Produto Interno Bruto (PIB) em P&D, inferior à média de 2,28% dos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

Os dados do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa) situam o Brasil entre os piores países do mundo em desempenho escolar, atrás de países como Bulgária e Romênia, e dos latinos México, Chile e Uruguai. Um dos fatores para esse péssimo resultado é a chamada educação recorrente. Como no nível anterior o aluno não aprendeu o que deveria, o nível seguinte é prejudicado e assim segue, até se chegar ao nível superior com enormes lacunas de conhecimento a serem recuperadas, o que quase sempre não acontece.

O descaso com o ensino parece já estar embutido em largos círculos da própria sociedade. A começar pela desvalorização do professor, vítima de desrespeito por parte dos alunos e suas famílias, das deficiências da gestão escolar, dos baixos salários, da carência de programas de reciclagem e treinamento — para ficar em apenas um dos aspectos do problema. Mas, felizmente, ainda há muitos mestres dedicados à nobre vocação de ensinar. É para homenagear esses heróis da sala de aula que o CIEE criou, há 15 anos, o prêmio Professor Emérito – Guerreiro da Educação. Neste ano, a homenageada é a médica Angelita Habr-Gama, coloproctologista que se destacou como professora titular da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e, por suas pesquisas pioneiras, tornou-se referência mundial em sua especialidade. Generosa, destinou parte das atividades a difundir seus saberes, formando várias gerações de médicos especialistas. Aos 80 anos, continua na ativa e agora ingressa na galeria dos Guerreiros da Educação, que já conta com colegas homenageados em anos anteriores: Adib Jatene e Luiz V. Decourt, mestres e inovadores reconhecidos na área de cirurgia cardíaca. Lição exemplar de amor ao ensino e à ciência, digna de ser transmitida às novas gerações.

Por que roubam os comunistas?

EUGÊNIO BUCCI
REVISTA ÉPOCA
Em 1989, aos 26 anos, o cineasta Steven Soderbergh ficou famoso com Sexo, mentiras e videotape. Duas décadas depois, lançou Che, um épico dividido em duas partes, ou dois filmes em sequência: no primeiro, Che Guevara vira guerrilheiro em Cuba; no segundo, ele vai para a Bolívia instalar um foco revolucionário. No primeiro, Che sai consagrado, aos 30 anos. Do segundo, saiu morto, carregado por um helicóptero.

A cena final do primeiro filme é inesquecível. Pode ser vista como um trailer do pesadelo ético que a esquerda viveria na América Latina a partir de então. O protagonista Che Guevara (Benicio del Toro) vai pela estrada, dentro de um jipe sem capota, na direção de Havana. É janeiro de 1959. O ditador Fulgencio Batista fugiu. Fidel Castro venceu. De repente, passa pelo jipe um vistoso conversível, dirigido por um dos comandados de Che. No automóvel, moços e moças festejam, cabelos ao vento. Che ordena que parem. “Que carro é este?”, pergunta ao motorista. “Era de um francoatirador”, diz ele. O comandante se enfurece. Manda que seu subordinado volte, devolva o carro e só depois vá para Havana, a pé, se for preciso.

A mensagem do líder era simples e direta: a revolução não era um movimento de ladrões.

Na biografia que John Lee Anderson escreveu sobre Guevara, há uma passagem parecida. De novo, estamos às voltas com automóveis. Agora, Che é ministro das Indústrias, no regime comunista de Havana. Certo dia, seu vice-ministro, Orlando Borrego, aparece na repartição com um Jaguar esporte, novinho, que encontrara numa fábrica. O chefe o interpela aos palavrões e o obriga a devolver o carro. Borrego passaria os 12 anos seguintes dirigindo um Chevy mais simples, sem opcionais. Outra vez, a mesma mensagem: a revolução não admite ladrões.

Acontece que a História (com “H” maiúsculo, como alguns preferem) não é heroica. Ela é uma piadista. Quando morreu pelas armas dos militares bolivianos, Che estava magro e doente. E os ladrões proliferaram nas fileiras de esquerda. Rechonchudos e felizes. Não roubaram apenas automóveis, mas utopias. Transformaram sonhos dos camaradas em butim. Estão por aí, de terno, gravata e dinheiro vivo dentro de casa. Nisso se resume o grande dilema existencial e político das organizações de esquerda.


