DEMÉTRIO MAGNOLI e ADRIANO LUCCHESI
O Estado de S.Paulo - 23/06/11
"Há uma percepção crescente de que a aritmética da Copa do Mundo é um tanto instável", escreveu o Times de Johannesburgo um mês depois do triunfo da Espanha nos campos sul-africanos. "Temos estádios em excesso para nosso próprio uso. Talvez devêssemos exportar estádios para o Brasil, que fará sua Copa do Mundo?". A constatação estava certa; a sugestão, errada. O Brasil, país do futebol, terá o mesmo problema que a África do Sul, país do rúgbi. Aqui, como lá, a festa macabra da Fifa é um sorvedouro implacável de recursos públicos.
Mafiosos usam a linguagem da máfia. Confrontado com evidências de corrupção na organização que dirige, Sepp Blatter avisou que tais "dificuldades" seriam solucionadas "dentro de nossa família". As rendas de radiodifusão e marketing da Fifa ultrapassaram os US$ 4 bilhões no ciclo quadrienal encerrado com a Copa da África do Sul. O navio pirata já se moveu para o Brasil, onde a Fifa articula com seus sócios a rapina seguinte.
O brasileiro João Havelange planejou a globalização do futebol, expandindo a Copa para 24 seleções, em 1982, e 32, em 1998. Blatter concluiu a transformação, rompendo a regra de rodízio de sedes entre Europa e América. Como constatou a Sports Industry Magazine, sob um processo milionário de licitação do direito de hospedagem, as ofertas nacionais assumiram "a forma de promessas de mais e mais pródigos novos estádios para os jogos e novos hotéis luxuosos para uso dos dirigentes da Fifa e de fãs endinheirados". A Copa é um roubo: as despesas são pagas com dinheiro público, de modo que a licitação "constitui, de fato, um esquema de extração de renda concebido para separar os contribuintes de seus tributos".
O saque decorre da conivência de governos em busca de prestígio e de negociantes em busca de oportunidades. Na Europa a rapinagem é circunscrita por uma cultura política menos permeável à corrupção e pela existência prévia de modernas infraestruturas hoteleiras, esportivas e de transportes. Por isso a Fifa seleciona seus próximos alvos segundo critérios oportunistas de vulnerabilidade. Encaixam-se no perfil África do Sul e Brasil, países emergentes que ambicionam desfilar no círculo central do mundo, assim como a semiautoritária Rússia, sede de 2018, e a monarquia absoluta do Qatar, que bateu a Grã-Bretanha na disputa por 2022.
Antes das Copas, consultores associados às redes mafiosas produzem radiosas profecias sobre os efeitos econômicos do evento. Depois, quando emergem os resultados efetivos, eles já estão entregues à fabricação de ilusões no porto seguinte. A África do Sul gastou US$ 4,9 bilhões em estádios e infraestruturas, que gerariam rendas imediatas de US$ 930 milhões derivadas do afluxo de 450 mil turistas, mas só arrecadou US$ 527 milhões dos 309 mil turistas que de fato entraram no país.
O verdadeiro legado positivo da Copa de 2010 foi a mudança de paradigma no sistema de transporte público urbano, pela introdução de ônibus, em corredores dedicados, e do Gautrain, trem rápido de conexão com o aeroporto de Johannesburgo. Os ônibus enfrentavam selvagem resistência dos sindicatos de operadores de peruas, superada pelo imperativo urgente do evento esportivo. O Gautrain serve exclusivamente à classe média, com meios para adquirir bilhetes cujos preços excluem a população pobre. Mas o argumento de que sem uma Copa, não se realizariam obras necessárias de mobilidade urbana equivale a uma confissão de incompetência da elite dirigente.
Eventos esportivos globais tendem a gerar ruínas urbanas, mesmo em países mais inclinados a zelar pelo interesse público. Japoneses e sul-coreanos ainda subsidiam a manutenção das arenas da Copa de 2002. As dívidas contraídas para as obras da Olimpíada de Atenas e da Eurocopa de 2004 aceleraram a marcha rumo à falência da Grécia e de Portugal. A África do Sul incinerou US$ 2 bilhões na construção e reforma das dez arenas da Copa. Todas, com exceção do Soccer City, de Johannesburgo, usado para jogos de rúgbi e shows, figuram hoje como monumentos inúteis, conservados pela injeção de dinheiro público. A Cidade do Cabo paga US$ 4,5 milhões ao ano pela manutenção da arena de Green Point, erguida ao custo fabuloso de US$ 650 milhões e usada apenas 12 vezes depois da Copa. Lá se desenrola um melancólico debate sobre a alternativa de demolição do icônico estádio, emoldurado pela magnífica Table Mountain.
