sábado, 8 de outubro de 2011

O despotismo da economia

CACÁ DIEGUES

Sábado, Outubro 08, 2011



O GLOBO - 08/10/11

O capitalismo não é uma ideologia, mas um modo de viver. Ninguém o inventou, ele não tem pai nem mãe, não adianta botar a culpa no Adam Smith ou na Margareth Tatcher. O capitalismo nasceu, digamos assim, por geração expontânea, como uma necessidade humana surgida lá atrás, quando os homens da caverna começaram a conviver entre si. Um coletor deve ter sentido frio demais naquele inverno e teve a ideia de trocar um cacho de uva pela pele de urso do vizinho caçador. Estava criado o notório e tão vilipendiado mercado, lugar de encontro, entendimento e trocas, onde você pode e deve satisfazer suas necessidades satisfazendo as necessidades dos outros. Pensando bem, o erro foi de quem batizou a coisa toda, dando-lhe esse nome horrível, frio, excludente e desumano - capitalismo.


Esse mecanismo básico das relações humanas desenvolveu-se e endiabrou-se de tal modo que acabou gerando frutos diversos e às vezes divergentes, como, por exemplo, o criador Steve Jobbs e o especulador Warren Buffet, dois ícones opostos do capitalismo contemporâneo. Em qualquer caso, é de tal ordem sua promessa de recompensa que Jacques Lacan, o maior pensador da psicanálise pós-freudiana, considerou que para resistir ao capitalismo é preciso ser santo.


O pior desse capitalismo contemporâneo, o capitalismo financeiro que gira como uma roleta nas bolsas de valores do mundo inteiro, é a dependência material e simbólica que a humanidade vive hoje da economia. Uma tirania mítica em que a economia substitui o indiscutível poder divino da Idade Média, com seu terrorismo financeiro e promessas de apocalipses inquisitoriais, se não seguirmos seus sinais proféticos, suas tábuas de mandamentos. Um dos piores motes dos últimos tempos é o famoso chiste eleitoral: "É a economia, estúpido." Uma piada que, considerada esperta e virtuosa, atrasou a importância da política por algumas décadas.


O mundo precisa dar um jeito de aprender a viver sem a opressão da economia, sem o seu despotismo. Não é possível que, ao acordarmos, nosso primeiro pensamento seja sempre para ela e seus números, como indicação do que faremos pelo resto do dia e de nossas vidas.


Entramos em pânico se o dólar cai, pois é ruim para nossas exportações; mas, se o dólar subir, isso é fatal para o controle da inflação. O humor de funcionários de agências regidas por interesses financeiros que não conhecemos ("porta-vozes do fim do mundo", como diz o humorista Tutty Vasques) desclassifica países que, abalados, se tornam vítimas de desconfiança e são levados ao caos sem que se saiba bem por que. Os sábios condenam o gasto dos governos e, no entanto, é o custo do salvamento dos bancos privados, quebrados pela crise que provocam, que leva ao súbito aumento da dívida pública, onde quer que ele aconteça.


No meio do clamor de receio pelos sinais de inflação, li interessante lembrança histórica do insuspeito Paul Krugman. Na crise mundial do fim dos anos 1920, todos temiam pelas consequências de uma hiperinflação na Alemanha. Mas o desastre exemplar, diz Krugman, veio "das políticas de Heinrich Brüning, chanceler da Alemanha de 1930 a 1932, cuja insistência em equilibrar déficits e preservar o padrão ouro tornou a Grande Depressão ainda pior na Alemanha do que no resto da Europa, preparando o terreno para você sabe o quê".


Nem tudo pode ser apenas econômico em nossas vidas. Em entrevista recente ao jornal inglês "The Guardian", o cineasta Jean-Luc Godard anunciou que tinha a solução para a dívida da Grécia. Segundo ele, cada vez que um credor dissesse que o país lhe devia tanto e logo tinha que pagar-lhe, a Grécia devia responder cobrando royalties pelo uso desse "logo", elemento fundamental da lógica formal de Aristóteles. E assim iriam cobrando royalties por tudo o que inventaram e, ao fim de pouco tempo, era bem capaz de os credores estarem devendo uma fortuna à Grécia.