Comunistas, quando corruptos, roubam a razão pela qual morreram todos os guerrilheiros

Ao se acovardar diante da corrupção ou, pior, ao julgar que podem se extrair vantagens táticas da corrupção, um partido de esquerda abdica de acreditar na igualdade de oportunidades. Logo, abdica de sua herança simbólica e de nomes como Che Guevara. É bem verdade que Che se tornou um homem embrutecido, violento, comandando execuções às centenas, sem processo justo. O lendário guerrilheiro foi, a seu modo, um misto de verdade e de loucura (“tanta violência, mas tanta ternura”). Fez sua guerra, sujou as mãos de sangue e topou pagar o preço de sua escolha. O que importa, agora, é que ladrão ele não foi. E isso importa porque não foi a selvageria da batalha que corrompeu a esquerda: foi o roubo.

Passemos ao Brasil de 2011. Passemos para hoje. Estamos aí atordoados com mais um escândalo, outra vez embaralhando ONGs, mas agora com militantes e ex-militantes do PCdoB e autoridades do Ministério dos Esportes. Passarão meses, talvez anos, até que saibamos quem de fato tem culpa no cartório, se é que o tabelião e os cartorários não estavam no esquema. Desde já, porém, sabemos que há milhões e milhões de reais em irregularidades, tudo em nome de dar assistência a crianças carentes que não recebiam assistência nenhuma.

A corrupção virou a pior forma de barbárie de nossa democracia não apenas porque mercadeja com o destino de crianças ou porque sacrifica vidas em hospitais imundos e estradas abandonadas, mas principalmente por ter transformado a política numa indústria complexa, cuja finalidade é a apropriação da riqueza de todos para fins privados (e fins partidários são fins privados). Na esquerda, a corrupção se qualifica: emprega métodos bolcheviques e se justifica sob licenças ideológicas que enaltecem o crime comum como se ele fosse a própria trilha de libertação dos oprimidos. É uma corrupção delirante, que se julga uma nova modalidade de guerrilha contra o capital, mas que, no fundo, presta serviços ao que há de pior no capital.

Comunistas e socialistas, quando corruptos, roubam enfim a razão pela qual morreram todos os guerrilheiros. Traindo seus mortos, traindo os desaparecidos, o corrupto de esquerda se sente vitorioso. Acha que pode passear de conversível sem ser incomodado.

Comunismo de resultados

REVISTA ÉPOCA
Como o ex-nanico PCdoB instalou-se no centro do poder e tornou-se um foco de escândalos no governo Dilma

MARIANA SANCHES E RICARDO MENDONÇA

O Brasil sempre foi o país do futebol. Na última década, tornou-se também o país do petróleo e das Olimpíadas. Nas três categorias, reina um partido que saiu da clandestinidade nos anos 1980 para se acomodar no centro do projeto petista de poder. Após a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva nas eleições presidenciais de 2002, o PCdoB foi recompensado por ter sido a única legenda, além do PT, a apoiá-lo em todas as suas tentativas de chegar ao Palácio do Planalto. Desde 2003, lideranças comunistas comandam o Ministério do Esporte e a Agência Nacional do Petróleo (ANP), instâncias fortalecidas após a escolha do Brasil para sediar a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos e com a descoberta dos campos da camada pré-sal. Com o poder, veio a responsabilidade, seguida de denúncias de cobrança de propinas e desvio de recursos. Diante das mais graves suspeitas de corrupção de sua história, o PCdoB se defende em bloco e tenta não ser reduzido a um pastiche dos ideais da esquerda que sempre disse defender.

No Partido Comunista do Brasil, a regra é um por todos e todos por um. “O princípio básico da organização do PCdoB é o centralismo democrático (...) para a construção das orientações partidárias sob um único centro dirigente e no qual as decisões tomadas são válidas para todos”, diz a legenda nos documentos em que se define. Na crise que levou Orlando Silva às manchetes dos jornais devido a denúncias de desvio de dinheiro no Ministério do Esporte, seus quadros demonstram seguir à risca essa orientação. Numa mostra notável de disciplina e fidelidade, muitos foram à mídia e aos palanques para fazer a defesa enfática do ministro.