O Brasil decidiu ultrapassar a África do Sul. Aqui, serão 12 arenas, a um custo convenientemente incerto, mas bastante superior aos dispêndios sul-africanos. As futuras ruínas já drenam vultosos recursos públicos, mal escondidos sob as rubricas de empréstimos do BNDES e subsídios estaduais e municipais. O governo paulista prometeu não queimar o dinheiro do povo na festa macabra da Fifa, mas o alcaide Gilberto Kassab assinou um cheque público de US$ 265 milhões destinado ao estádio do Corinthians. São 16 centros educacionais, para 80 mil estudantes, sacrificados por antecipação no altar de oferendas às máfias da Copa. O gesto de desprezo pelas necessidades verdadeiras dos contribuintes reproduz iniciativas semelhantes adotadas, Brasil afora, por governos estaduais e municipais.
Segundo a lógica perversa do neopatriotismo, a Copa é um artigo de valor só mensurável sob o prisma da restauração do "orgulho nacional". De fato, porém, a condição prévia para a Copa é a cessão temporária da soberania nacional à Fifa, que assume funções de governo interventor por meio do seu Comitê Local. O poder substituto, nomeado por Blatter, já obteve o compromisso federal de virtual abolição da Lei de Licitações e pressiona as autoridades locais pela revisão das regras de concorrência pública. Malemolentes, ao som dos acordes de um verde-amarelismo reminiscente da ditadura militar, cedemos os bens comuns à avidez dos piratas.
sexta-feira, 24 de junho de 2011
quarta-feira, 22 de junho de 2011
Se união gay é cidadania,por que poligamia não?
13/6/2011 19:55, Por CMI Brasil
Por Cimberley Cáspio 13/06/2011 às 22:26
Se os gays conquistaram direitos oficiais de cidadania,como até receber pensão por morte do companheiro;e já lutam até pra ter o direito oficial de adoção de crianças,direitos que para nós,brasileiros,são inéditos no país,por que o governo mantém patriarcas e esposas de famílias polígamas,como marginais?Sem direitos oficiais de cidadania?
Os gays conquistaram até agora, direitos públicos de cidadania que em outros tempos jamais se poderia pensar.Porém a poligamia é crime no Brasil.Aí é que a coisa fica esquisita!Já que o país passou a tolerar e agora os direitos dos homossexuais são legais,por que a poligamia continua como crime?O hétero não pode ter o direito de ter quantas famílias quiser,quantas esposas assim ele se achar na condição de ter?Viajei há pouco pro nordeste e pude observar que em algumas cidades do interior,ali,se pode observar homens vivendo com duas,ou mais esposas,porém tais esposas não tem direitos oficiais,porque a poligamia no Brasil é crime.
Se os gays conquistaram direitos oficiais de cidadania,como até receber pensão por morte do companheiro;e já lutam até pra ter o direito oficial de adoção de crianças,direitos que para nós,brasileiros,são inéditos no país,por que o governo mantém patriarcas e esposas de famílias polígamas,como marginais?Sem direitos oficiais de cidadania?A poligamia além de ser uma prática antiga ,tem suas vantagens:a mais extrema em todas elas,é quando um dos cônjuges,ou outro membro da família, baixa hospital.Não só as outras esposas quantos os filhos,se reservam no acompanhamento do convalecido na enfermaria,dividindo assim,os sacrifícios,que em uma família monogâmica de 2 a 3 filhos,fica exaustivo.Pois alguém tem continuar a cuidar do trabalho,manutenção e sustento da família,independente da condição do membro da família doente no hospital.Só quem já passou por tal experiência em hospital,sabe o que quero dizer.
A outra vantagem é que as mulheres que aceitam voluntáriamente as regras do patriarca,conseguem se adaptar e conviver harmonicamente.Pois para que tudo siga de maneira perfeita,a aceitação voluntária das mulheres,é primordial.Caso contrário,o patriarca não desposa tal mulher.
Outra vantagem,é a proteção.Todos os membros se protegem mutuamente e não há solidão.Mesmo que o patriarca não esteja em casa por qualquer motivo,os membros de tal família,sempre estarão assistidos,tanto pelas esposas,quanto pelos filhos…se a união gay está legalizada e tolerada,por que a poligamia continua discriminada e marginalizada?Não é justo!Se um gay pode receber pensão por morte do companheiro,por que uma esposa polígama,e vista como criminosa? Se o gay conquistou direitos oficiais de cidadão,um patriarca polígamo também tem o direito de ser visto como um cidadão,inclusive suas esposas e filhos.
É lógico que há que ter regras,como por exemplo:para a formação de novas famílias,o patriarca,teria que ter no mínimo,30 anos de idade e a nova esposa 21.E o governo monitoraria tais famílias,observando se há tratamento desigual por parte do patriarca a alguma família,o que se fosse confirmado,tal patriarca,sofreria as sanções da lei.