A vida é mais importante que a economia, a primeira não pode estar submetida ao despotismo da outra. Os valores de nosso mundo vêm sendo estabelecidos pela aritmética da especulação, sem projeto que inclua o bem-estar da humanidade, para dizer o mínimo. Até já esquecemos o pretexto do progresso que justificava o capitalismo produtivo. Sei que a humanidade não é mesmo lá grande coisa e que o mundo vai estar sempre muito aquém de nossos projetos. Mas, se ignorarmos o desejo contido nesses projetos, perderemos o sentido de nossa existência. É claro que também queremos o progresso. Mas entre o progresso e a civilização, vou escolher sempre a civilização.


Tenho a impressão, por exemplo, que é em nome disso que milhares de americanos estão, desde o dia 17 de setembro, ocupando Wall Street, num movimento político e cultural que, em breve, será tão importante quanto foram os dos anos 1960. Entre os cartazes estendidos por eles na Praça Zuccotti, vi um que dizia tudo: "Deixem-nos viver."

PT promoverá debate sobre regulação da mídia


Autor(es): Sérgio Lima
Valor Econômico - 07/10/2011
 
A executiva nacional do PT decidiu, ontem, que o partido promoverá no fim de novembro um seminário para discutir a regulação da mídia no país.
"A ideia é reunir diversos setores da sociedade, movimentos sociais, OAB, jornalistas. Queremos abrir a discussão sobre o tema", afirmou o deputado André Vargas (PT-PR), secretário de comunicação da legenda, para quem não deve haver "medo da mídia desse debate. Confiamos que a mídia não vai interpretar errado esse seminário."
Segundo ele, o partido também fará um levantamento no Congresso Nacional com todos os projetos que tramitam sobre o tema. "Queremos discutir propriedade cruzada, monopólio, direito de resposta, banda larga, convergência e financiamento de mídia."
Vargas afirmou ainda que o foco não é pautar o governo sobre o assunto, mas a sociedade. "Mas o governo sabe que nada pode ser debatido no Congresso sem que antes haja uma discussão sobre ele", declarou. Ele disse ainda esperar que "a mídia não vá interpretar errado" o seminário. "Ninguém aqui quer falar em controle de conteúdo", concluiu.
No entanto, o presidente nacional do PT, Rui Falcão, disse que a data escolhida para o seminário - fim de novembro - coincide com a primeira consulta pública que o governo federal deverá fazer sobre o novo marco regulatório ainda em elaboração pelo Ministério das Comunicações.
"Vamos dar seguimento a este debate dentro do partido", disse.
A decisão da executiva é um desdobramento do Congresso nacional do partido realizado no início de setembro, quando os petistas aprovaram uma moção em que defendem a regulamentação do setor de comunicação no país.
Além deste assunto, a executiva também decidiu que não será aceita qualquer flexibilização no projeto de reforma política apresentado pelo deputado Henrique Fontana (PT-RS) na Câmara dos Deputados, no que se refere ao financiamento público das campanhas. Pela manhã, o deputado até chegou a apresentar outras ideias alternativas, com o objetivo de angariar apoio nos outros partidos. A cúpula do partido, contudo, vetou qualquer hipótese neste sentido. "O financiamento público é a alma da reforma política que o PT defende. Preferimos perder no voto a ver aprovadas outras formas de financiamento", afirmou o vice-presidente do PT, deputado José Guimarães (CE).
Nesse sentido, Fontana saiu do encontro decidido a convencer as outras bancadas da Câmara a aprovar o modelo. "Vamos procurar os partidos. Queremos conversar com DEM, conversar com PMDB e sensibilizar o PMDB que o financiamento público é a mudança estrutural mais importante que a democracia brasileira precisa", declarou.
Por outro lado, o voto em lista fechada, também defendido pelo partido, pode passar por alguma alteração com vistas a um acordo que viabilize seu relatório. "Algumas pessoas estão me sugerindo a análise do sistema belga, onde os partidos pré-ordenam uma lista e o eleitor vota na lista, na legenda ou em um deputado. Fica com um voto só."
Sobre eleições, além do calendário interno da legenda para definições das candidaturas municipais e do anúncio de um grande evento partidário com todos os integrantes do partido em fevereiro, houve uma decisão com recado específico ao PT de Pernambuco: não há candidatos "natos" a prefeito na disputa eleitoral de 2012. Uma maneira de assegurar o deputado e ex-prefeito de Recife João Paulo no partido, tendo em vista suas divergências com o atual prefeito da capital pernambucana, João da Costa (PT), que quer disputar a reeleição.
"Aprovamos inclusive a inclusão do João Paulo na comissão eleitoral e reafirmamos, para não haver dúvidas, que quem define os candidatos são os encontros partidários ou as prévias. Isso vale tanto para quem está no governo e quer se reeleger como para quem não está no governo", disse Falcão.