“Acompanho sua trajetória desde os 16 anos de idade, desde quando liderava a nossa juventude. O senhor já abriu seus sigilos, fiscal e telefônico. Não tem mais que falar. Se o réu tem o que dizer, vá à PF, mostre as provas”, disse a deputada Manuela D’Ávila, pré-candidata à prefeitura de Porto Alegre. “O PCdoB está consciente de que é alvo de uma farsa de forças reacionárias e anticomunistas”, afirmou Nádea Campeão, presidente do diretório paulista. “O povo conhece o trabalho do ministro Orlando Silva e respeita as vitórias que ele vem ajudando o Brasil a alcançar”, disse o deputado federal Chico Lopes (CE).

A necessidade de defender um de seus principais quadros é uma realidade nova para um partido que esteve à margem do poder ao longo da maior parte de sua história. Criada em 1962 depois de um racha no antigo Partido Comunista Brasileiro, de 1922, a legenda passou décadas na clandestinidade. Nos anos 1970, patrocinou a Guerrilha do Araguaia, no sul do Pará, onde perdeu 60 militantes. Engrossou a campanha pelas eleições diretas para a Presidência, nos anos 1980, e até hoje ostenta a foice e o martelo. Ao mesmo tempo que faz alianças com ruralistas, kassabistas e sarneyzistas, continua reverenciando Marx e Lênin. Vive, segundo a descrição encontrada em seu site, “uma das fases mais ricas” de sua história.

A fidelidade ao projeto de levar Lula à Presidência garantiu espaço e influência do partido no governo federal. “É como se o irmão mais novo e mais forte, o PT, tivesse de dar espaço para a turma mais velha e mais fraca, o PCdoB”, diz o cientista político Rui Tavares Maluf. Hoje o PCdoB ocupa três cargos de destaque no governo Dilma Rousseff. Além do Ministério do Esporte, tem o ex-deputado federal Haroldo Lima na ANP, e o também ex-deputado Flávio Dino na Embratur, autarquia responsável pela política nacional de turismo.

No início do governo Lula, o poder era menor, embora os cargos ocupados fossem praticamente os mesmos (a Embratur só foi entregue ao PCdoB na gestão Dilma). Em 2003, o Ministério do Esporte era uma pasta recém-desmembrada do antigo Ministério do Esporte e Turismo, considerado um dos menos importantes da administração. Comandada inicialmente por Agnelo Queiroz – também suspeito de irregularidades, ele trocaria o PCdoB pelo PT e se tornaria governador do Distrito Federal (leia a reportagem) –, a pasta só conquistou relevância política na gestão Orlando Silva, com a escolha do Brasil como sede da Copa de 2014 e da Olimpíada de 2016.

A ANP também gozava de pouca visibilidade até a descoberta de petróleo na camada pré-sal. Foi de suas operações que surgiram as primeiras denúncias de corrupção envolvendo o PCdoB. Em julho, ÉPOCA divulgou um vídeo em que assessores da ANP negociavam com a advogada de empresários o pagamento de propina para destravar processos de empresas de combustíveis.

As denúncias que envolvem Orlando Silva chamam a atenção para o estranho estilo comunista de administração: a proximidade suspeita entre políticos empregados no governo federal e organizações não governamentais também ligadas ao PCdoB (leia a reportagem).

A mistura entre atividades de governo, partidárias e ações da sociedade civil salta aos olhos na principal base política do Partido Comunista do Brasil, a União Nacional dos Estudantes (UNE). A entidade é há décadas um braço do partido, que a controla por meio do grupo União da Juventude Socialista (UJS). Desde 1991, o grupo elege sucessivamente os presidentes e a maior parte das diretorias da UNE. Isso se mostrou um ótimo negócio para a legenda. O movimento estudantil é a mais fecunda fonte de quadros para o partido. O próprio Orlando Silva e três dos 15 atuais deputados comunistas foram da UNE: Aldo Rebelo (SP), Luciana Santos (PE) e Manuela D’Ávila (RS). Outros três da bancada também vieram de entidades estudantis.