Dessa forma,bloquearia a intromissão religiosa na lei.Pois onde a religião se mete,só causa confusão na melhor das hipóteses.Porém tais famílias poderiam ser religiosas,ou não.A religião,ou não das famílias,não importaria,desde que a lei fosse praticada e seguida a risca.
Se o patriarca morresse,tais esposas estariam livres para contraírem novo matrimônio,ou não;fosse matrimônio polígamo,ou monogâmico,sem perder direitos conquistados no matrimônio anterior.
Numa família monogâmica,o sacrifício de uma esposa dar a luz a filhos,como 5,6,7,ou mais…como era antigamente,era letal;e muitas morriam no parto,enquanto que o patriarca,seguia a vida viúvo trabalhando e educando os filhos daquela que morreu.Causando assim,depressão,tristeza e solidão.Quem já viveu essa experiência,sabe o quanto isso é triste e arrazador.E aí,quando o pai,fica doente e morre,os filhos ficam sozinhos e mesmo já estando adultos,não conseguem se refazer psicológicamente da falta dos pais.Não é fácil…é muito difícil soportar.O que numa família polígama,tal sofrimento é muito bem soportado,devido a ausência da solidão e a harmonia com os demais membros e irmãos.
É um tema que precisa ser debatido.Há famílias vivendo de forma polígama no nordeste e não é justo que sejam marginalizadas e não tenham direitos oficiais de cidadania.
Por Cimberley Cáspio 13/06/2011 às 22:26
Se os gays conquistaram direitos oficiais de cidadania,como até receber pensão por morte do companheiro;e já lutam até pra ter o direito oficial de adoção de crianças,direitos que para nós,brasileiros,são inéditos no país,por que o governo mantém patriarcas e esposas de famílias polígamas,como marginais?Sem direitos oficiais de cidadania?
Os gays conquistaram até agora, direitos públicos de cidadania que em outros tempos jamais se poderia pensar.Porém a poligamia é crime no Brasil.Aí é que a coisa fica esquisita!Já que o país passou a tolerar e agora os direitos dos homossexuais são legais,por que a poligamia continua como crime?O hétero não pode ter o direito de ter quantas famílias quiser,quantas esposas assim ele se achar na condição de ter?Viajei há pouco pro nordeste e pude observar que em algumas cidades do interior,ali,se pode observar homens vivendo com duas,ou mais esposas,porém tais esposas não tem direitos oficiais,porque a poligamia no Brasil é crime.
Se os gays conquistaram direitos oficiais de cidadania,como até receber pensão por morte do companheiro;e já lutam até pra ter o direito oficial de adoção de crianças,direitos que para nós,brasileiros,são inéditos no país,por que o governo mantém patriarcas e esposas de famílias polígamas,como marginais?Sem direitos oficiais de cidadania?A poligamia além de ser uma prática antiga ,tem suas vantagens:a mais extrema em todas elas,é quando um dos cônjuges,ou outro membro da família, baixa hospital.Não só as outras esposas quantos os filhos,se reservam no acompanhamento do convalecido na enfermaria,dividindo assim,os sacrifícios,que em uma família monogâmica de 2 a 3 filhos,fica exaustivo.Pois alguém tem continuar a cuidar do trabalho,manutenção e sustento da família,independente da condição do membro da família doente no hospital.Só quem já passou por tal experiência em hospital,sabe o que quero dizer.
A outra vantagem é que as mulheres que aceitam voluntáriamente as regras do patriarca,conseguem se adaptar e conviver harmonicamente.Pois para que tudo siga de maneira perfeita,a aceitação voluntária das mulheres,é primordial.Caso contrário,o patriarca não desposa tal mulher.
Outra vantagem,é a proteção.Todos os membros se protegem mutuamente e não há solidão.Mesmo que o patriarca não esteja em casa por qualquer motivo,os membros de tal família,sempre estarão assistidos,tanto pelas esposas,quanto pelos filhos…se a união gay está legalizada e tolerada,por que a poligamia continua discriminada e marginalizada?Não é justo!Se um gay pode receber pensão por morte do companheiro,por que uma esposa polígama,e vista como criminosa? Se o gay conquistou direitos oficiais de cidadão,um patriarca polígamo também tem o direito de ser visto como um cidadão,inclusive suas esposas e filhos.
É lógico que há que ter regras,como por exemplo:para a formação de novas famílias,o patriarca,teria que ter no mínimo,30 anos de idade e a nova esposa 21.E o governo monitoraria tais famílias,observando se há tratamento desigual por parte do patriarca a alguma família,o que se fosse confirmado,tal patriarca,sofreria as sanções da lei.
Dessa forma,bloquearia a intromissão religiosa na lei.Pois onde a religião se mete,só causa confusão na melhor das hipóteses.Porém tais famílias poderiam ser religiosas,ou não.A religião,ou não das famílias,não importaria,desde que a lei fosse praticada e seguida a risca.