Anjo da guarda


 ROBERTO DaMATTA



O Estado de S.Paulo - 05/10/11


Em plenos 18 anos, estava indo me apresentar no 3.º Regimento de Infantaria em São Gonçalo. De minha casa, em Icaraí, para São Gonçalo eu deveria tomar dois ônibus naqueles tempos que todos os rapazes eram obrigados a "servir no Exército" - uma retribuição e um choque desagradável de igualitarismo que deixava os filhinhos de mamãe e suas famílias preocupados. Era um pagamento por termos nascidos num país sem tufão, furacão, vulcão, Rock in Rio e terremoto, mas com inflação e clientelismo explícito e oficial. Naqueles dias existiam mesmo os "donos do poder" de Raimundo Faoro e ninguém ousava denunciá-los, exceto para dar um "golpe de Estado" ou propor a "revolução" a ser feita pelo Estado.


No meio do caminho eu percebi que havia algo errado. Comuniquei minha desconfiança a um senhor de cabelos pretos, rosto vincado de rugas e roupas simples que estava sentado ao meu lado. Será que estou indo mesmo em direção ao 3.º Regimento de Infantaria?, perguntei, aflito. Não, meu jovem, você deve saltar no próximo ponto e pegar outro ônibus. De quebra, esse senhor pediu para ver meus papéis de convocação. Leu tudo com cuidado e sentenciou: vá logo porque se você não aparecer por lá hoje, fica insubmisso! Ou seja, você recusa submeter-se a um dos mais sérios mandamentos da vida nacional: servir à sua Pátria!


Fui salvo de insubmissão (naquele época, pior do que essa nossa trivial corrupção - vejam com o Brasil mudou) por um desconhecido. Talvez um anjo da guarda.


***


No ano de 1962, sigo para uma visita rápida à Aldeia do Cocal, morada dos índios gaviões, situada a oeste do médio Rio Tocantins. Queria rever alguns dos meus instrutores na língua e na cultura desses nativos de língua jê que havia estudado em companhia do meu colega Julio Cezar Melatti, entre agosto e novembro do ano anterior.


Chego à aldeia e, depois dos rituais de recepção chorosos que surpreendem e emocionam, encontro um ambiente sombrio. Logo descubro o motivo da tristeza. Cerca de 20 horas antes, uma mulher havia morrido ao ter uma criança. Como não havia na aldeia nenhuma outra amamentadora, a criança - segundo o costume - fora enterrada com a mãe. Fui levado ao túmulo: um montículo de terra coberto com esteiras. Um rapaz comentou que se ouviu por algumas horas o choro da criança. De coração partido ouvi a justificativa: sem leite materno, era mais humano enterrar a criança com a mãe, pois ela morreria de fome numa aldeia sem leite materno. Ademais, não era um ser humano completo naquela cultura onde humanos e animais são feitos gradativamente.


Fiquei agradecido por ter sido poupado de testemunhar o fato. Tivesse chegado antes, teria que tomar uma atitude e lidar com a incomensurabilidade de valores e pontos de vista. Algo maravilhoso em salas de aulas e livros de filosofia, mas - para tornar curta uma longa história - promovedor de dramáticas mudanças de rumos quando acontece ao vivo e em cores.