A UNE também já foi alvo de denúncias, mas não consta que qualquer uma tenha resultado em condenação. A última dizia respeito à compra da sede nacional do PCdoB, um prédio de sete andares e 3.400 metros quadrados no centro de São Paulo, por R$ 3,3 milhões em 2008. Para pagá-lo, o partido usou R$ 603 mil doados por uma empresa de intercâmbio estudantil que mantinha convênio com a UNE para a emissão da carteira internacional de estudante.

Nas urnas, a estratégia do PCdoB sempre foi concentrar esforços nas eleições para o Legislativo. Conseguiu deixar de ser um partido nanico – estigma que o marcava até 2002 – e crescer, devagar e sempre. Hoje tem dois senadores e 15 deputados, a 11a bancada da Câmara, equivalente ao tamanho do PT em 1989, quando Lula disputou sua primeira eleição à Presidência.

O partido tem ainda atuação relevante no meio sindical. Seu braço no setor é a Central dos Trabalhadores do Brasil (CTB), que reúne 533 sindicatos em todo o país. Trata-se da quarta maior central sindical do Brasil, atrás da Central Única dos Trabalhadores (CUT), da Força Sindical e da União Geral dos Trabalhadores (UGT). Os sindicatos na órbita do PCdoB representam cerca de 8% de todos os trabalhadores sindicalizados do Brasil, ou mais de meio milhão de pessoas. Contando as federações, associações e outros agrupamentos, a CTB reúne mais de 800 entidades.

Além da flexibilidade para alianças, dois movimentos marcaram a fase recente do PCdoB. O primeiro foi a tática de patrocinar candidaturas de figuras midiáticas. O exemplo mais vistoso disso é o cantor e apresentador de TV Netinho de Paula, atualmente vereador em São Paulo e pré-candidato à prefeitura. No ano passado, Netinho quase desbancou a petista Marta Suplicy na disputa por uma vaga no Senado. Há ainda o sambista Martinho da Vila, no Rio, a cantora Leci Brandão, eleita deputada estadual em São Paulo, e o ex-delegado Protógenes Queiroz, eleito deputado federal depois de ganhar notoriedade – e muitas críticas – ao liderar a investigação da Polícia Federal que chegou a prender duas vezes o banqueiro Daniel Dantas. “Não fica claro como se dá o processo de recrutamento dessas pessoas. Certamente não são as inspirações ideológicas”, diz o cientista político José Álvaro Moisés. “Isso dilui muito o perfil de um partido que se diz de esquerda.”

O segundo movimento recente que marca o PCdoB é a aliança liderada pelo deputado comunista Aldo Rebelo com a bancada ruralista no Congresso Nacional. Seu engajamento no tema foi tão forte que ele conseguiu destronar a senadora Kátia Abreu (PSD-TO) como principal defensora de abrandamentos na legislação ambiental. Do ponto de vista da história dos partidos que se dizem de esquerda, a aliança com o latifúndio foi mais uma inovação do PCdoB. Gosto pelo poder, denúncias de corrupção e ajustes ideológicos em favor do jogo político: nunca o PCdoB esteve tão longe da clandestinidade.

O perfeito imbecil politicamente incorreto

Cynara Menezes

No Brasil, é aquele sujeito que se sente no direito de ir contra as idéias mais progressistas e civilizadas possíveis em nome de uma pretensa independência de opinião. Saiba como reconhecê-lo. Por Cynara Menezes. Foto: Reprodução
Em 1996, três jornalistas –entre eles o filho do Nobel de Literatura Mario Vargas Llosa, Álvaro –lançaram com estardalhaço o “Manual do Perfeito Idiota Latino-Americano”. Com suas críticas às idéias de esquerda, o livro se tornaria uma espécie de bíblia do pensamento conservador no continente. Vivia-se o auge do deus mercado e a obra tinha como alvo o pensamento de esquerda, o protecionismo econômico e a crença no Estado como agente da justiça social. Quinze anos e duas crises econômicas mundiais depois, vemos quem de fato era o perfeito idiota.