Se o patriarca morresse,tais esposas estariam livres para contraírem novo matrimônio,ou não;fosse matrimônio polígamo,ou monogâmico,sem perder direitos conquistados no matrimônio anterior.
Numa família monogâmica,o sacrifício de uma esposa dar a luz a filhos,como 5,6,7,ou mais…como era antigamente,era letal;e muitas morriam no parto,enquanto que o patriarca,seguia a vida viúvo trabalhando e educando os filhos daquela que morreu.Causando assim,depressão,tristeza e solidão.Quem já viveu essa experiência,sabe o quanto isso é triste e arrazador.E aí,quando o pai,fica doente e morre,os filhos ficam sozinhos e mesmo já estando adultos,não conseguem se refazer psicológicamente da falta dos pais.Não é fácil…é muito difícil soportar.O que numa família polígama,tal sofrimento é muito bem soportado,devido a ausência da solidão e a harmonia com os demais membros e irmãos.
É um tema que precisa ser debatido.Há famílias vivendo de forma polígama no nordeste e não é justo que sejam marginalizadas e não tenham direitos oficiais de cidadania.
terça-feira, 21 de junho de 2011
segunda-feira, 13 de junho de 2011
A filosofia dos professores multiuso no país
Autor(es): agência o globo:Demétrio Weber e Letícia Lins
O Globo - 13/06/2011
Déficit de profissionais no ensino médio é agravado pela inclusão de novas disciplinas, como sociologia e música
BRASÍLIA e RECIFE. Professora há 22 anos e licenciada em história, a pernambucana Letícia Oliveira de Assunção Nascimento é hoje um dos muitos professores multiuso existentes no país: dá aulas não só de história, mas também de filosofia e sociologia no escola estadual Leonor Porto, em São Lourenço da Mata, a 22 quilômetros de Recife:
- Ensino também em outros colégios, e perco tempo pesquisando e estudando filosofia e sociologia, quando poderia estar planejando melhor minhas aulas de história. A qualidade do ensino cai muito.
Leis aprovadas pelo Congresso acrescentaram quatro disciplinas aos currículos do ensino médio nos últimos anos: filosofia, sociologia, música e espanhol. Mas, se já faltam professores para disciplinas tradicionais como física e química, para as novas o problema é pior ainda.
Sem professores de sociologia e filosofia, secretarias de Educação ouvidas pelo GLOBO informaram que recorrem a docentes de outras áreas, como história e pedagogia. É o que ocorre em estados como Rio de Janeiro, Minas Gerais, Espírito Santo, Mato Grosso do Sul, Distrito Federal e Rio Grande do Sul. Há ainda contratações em regime temporário, em estados que não fizeram concursos públicos específicos.
Diretora do MEC admite déficit
A diretora de Currículos e Educação Integral do Ministério da Educação (MEC), Jaqueline Moll, admite que faltam professores para as novas matérias, incluindo música e espanhol. Mas defende a atuação do Congresso, afirmando que há esforço conjunto de União, estados e municípios para reverter o quadro:
- Nada em educação ocorre de um dia para o outro. As leis nascem de uma vontade, uma necessidade e vão fazendo com que a realidade seja construída.
Filosofia e sociologia são obrigatórias e devem ser oferecidas separadamente. Música, também obrigatória, foi incluída como novo componente de artes, dividindo a carga horária com artes plásticas e cênicas. Espanhol só é obrigatório em escolas, que têm de oferecê-lo. A matrícula é opcional.
A lei que torna o ensino de filosofia e sociologia obrigatório foi aprovada em 2008. O Conselho Nacional de Educação orientou que a oferta se iniciasse no 1º ano, em 2009; no 2º, em 2010; e no 3º, em 2011.
Dados do Inep, órgão do MEC, mostram que, com base no censo escolar de 2010, 84% dos alunos frequentavam escolas com filosofia na grade; em 2008, eram 49%. No caso de sociologia, o percentual estava em 80%; e, em 2008, era de 29%. Na rede estadual, o percentual em 2010 era 85% em filosofia e 82,5% em sociologia. Curiosamente, os índices de oferta das duas disciplinas eram menores na rede privada: 78% (filosofia) e 69% (sociologia).
A lei que tornou o ensino de música obrigatório foi aprovada em 2008, com prazo de três anos para implementação, e vale para toda a educação básica. Segundo o Inep, só 59% dos alunos de ensino médio tinham artes no currículo ano passado. Em tese, o percentual de turmas com ensino de música seria menor. O Inep diz também que só 41% das escolas ofereciam espanhol, obrigatório desde 2005.