***


Estou a bordo de um avião nos Estados Unidos, num voo de Chicago para Los Angeles onde vou fazer uma conferência. Tudo no avião desperta confiança e não há como apagar o sentimento de total segurança quando ouço a voz calma e grave dizendo o tradicional "Bom dia, aqui fala o Comandante"... para, em seguida, confirmar a normalidade do tempo. Coloco o cinto, pego um livro e, em seguida, sinto o susto tomar conta de todos. Sinto o sobressalto da freada, olho pela janela e vejo passar como um relâmpago, na pista que iríamos cruzar, um outro avião.


Alguns rezaram, outros explodiram em pasmo. Eu pensei na sorte e num anjo da guarda.


***


Meu filho Renato foi e é um excelente excursionista. Em junho de 1986, dois dos seus amigos e ele saem para explorar uma montanha que coroa a região oceânica de Niterói, onde moro. No final do dia entra um sudoeste com seus ventos fortes e tudo fica coberto de frio e densa neblina. O relógio marca 5, 6 e 7 horas da noite e Renato e seus amigos não chegam. Convocamos o Corpo de Salvamento. Sigo com eles até o local por onde se chega ao alto do morro, situado numa trilha que tem como cenário um cemitério ironicamente chamado de "Parque da Colina". Algo dentro de mim diz que meu filho está morto. Passamos, Celeste e eu, a noite em claro. Ela tricotando como Penélope; eu lutando contra meus pressentimentos como um personagem de Dostoievski. Assim que o dia clareou, o pai de um dos rapazes e eu seguimos para o parque onde os bombeiros nos esperavam. Mal nos falamos quando, por entre as covas, surgem os três rapazes molhados de chuva e sorrindo de felicidade.


Eu reencontro meu filho e, no momento que o vejo, um clarão explode dentro da minha cabeça com as palavras: "Deus existe!". Eu tenho um anjo da guarda.


***


Existem anjos da guarda como dizem os religiosos e os filmes de Frank Capra e Wim Wenders? Um lado meu diz que não, um outro que sim. O problema é que eu não sei em que lado acreditar.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Vamos defender a jornada de 40 horas", diz Patah