Mas, quem diria, apesar de derrotado pela história, o Manual continua sendo não só a única referência intelectual do conservadorismo latino-americano como gerou filhos. No Brasil, é aquele sujeito que se sente no direito de ir contra as idéias mais progressistas e civilizadas possíveis em nome de uma pretensa independência de opinião que, no fundo, disfarça sua real ideologia e as lacunas em sua formação. Como de fato a obra de Álvaro e companhia marcou época, até como homenagem vamos chamá-los de “perfeitos imbecis politicamente incorretos”. Eles se dividem em três grupos:
1. o “pensador” imbecil politicamente incorreto: ataca líderes LGBTs (Lésbicas, Gays, Bissexuais e Trânsgeneros) e defende homofóbicos sob o pretexto de salvaguardar a liberdade de expressão. Ataca a política de cotas baseado na idéia que propaga de que não existe racismo no Brasil. Além disso, ações afirmativas seriam “privilégios” que não condizem com uma sociedade em que há “oportunidades iguais para todos”. Defende as posições da Igreja Católica contra a legalização do aborto e ignora as denúncias de pedofilia entre o clero. Adora chamar socialistas de “anacrônicos” e os guerrilheiros que lutaram contra a ditadura de “terroristas”, mas apoia golpes de Estado “constitucionais”. Um torturado? “Apenas um idiota que se deixou apanhar.” Foge do debate de idéias como o diabo da cruz, optando por ridicularizar os adversários com apelidos tolos. Seu mote favorito é o combate à corrupção, mas os corruptos sempre estão do lado oposto ao seu. Prega o voto nulo para ocultar seu direitismo atávico. Em vez de se ocupar em escrever livros elogiando os próprios ídolos, prefere a fórmula dos guias que detonam os ídolos alheios –os de esquerda, claro. Sua principal característica é confundir inteligência com escrever e falar corretamente o português.
2. o comediante imbecil politicamente incorreto: sua visão de humor é a do bullying. Para ele não existe o humor físico de um Charles Chaplin ou Buster Keaton, ou o humor nonsense do Monty Python: o único humor possível é o que ri do próximo. Por “próximo”, leia-se pobres, negros, feios, gays, desdentados, gordos, deficientes mentais, tudo em nome da “liberdade de fazer rir.” Prega que não há limites para o humor, mas é uma falácia. O limite para este tipo de comediante é o bolso: só é admoestado pelos empregadores quando incomoda quem tem dinheiro e pode processá-los. Não é à toa que seus personagens sempre estão no ônibus ou no metrô, nunca num 4X4. Ri do office-boy e da doméstica, jamais do patrão. Iguala a classe política por baixo e não tem nenhum respeito pelas instituições: o Congresso? “Melhor seria atear fogo”. Diz-se defensor da democracia, mas adora repetir a “piada” de que sente saudades da ditadura. Sua principal característica é não ser engraçado.
3. o cidadão imbecil politicamente incorreto: não se sabe se é a causa ou o resultados dos dois anteriores, mas é, sem dúvida, o que dá mais tristeza entre os três. Sua visão de mundo pode ser resumida na frase “primeiro eu”. Não lhe importa a desigualdade social desde que ele esteja bem. O pobre para o cidadão imbecil é, antes de tudo, um incompetente. Portanto, que mal haveria em rir dele? Com a mulher e o negro é a mesma coisa: quem ganha menos é porque não fez por merecer. Gordos e feios, então, era melhor que nem existissem. Hahaha. Considera normal contar piadas racistas, principalmente diante de “amigos” negros, e fazer gozação com os subordinados, porque, afinal, é tudo brincadeira. É radicalmente contra o bolsa-família porque estimula uma “preguiça” que, segundo ele, todo pobre (sobretudo se for nordestino) possui correndo em seu sangue. Também é contrário a qualquer tipo de ação afirmativa: se a pessoa não conseguiu chegar lá, problema dela, não é ele que tem de “pagar o prejuízo”. Sua principal característica é não possuir ideias além das que propagam os “pensadores” e os comediantes imbecis politicamente incorretos.