Em nota, a Secretaria de Mato Grosso do Sul diz que a falta de professores atinge todo o país. A titular da pasta, Maria Nilene Badeca da Costa, é presidente do Conselho Nacional de Secretários de Educação (Consed).
Educadores divergem sobre a conveniência de novas disciplinas. Do Conselho Nacional de Educação, onde foi relator das recém-aprovadas Diretrizes Nacionais do Ensino Médio, José Fernandes de Lima critica:
- Uma coisa é o Congresso definir que determinado assunto tem de ser tratado nas escolas. Outra é dizer que temos de criar uma disciplina, o que requer profissional com licenciatura na área. Vai contra a ideia da LDB (Lei de Diretrizes de Bases da Educação Nacional), de que as escolas precisam organizar seu projeto.
O presidente da Federação dos Trabalhadores em Educação de Mato Grosso do Sul, Jaime Teixeira, considerou positiva a inclusão de filosofia e sociologia no currículo. Mas afirma que a falta de professores levou a rede sul-matogrossense a chamar até universitários para lecionar:
- Escola não é só para aprender a ler e escrever. É para aprender a pensar.
O Globo - 13/06/2011
Déficit de profissionais no ensino médio é agravado pela inclusão de novas disciplinas, como sociologia e música
BRASÍLIA e RECIFE. Professora há 22 anos e licenciada em história, a pernambucana Letícia Oliveira de Assunção Nascimento é hoje um dos muitos professores multiuso existentes no país: dá aulas não só de história, mas também de filosofia e sociologia no escola estadual Leonor Porto, em São Lourenço da Mata, a 22 quilômetros de Recife:
- Ensino também em outros colégios, e perco tempo pesquisando e estudando filosofia e sociologia, quando poderia estar planejando melhor minhas aulas de história. A qualidade do ensino cai muito.
Leis aprovadas pelo Congresso acrescentaram quatro disciplinas aos currículos do ensino médio nos últimos anos: filosofia, sociologia, música e espanhol. Mas, se já faltam professores para disciplinas tradicionais como física e química, para as novas o problema é pior ainda.
Sem professores de sociologia e filosofia, secretarias de Educação ouvidas pelo GLOBO informaram que recorrem a docentes de outras áreas, como história e pedagogia. É o que ocorre em estados como Rio de Janeiro, Minas Gerais, Espírito Santo, Mato Grosso do Sul, Distrito Federal e Rio Grande do Sul. Há ainda contratações em regime temporário, em estados que não fizeram concursos públicos específicos.
Diretora do MEC admite déficit
A diretora de Currículos e Educação Integral do Ministério da Educação (MEC), Jaqueline Moll, admite que faltam professores para as novas matérias, incluindo música e espanhol. Mas defende a atuação do Congresso, afirmando que há esforço conjunto de União, estados e municípios para reverter o quadro:
- Nada em educação ocorre de um dia para o outro. As leis nascem de uma vontade, uma necessidade e vão fazendo com que a realidade seja construída.
Filosofia e sociologia são obrigatórias e devem ser oferecidas separadamente. Música, também obrigatória, foi incluída como novo componente de artes, dividindo a carga horária com artes plásticas e cênicas. Espanhol só é obrigatório em escolas, que têm de oferecê-lo. A matrícula é opcional.
A lei que torna o ensino de filosofia e sociologia obrigatório foi aprovada em 2008. O Conselho Nacional de Educação orientou que a oferta se iniciasse no 1º ano, em 2009; no 2º, em 2010; e no 3º, em 2011.
Dados do Inep, órgão do MEC, mostram que, com base no censo escolar de 2010, 84% dos alunos frequentavam escolas com filosofia na grade; em 2008, eram 49%. No caso de sociologia, o percentual estava em 80%; e, em 2008, era de 29%. Na rede estadual, o percentual em 2010 era 85% em filosofia e 82,5% em sociologia. Curiosamente, os índices de oferta das duas disciplinas eram menores na rede privada: 78% (filosofia) e 69% (sociologia).
A lei que tornou o ensino de música obrigatório foi aprovada em 2008, com prazo de três anos para implementação, e vale para toda a educação básica. Segundo o Inep, só 59% dos alunos de ensino médio tinham artes no currículo ano passado. Em tese, o percentual de turmas com ensino de música seria menor. O Inep diz também que só 41% das escolas ofereciam espanhol, obrigatório desde 2005.
Em nota, a Secretaria de Mato Grosso do Sul diz que a falta de professores atinge todo o país. A titular da pasta, Maria Nilene Badeca da Costa, é presidente do Conselho Nacional de Secretários de Educação (Consed).
Educadores divergem sobre a conveniência de novas disciplinas. Do Conselho Nacional de Educação, onde foi relator das recém-aprovadas Diretrizes Nacionais do Ensino Médio, José Fernandes de Lima critica:
- Uma coisa é o Congresso definir que determinado assunto tem de ser tratado nas escolas. Outra é dizer que temos de criar uma disciplina, o que requer profissional com licenciatura na área. Vai contra a ideia da LDB (Lei de Diretrizes de Bases da Educação Nacional), de que as escolas precisam organizar seu projeto.