ocumento


Autor(es): Raphael Di Cunto
Valor Econômico - 07/10/2011



Patah: "O Kassab fez uma proposta irrecusável de participação no instituto que vai capacitar os filiados, gestão de 50% do fundo partidário e cargos na Executiva"
Presidente da terceira maior central sindical do país, a União Geral dos Trabalhadores (UGT), Ricardo Patah era cobiçado por vários partidos, mas decidiu pelo PSD, cujo núcleo original é formado por empresários de associações comerciais, a começar por seu idealizador, o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab.Patah garante, porém, que o partido defenderá a redução da jornada de trabalho para 40 horas semanais, como parte do acordo para sua filiação, e que irá puxar a legenda da direita para o centro, algo que não conseguiria no PSDB, que, "por mais que tenha o nome de social-democrata, é muito distante do movimento sindical e dos trabalhadores".
Patah diz que a UGT atingiu o teto no movimento sindical e precisa agora participar da vida política, com a candidatura de filiados em 2014 para aumentar a representação no Congresso Nacional. A seguir, a entrevista ao Valor na sede da central sindical.
"Nosso papel é puxar o partido para o centro, ter lideranças de trabalhadores para equilibrar nomes como o da Kátia Abreu"
Valor: A UGT ficou quatro anos sem nenhum partido, com o discurso de que é plural. O que mudou?
Ricardo Patah: Não foi a central que se filiou ao PSD, foi o presidente. Não chamei absolutamente ninguém, apenas uns dez companheiros estão me acompanhando. Sempre criticamos as centrais sindicais que tinham um partido único entre os dirigentes, por entendermos que os partidos têm de estar à disposição das representações sindicais, e não o contrário. Minha filiação ocorreu porque, desde seu segundo congresso nacional [em junho], a UGT resolveu que era hora de participar mais ativamente da política nacional.
Valor: Por que essa postura?
Patah: Depois de quatro anos e com mais de mil sindicatos, chegamos ao teto das mudanças que poderíamos fazer no movimento sindical. Há 15 ou 20 anos era um tabu a discussão política no meio sindical, isso não era admitido em hipótese alguma. Acredito que esse foi um tempo perdido porque as questões relativas ao trabalhador quem tem de resolver é o movimento sindical.
Valor: Então por que a UGT não entrou antes na política?
"O PSDB, por mais que tenha o nome de social democrata, é muito distante do movimento sindical e dos trabalhadores"
Patah: Nossa meta num primeiro momento era atender as exigências da legislação para a UGT ser considerada uma central sindical, como número de sócios, de categorias e participação em várias regiões. Ocorrido isso, precisamos discutir com mais clareza a ideologia que queremos nas políticas públicas. No próximo ano, independente do PSD, estamos incentivando vários companheiros a saírem candidatos.
Valor: Até por outros partidos?
Patah: A UGT começou seu 1º congresso [em 2007] com dois deputados e terminou o segundo com seis, sem ter participado ativamente da eleição. Estamos montando a estrutura para que os nossos integrantes possam se candidatar a deputado estadual ou federal em 2014 e mudar o perfil do Legislativo. Estamos sub-representados no Congresso, onde nem 60 dos 513 deputados são do movimento dos trabalhadores. Mesmo no PT a maioria dos eleitos não é de sindicalistas.
Valor: A UGT foi cortejada por PSDB, PMDB e PTB. Por que o PSD?
Patah: O Kassab foi muito mais insistente. E veio com uma proposta irrecusável, nesta mesa mesmo, e disse "olha, é o seguinte: o grupo da UGT que entrar no partido será responsável pelo instituto que capacitará a sociedade e os trabalhadores para a questão política. Outra coisa: 50% dos recursos do fundo partidário serão instrumentalizados pelos trabalhadores. Vocês terão dois cargos na executiva nacional, dois cargos nas executivas estaduais e legenda para todos os trabalhadores que desejarem participar das eleições de 2012."
Valor: A filiação antecipada, antes do julgamento do registro pela Justiça Eleitoral, não foi um risco?
Patah: O Kassab insistiu que tinha que ser feito uma semana antes do julgamento. Argumentei que o partido ainda nem existia, mas ele falou com convicção. Conversei com os dirigentes das estaduais para explicar que estamos ganhando um aliado importante para defender nossa pauta, como a redução da jornada.
Valor: Mas o partido é formado por muitos empresários, contrários ao projeto de redução da jornada de trabalho para 40 horas semanais.