O presidente da Federação dos Trabalhadores em Educação de Mato Grosso do Sul, Jaime Teixeira, considerou positiva a inclusão de filosofia e sociologia no currículo. Mas afirma que a falta de professores levou a rede sul-matogrossense a chamar até universitários para lecionar:
- Escola não é só para aprender a ler e escrever. É para aprender a pensar.
quinta-feira, 9 de junho de 2011
Pra pobre analfabeto... tae kwon do!
Autor(es): Gustavo Ioschpe
Veja - 06/06/2011
Em um livro publicado por mim em 2004, idealizei um índice cuja aplicação permite dar notas de zero a 10 às escolas públicas com base em informações sobre o aprendizado dos alunos e suas taxas de aprovação medidas pelo Ideb, o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica. No mês de maio, tive a oportunidade de acompanhar uma equipe do JN no Ar - Blitz da Educação. Em cada cidade, escolhida por sorteio, visitei com a equipe do Jornal Nacional a pior e a melhor escola pública classificadas segundo aquele índice. Passamos por Novo Hamburgo (RS), Vitória (ES), Caucaia (CE), Goiânia (GO) e Belém (PA). Não se pode dizer que essas dez escolas visitadas são uma amostra representativa da educação brasileira, visto que a seleção não foi totalmente aleatória, mas creio que se aproximam bastante do quadro geral do país. As visitas não trouxeram nenhuma grande surpresa para quem é familiarizado com a educação brasileira, mas adicionam uma concretude que às vezes falta nas pesquisas citadas nestas páginas. Por isso, gostaria de compartilhar alguns aprendizados e experiências, resumidos abaixo.
A importância da direção/gestão – Quando falamos em educação, focamos na figura do professor, que é o ator principal do processo e é quem tem contato direto com os alunos. Mas, assim como em qualquer organização humana, por trás dos talentos individuais é preciso haver uma gestão que oriente os esforços e dê um sentido ao todo. Nas escolas, é o diretor. É impressionante como é possível notar grandes diferenças entre as escolas através de pequenas diferenças de discurso dos diretores. Nas escolas ruins, os diretores normalmente não sabiam quantos alunos estudavam lá. Diziam coisas como “uns 700”, “na faixa de 350”. Nas escolas boas, o diretor sabia o número exato e respondia sem titubear. Nas escolas ruins, há uma certa frouxidão sobre aquilo que deve ser ensinado e como. Os diretores, invocando a “democratização” ou o “processo coletivo” da “construção do saber”, deixam os professores à vontade para que definam o que é melhor para seus alunos. Nas escolas boas, há disciplina – sem repressão, apenas ordenamento. Nas ruins, é uma balbúrdia.
Envolvimento dos pais – As escolas boas se esforçam para atrair os pais para dentro da rotina escolar. Na escola de Novo Hamburgo alunos (E.M. Jacob Kroeff Neto), as reuniões com pais eram marcadas para as 7 da noite. Muitos pais faltavam. A diretora ligou para os faltantes para descobrir o porquê da ausência. Ouviu que as reuniões eram feitas muito cedo, não dava tempo de chegar do trabalho. As reuniões então passaram a acontecer uma hora mais tarde. O quórum aumentou. Na escola boa de Goiânia (E.M. Francisco Bibiano de Carvalho), a diretora espera os pais todos os dias, no portão da escola, tanto na entrada quanto na saída dos alunos, e conversa com quem ali estiver. Desde o 1º ano, a família recebe um boletim com notas e comentários extensos ao fim de cada bimestre. Na escola ruim de Belém, ao contrário, há um total descaso para com os pais. As reuniões são marcadas durante a manhã ou à tarde, horários impossíveis para qualquer trabalhador. A direção e os professores comunicam eventuais problemas dos filhos por bilhetes – mesmo sabendo que a maioria dos pais é de semianalfabetos. Cumprem os rituais, mas é só.