Patah: Esse foi um dos principais motivos para entrar no PSD. O partido vai defender a nossa bandeira das 40 horas. Isso é um compromisso. Lógico que dentro vai haver reclamação, mas a redução da jornada tem desdobramentos importantíssimos. É a oportunidade de incluir pessoas que estão a margem do trabalho, empregando mais gente e gerando mais recursos que vão beneficiar as próprias empresas.
Valor: As divergências em torno desse projeto serão só as primeiras com os empresários. Como uma central sindical se enquadra num partido com ideologia liberal?
Patah: Entramos no partido para que exista uma participação efetiva dos trabalhadores. Nossa proposta não é dar ao PSD a roupagem de um partido que tem relação com o movimento sindical. É para efetivamente participar, decidir e construir juntos o caminho que adotaremos. É interessante que no mesmo partido que tem um grupo de trabalhadores de esquerda existam lideranças de direita como a [senadora por Goiás e presidente da Confederação Nacional de Agricultura] Kátia Abreu. Por isso, tenho dito que o nosso papel é puxar o partido para o centro, para equilibrar.
Valor: O PSD está encampando a defesa de uma Assembleia Constituinte. O que o senhor acha disso?
Patah: Fiquei surpreso quando o prefeito defendeu isso. Eu disse para ele que a UGT acredita que este é o único jeito de aprovar a reforma política, mas não tinha ouvido nenhuma discussão, até porque participei nesse processo com o prefeito apenas duas ou três vezes. Ele esteve na minha casa num jantar, estive na casa dele num almoço e ele veio a UGT uma vez, mas não chegamos a aprofundar essas questões.
Valor: O PSDB quis filiar o senhor, que preferiu ir para um partido que nem tinha registro. Por que?
Patah: Quando você participa da construção de um partido tem muito mais condição de defender algumas bandeiras. O PSDB é um partido importante, mas, por mais que tenha o nome de social-democrata, é muito distante do movimento sindical e dos trabalhadores, é muito elitizado. O PSD já veio com essa origem, já propôs que quer nascer com essa perspectiva.
Valor: A oposição do PSDB ao Planalto influenciou na decisão?
Patah: O problema é que o último dirigente do PSDB que tinha ligação com os sindicatos foi o [ex-governador de São Paulo] Mário Covas [morto em 2001]. Esta relação foi perdida e é complicado recuperar, mesmo com as tentativas do governador Geraldo Alckmin, que procura dar um olhar social neste mandato, com um sindicalista na Secretaria de Trabalho [o deputado estadual Davi Zaia, PPS, vice-presidente da UGT]. Mas não são todos no PSDB que aceitam as bandeiras dos trabalhadores. Um exemplo é Minas Gerais. Estamos pedindo há muito tempo para o Aécio [Neves, ex-governador e senador] e o Antonio Anastasia [governador] adotarem o piso nacional dos professores, mas eles não atendem. Fica difícil ir para um partido assim.
Valor: O senhor pretende se candidatar em 2014?
Patah: Não tenho vontade. Mas já disse antes que não iria nem ser filiado a partido, e hoje eu estou filiado, por isso não posso falar que nunca serei candidato.
Valor: Mas essa filiação não indica um caminho nesse sentido?
Patah: Precisava da opinião de duas pessoas antes de me filiar. Da minha mulher - minha vida familiar é complicada, com tantos compromissos, mas ela me disse para ir para o PSD - e do [ex-] presidente [Luiz Inácio] Lula [da Silva], que é a pessoa no mundo político com quem eu mais me identifico. Infelizmente, não consegui falar com ele, mas falei com assessores importantes dele, entre eles o prefeito de São Bernardo, Luiz Marinho (PT), que incentivaram.
Valor: Eles o incentivaram?
Patah: Nenhum falou "não vai", mas não estou dizendo que tenham dito "vai". Não houve nenhuma crítica. Acharam importante para mim, como presidente de uma central, ter essa participação política para ir além das limitações do sindicato.
Valor: O prefeito disse quem será o candidato do PSD à Prefeitura de São Paulo?
Patah: Ele fez alguns comentários. Disse que se o José Serra fosse candidato, ele teria um compromisso e o apoiaria. Se fosse o Aloysio Nunes [Ferreira], ele também apoiaria como consequência do acordo com o Serra. Mas se não fosse nenhum deles, o candidato seria o [Guilherme] Afif Domingos, que teve um resultado importantíssimo para o Senado [foi o segundo mais votado em 2006] e é uma pessoa muito coerente com o pensamento construído pelo PSD. Isso foi dito na época, mas não conversamos mais depois.

Vamos defender a jornada de 40 horas", diz Patah


ocumento


Autor(es): Raphael Di Cunto
Valor Econômico - 07/10/2011




Patah: "O Kassab fez uma proposta irrecusável de participação no instituto que vai capacitar os filiados, gestão de 50% do fundo partidário e cargos na Executiva"
Presidente da terceira maior central sindical do país, a União Geral dos Trabalhadores (UGT), Ricardo Patah era cobiçado por vários partidos, mas decidiu pelo PSD, cujo núcleo original é formado por empresários de associações comerciais, a começar por seu idealizador, o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab.Patah garante, porém, que o partido defenderá a redução da jornada de trabalho para 40 horas semanais, como parte do acordo para sua filiação, e que irá puxar a legenda da direita para o centro, algo que não conseguiria no PSDB, que, "por mais que tenha o nome de social-democrata, é muito distante do movimento sindical e dos trabalhadores".
Patah diz que a UGT atingiu o teto no movimento sindical e precisa agora participar da vida política, com a candidatura de filiados em 2014 para aumentar a representação no Congresso Nacional. A seguir, a entrevista ao Valor na sede da central sindical.
"Nosso papel é puxar o partido para o centro, ter lideranças de trabalhadores para equilibrar nomes como o da Kátia Abreu"
Valor: A UGT ficou quatro anos sem nenhum partido, com o discurso de que é plural. O que mudou?
Ricardo Patah: Não foi a central que se filiou ao PSD, foi o presidente. Não chamei absolutamente ninguém, apenas uns dez companheiros estão me acompanhando. Sempre criticamos as centrais sindicais que tinham um partido único entre os dirigentes, por entendermos que os partidos têm de estar à disposição das representações sindicais, e não o contrário. Minha filiação ocorreu porque, desde seu segundo congresso nacional [em junho], a UGT resolveu que era hora de participar mais ativamente da política nacional.
Valor: Por que essa postura?
Patah: Depois de quatro anos e com mais de mil sindicatos, chegamos ao teto das mudanças que poderíamos fazer no movimento sindical. Há 15 ou 20 anos era um tabu a discussão política no meio sindical, isso não era admitido em hipótese alguma. Acredito que esse foi um tempo perdido porque as questões relativas ao trabalhador quem tem de resolver é o movimento sindical.
Valor: Então por que a UGT não entrou antes na política?
"O PSDB, por mais que tenha o nome de social democrata, é muito distante do movimento sindical e dos trabalhadores"
Patah: Nossa meta num primeiro momento era atender as exigências da legislação para a UGT ser considerada uma central sindical, como número de sócios, de categorias e participação em várias regiões. Ocorrido isso, precisamos discutir com mais clareza a ideologia que queremos nas políticas públicas. No próximo ano, independente do PSD, estamos incentivando vários companheiros a saírem candidatos.
Valor: Até por outros partidos?
Patah: A UGT começou seu 1º congresso [em 2007] com dois deputados e terminou o segundo com seis, sem ter participado ativamente da eleição. Estamos montando a estrutura para que os nossos integrantes possam se candidatar a deputado estadual ou federal em 2014 e mudar o perfil do Legislativo. Estamos sub-representados no Congresso, onde nem 60 dos 513 deputados são do movimento dos trabalhadores. Mesmo no PT a maioria dos eleitos não é de sindicalistas.
Valor: A UGT foi cortejada por PSDB, PMDB e PTB. Por que o PSD?
Patah: O Kassab foi muito mais insistente. E veio com uma proposta irrecusável, nesta mesa mesmo, e disse "olha, é o seguinte: o grupo da UGT que entrar no partido será responsável pelo instituto que capacitará a sociedade e os trabalhadores para a questão política. Outra coisa: 50% dos recursos do fundo partidário serão instrumentalizados pelos trabalhadores. Vocês terão dois cargos na executiva nacional, dois cargos nas executivas estaduais e legenda para todos os trabalhadores que desejarem participar das eleições de 2012."
Valor: A filiação antecipada, antes do julgamento do registro pela Justiça Eleitoral, não foi um risco?
Patah: O Kassab insistiu que tinha que ser feito uma semana antes do julgamento. Argumentei que o partido ainda nem existia, mas ele falou com convicção. Conversei com os dirigentes das estaduais para explicar que estamos ganhando um aliado importante para defender nossa pauta, como a redução da jornada.
Valor: Mas o partido é formado por muitos empresários, contrários ao projeto de redução da jornada de trabalho para 40 horas semanais.