Cultura do sucesso versus tolerância ao fracasso – Já dizia Ambrose Bierce que o dicionário é o único lugar em que sucesso vem antes de trabalho. As boas escolas obtêm desempenhos mais altos porque trabalham duro para isso. E o primeiro passo dessa caminhada é ter a expectativa do sucesso, com metas ambiciosas. Os diretores e professores das escolas que funcionam esperam que seus alunos aprendam. Quando o aluno não aprende, eles chamam os pais, criam aulas de reforço, insistem. Chamam para si a responsabilidade. Já as escolas fracassadas aceitam o insucesso como normal – quando não põem a responsabilidade sobre um ente externo, fora do controle da escola. Pode ser “o sistema”, os políticos, os pais, os alunos ou a sociedade. Nunca é com eles. A terceirização da responsabilidade produz indolência. Na escola com Ideb baixo de Goiânia, os alunos estão praticamente analfabetos – no 4° ano! Perguntei se faziam algum trabalho de reforço. “Sim, três horas diárias!”, disse-me orgulhosa a diretora. Pedi para ver a aula. Ela era ministrada em área semicoberta por um tatame e compartilhada pelos alunos com alguns instrumentos musicais. Não havia lousa nem material didático. Perguntei pelo arranjo peculiar e me disseram que metade do tempo de aula era usada para lições de tae kwon do. Devotar metade da aula a atividade esportiva, com alunos analfabetos no 4° ano, é uma confissão de abandono.
Uso do material didático – Nas boas escolas, professor e alunos usam o material didático como apoio, o que dá uma organização ao processo de ensino. Na escola boa de Caucaia (E.M. Celina Sá Morais), usa-se um material de um programa do governo do estado para alfabetizar alunos na idade certa. Professor e alunos são conduzidos por um caminho que dá certo, sem a necessidade de reinventar a roda a cada dia. Nas más escolas, ou o material didático não é usado ou o professor o utiliza para substituir a aula. Na mesma Caucaia, na escola ruim, a atividade dos alunos consistia em ler o livro didático e responder às perguntas do próprio livro. A professora ficava ali olhando. Na escola ruim de Novo Hamburgo, o professor se limitava a entregar jornais aos alunos. A menina sentada ao meu lado ficou olhando as propagandas de clínicas de emagrecimento...
Monitoramento e avaliação – Nas boas escolas, há avaliação constante e formal.
O poder do bom professor – É impressionante a diferença que um professor faz, mesmo nas condições mais precárias. Em Vitória, entrei na turma do 1º ano, de uma professora chamada Alecsandra. Ela escrevia na lousa em ótima caligrafia. Falava baixo e atenciosamente com os alunos. Engajava-os, fazendo perguntas a todos. Com três meses de aula, muitos já estavam demonstrando sólidos sinais de alfabetização. Qualquer professor que culpe “o sistema” deveria passar por uma aula assim para voltar a acreditar em si mesmo.
PS. As escolas públicas do país deveriam ser obrigadas por lei a pôr seu Ideb em placa de 1 metro quadrado ao lado da porta principal, em uma escala gráfica mostrando sua nota de zero a 10. Na placa deveria aparecer também o Ideb médio do município e do estado. A maioria dos pais e professores hoje não sabe se a escola do filho é boa ou ruim, e, se esperarmos que consultem o site do MEC, seremos o país do futuro por mais muitas gerações. Mande um e-mail para seu deputado e exija essa lei.
Veja - 06/06/2011
Em um livro publicado por mim em 2004, idealizei um índice cuja aplicação permite dar notas de zero a 10 às escolas públicas com base em informações sobre o aprendizado dos alunos e suas taxas de aprovação medidas pelo Ideb, o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica. No mês de maio, tive a oportunidade de acompanhar uma equipe do JN no Ar - Blitz da Educação. Em cada cidade, escolhida por sorteio, visitei com a equipe do Jornal Nacional a pior e a melhor escola pública classificadas segundo aquele índice. Passamos por Novo Hamburgo (RS), Vitória (ES), Caucaia (CE), Goiânia (GO) e Belém (PA). Não se pode dizer que essas dez escolas visitadas são uma amostra representativa da educação brasileira, visto que a seleção não foi totalmente aleatória, mas creio que se aproximam bastante do quadro geral do país. As visitas não trouxeram nenhuma grande surpresa para quem é familiarizado com a educação brasileira, mas adicionam uma concretude que às vezes falta nas pesquisas citadas nestas páginas. Por isso, gostaria de compartilhar alguns aprendizados e experiências, resumidos abaixo.
A importância da direção/gestão – Quando falamos em educação, focamos na figura do professor, que é o ator principal do processo e é quem tem contato direto com os alunos. Mas, assim como em qualquer organização humana, por trás dos talentos individuais é preciso haver uma gestão que oriente os esforços e dê um sentido ao todo. Nas escolas, é o diretor. É impressionante como é possível notar grandes diferenças entre as escolas através de pequenas diferenças de discurso dos diretores. Nas escolas ruins, os diretores normalmente não sabiam quantos alunos estudavam lá. Diziam coisas como “uns 700”, “na faixa de 350”. Nas escolas boas, o diretor sabia o número exato e respondia sem titubear. Nas escolas ruins, há uma certa frouxidão sobre aquilo que deve ser ensinado e como. Os diretores, invocando a “democratização” ou o “processo coletivo” da “construção do saber”, deixam os professores à vontade para que definam o que é melhor para seus alunos. Nas escolas boas, há disciplina – sem repressão, apenas ordenamento. Nas ruins, é uma balbúrdia.