Patah: Esse foi um dos principais motivos para entrar no PSD. O partido vai defender a nossa bandeira das 40 horas. Isso é um compromisso. Lógico que dentro vai haver reclamação, mas a redução da jornada tem desdobramentos importantíssimos. É a oportunidade de incluir pessoas que estão a margem do trabalho, empregando mais gente e gerando mais recursos que vão beneficiar as próprias empresas.
Valor: As divergências em torno desse projeto serão só as primeiras com os empresários. Como uma central sindical se enquadra num partido com ideologia liberal?
Patah: Entramos no partido para que exista uma participação efetiva dos trabalhadores. Nossa proposta não é dar ao PSD a roupagem de um partido que tem relação com o movimento sindical. É para efetivamente participar, decidir e construir juntos o caminho que adotaremos. É interessante que no mesmo partido que tem um grupo de trabalhadores de esquerda existam lideranças de direita como a [senadora por Goiás e presidente da Confederação Nacional de Agricultura] Kátia Abreu. Por isso, tenho dito que o nosso papel é puxar o partido para o centro, para equilibrar.
Valor: O PSD está encampando a defesa de uma Assembleia Constituinte. O que o senhor acha disso?
Patah: Fiquei surpreso quando o prefeito defendeu isso. Eu disse para ele que a UGT acredita que este é o único jeito de aprovar a reforma política, mas não tinha ouvido nenhuma discussão, até porque participei nesse processo com o prefeito apenas duas ou três vezes. Ele esteve na minha casa num jantar, estive na casa dele num almoço e ele veio a UGT uma vez, mas não chegamos a aprofundar essas questões.
Valor: O PSDB quis filiar o senhor, que preferiu ir para um partido que nem tinha registro. Por que?
Patah: Quando você participa da construção de um partido tem muito mais condição de defender algumas bandeiras. O PSDB é um partido importante, mas, por mais que tenha o nome de social-democrata, é muito distante do movimento sindical e dos trabalhadores, é muito elitizado. O PSD já veio com essa origem, já propôs que quer nascer com essa perspectiva.
Valor: A oposição do PSDB ao Planalto influenciou na decisão?
Patah: O problema é que o último dirigente do PSDB que tinha ligação com os sindicatos foi o [ex-governador de São Paulo] Mário Covas [morto em 2001]. Esta relação foi perdida e é complicado recuperar, mesmo com as tentativas do governador Geraldo Alckmin, que procura dar um olhar social neste mandato, com um sindicalista na Secretaria de Trabalho [o deputado estadual Davi Zaia, PPS, vice-presidente da UGT]. Mas não são todos no PSDB que aceitam as bandeiras dos trabalhadores. Um exemplo é Minas Gerais. Estamos pedindo há muito tempo para o Aécio [Neves, ex-governador e senador] e o Antonio Anastasia [governador] adotarem o piso nacional dos professores, mas eles não atendem. Fica difícil ir para um partido assim.
Valor: O senhor pretende se candidatar em 2014?
Patah: Não tenho vontade. Mas já disse antes que não iria nem ser filiado a partido, e hoje eu estou filiado, por isso não posso falar que nunca serei candidato.
Valor: Mas essa filiação não indica um caminho nesse sentido?
Patah: Precisava da opinião de duas pessoas antes de me filiar. Da minha mulher - minha vida familiar é complicada, com tantos compromissos, mas ela me disse para ir para o PSD - e do [ex-] presidente [Luiz Inácio] Lula [da Silva], que é a pessoa no mundo político com quem eu mais me identifico. Infelizmente, não consegui falar com ele, mas falei com assessores importantes dele, entre eles o prefeito de São Bernardo, Luiz Marinho (PT), que incentivaram.
Valor: Eles o incentivaram?
Patah: Nenhum falou "não vai", mas não estou dizendo que tenham dito "vai". Não houve nenhuma crítica. Acharam importante para mim, como presidente de uma central, ter essa participação política para ir além das limitações do sindicato.
Valor: O prefeito disse quem será o candidato do PSD à Prefeitura de São Paulo?
Patah: Ele fez alguns comentários. Disse que se o José Serra fosse candidato, ele teria um compromisso e o apoiaria. Se fosse o Aloysio Nunes [Ferreira], ele também apoiaria como consequência do acordo com o Serra. Mas se não fosse nenhum deles, o candidato seria o [Guilherme] Afif Domingos, que teve um resultado importantíssimo para o Senado [foi o segundo mais votado em 2006] e é uma pessoa muito coerente com o pensamento construído pelo PSD. Isso foi dito na época, mas não conversamos mais depois.