Envolvimento dos pais – As escolas boas se esforçam para atrair os pais para dentro da rotina escolar. Na escola de Novo Hamburgo alunos (E.M. Jacob Kroeff Neto), as reuniões com pais eram marcadas para as 7 da noite. Muitos pais faltavam. A diretora ligou para os faltantes para descobrir o porquê da ausência. Ouviu que as reuniões eram feitas muito cedo, não dava tempo de chegar do trabalho. As reuniões então passaram a acontecer uma hora mais tarde. O quórum aumentou. Na escola boa de Goiânia (E.M. Francisco Bibiano de Carvalho), a diretora espera os pais todos os dias, no portão da escola, tanto na entrada quanto na saída dos alunos, e conversa com quem ali estiver. Desde o 1º ano, a família recebe um boletim com notas e comentários extensos ao fim de cada bimestre. Na escola ruim de Belém, ao contrário, há um total descaso para com os pais. As reuniões são marcadas durante a manhã ou à tarde, horários impossíveis para qualquer trabalhador. A direção e os professores comunicam eventuais problemas dos filhos por bilhetes – mesmo sabendo que a maioria dos pais é de semianalfabetos. Cumprem os rituais, mas é só.
Cultura do sucesso versus tolerância ao fracasso – Já dizia Ambrose Bierce que o dicionário é o único lugar em que sucesso vem antes de trabalho. As boas escolas obtêm desempenhos mais altos porque trabalham duro para isso. E o primeiro passo dessa caminhada é ter a expectativa do sucesso, com metas ambiciosas. Os diretores e professores das escolas que funcionam esperam que seus alunos aprendam. Quando o aluno não aprende, eles chamam os pais, criam aulas de reforço, insistem. Chamam para si a responsabilidade. Já as escolas fracassadas aceitam o insucesso como normal – quando não põem a responsabilidade sobre um ente externo, fora do controle da escola. Pode ser “o sistema”, os políticos, os pais, os alunos ou a sociedade. Nunca é com eles. A terceirização da responsabilidade produz indolência. Na escola com Ideb baixo de Goiânia, os alunos estão praticamente analfabetos – no 4° ano! Perguntei se faziam algum trabalho de reforço. “Sim, três horas diárias!”, disse-me orgulhosa a diretora. Pedi para ver a aula. Ela era ministrada em área semicoberta por um tatame e compartilhada pelos alunos com alguns instrumentos musicais. Não havia lousa nem material didático. Perguntei pelo arranjo peculiar e me disseram que metade do tempo de aula era usada para lições de tae kwon do. Devotar metade da aula a atividade esportiva, com alunos analfabetos no 4° ano, é uma confissão de abandono.
Uso do material didático – Nas boas escolas, professor e alunos usam o material didático como apoio, o que dá uma organização ao processo de ensino. Na escola boa de Caucaia (E.M. Celina Sá Morais), usa-se um material de um programa do governo do estado para alfabetizar alunos na idade certa. Professor e alunos são conduzidos por um caminho que dá certo, sem a necessidade de reinventar a roda a cada dia. Nas más escolas, ou o material didático não é usado ou o professor o utiliza para substituir a aula. Na mesma Caucaia, na escola ruim, a atividade dos alunos consistia em ler o livro didático e responder às perguntas do próprio livro. A professora ficava ali olhando. Na escola ruim de Novo Hamburgo, o professor se limitava a entregar jornais aos alunos. A menina sentada ao meu lado ficou olhando as propagandas de clínicas de emagrecimento...
Monitoramento e avaliação – Nas boas escolas, há avaliação constante e formal.
O poder do bom professor – É impressionante a diferença que um professor faz, mesmo nas condições mais precárias. Em Vitória, entrei na turma do 1º ano, de uma professora chamada Alecsandra. Ela escrevia na lousa em ótima caligrafia. Falava baixo e atenciosamente com os alunos. Engajava-os, fazendo perguntas a todos. Com três meses de aula, muitos já estavam demonstrando sólidos sinais de alfabetização. Qualquer professor que culpe “o sistema” deveria passar por uma aula assim para voltar a acreditar em si mesmo.
PS. As escolas públicas do país deveriam ser obrigadas por lei a pôr seu Ideb em placa de 1 metro quadrado ao lado da porta principal, em uma escala gráfica mostrando sua nota de zero a 10. Na placa deveria aparecer também o Ideb médio do município e do estado. A maioria dos pais e professores hoje não sabe se a escola do filho é boa ou ruim, e, se esperarmos que consultem o site do MEC, seremos o país do futuro por mais muitas gerações. Mande um e-mail para seu deputado e exija essa lei.
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